Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

30

de
janeiro

É carnaval!

 

O carnaval começou pra mim faz uma semana, quando meu chefe me passou a tarefa de redigir e gravar vários programas curtos sobre o enredo de cada escola de samba dos grupos Especial, A e B, num total de mais de 30, cada uma com enredo próprio, mas nem sempre exclusivo. Portela e Paraíso cantam Clara Nunes, cada qual a seu jeito e a primeira com muito mais propriedade, embora o enredo seja sobre a Bahia. Explico: o título é “E o povo na rua cantando é feito uma reza, um ritual”, versos da música Portela na Avenida, de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, que foi marido de Clara e compôs o samba para a sua voz poderosa. A Tuiuti vem com “A tal mineira”, enredo específico, dedicado somente à cantora, a “Clara Guerreira”, como foi chamada primeiro no mundo do candomblé; logo mais, em toda parte.

Mas eu falava que o carnaval começou mais cedo para mim, e admito um certo encantamento com isso, porque se no racional não me agrada a festa, no emocional ainda trago vivas na memória as imagens do Salgueiro campeão festejando o título no Boulevard 28 de Setembro, coração e alma de Vila Isabel, com outra Isabel, Valença, mulher do Osmar “Rato”, presidente da escola, vestida de Chica da Silva, enredo e título do samba de Anescarzinho e Noel Rosa de Oliveira (nada a ver com Noel de Medeiros Rosa, o poeta da Vila). Bons tempos, velhos sambas cantados na avenida, não essas marchinhas apressadas de hoje. Também, nenhuma escola tinha três, quatro mil figurantes, o desfile era lento e o povo acompanhava melhor o desenvolvimento do enredo.

Chega de saudosismo! Carnaval é isso mesmo, as escolas são “super escolas de samba S/A, super alegorias, escondendo gente bamba, que covardia!” já denunciavam Aluísio Machado e Beto Sem Braço no enredo do Império Serrano de 1982, “Bum bum paticumbum prugurundum”. Legal é ver enredos como os cem anos de Nelson Rodrigues, da Viradouro, e Jorge Amado, na Imperatriz Leopoldinense, que faz lembrar a Lins Imperial e o Império Serrano, que já cantaram o escritor em carnavais passados.

Aí começa a esculhambação: a Porto da Pedra vem com o incrível enredo “Da seiva materna ao equilíbrio da vida”, samba do crioulo doido que imagina enaltecer o iogurte como fonte de energia, proteínas, sais minerais e, obviamente, gordo patrocínio da Danone à escola. Lembra da Mangueira quando quis puxar o saco da ditadura com o samba sobre o Correio Aéreo Nacional? Foi em 1971, no governo Médici, e o samba falava de “modernos bandeirantes” e lá pelas tantas cantava a seguinte pérola : “Nossos pássaros de aço/deixam o povo feliz/ninguém segura mais este país”. Os generais tiveram orgasmos, mas a Mangueira amargou o quarto lugar – e o resultado só não foi pior porque as notas dos jurados são anunciadas no microfone e aí já viu, né, quem tem, tem medo.

Como quem gosta de passado é museu, vou só lembrar aqui os nomes de blocos que saem às ruas nos próximos dias: “Se cair eu como”, “Encosta que ele cresce”, “Quem vai, vai, quem não vai, cagueta”, “Já comi pior pagando”, “Se me der, eu como”, “Mulheres da Vila”, “Sorri pra mim”, “Calma, calma, sua piranha”, “Só o cume interessa” e por aí vai a fértil imaginação. Mas pra mim o melhor mesmo é o “A coisa tá feia e o teu nome tá no meio”.

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6

de
janeiro

Adeus, ano velho, feliz ano novo

 

O ano começa e com ele ressurgem as previsões e decisões pessoais habituais de todo janeiro, desde que me entendo por gente, lá se vão tantas décadas que, resignado, antes mesmo das doze badaladas (quem se lembra?) reli as instruções e prescrições da Patrícia, a nutricionista. Uma série de cautelas, poucas restrições e recomendações básicas, como não interromper os exercícios físicos nem comer fora de hora, sobretudo a desoras (vai ser velho assim na conchinchina!), as preferidas por assaltantes de geladeira e vizinhanças. Patrícia quer que eu perca dez quilos, mediante menos empenho no prato e maior nas caminhadas na areia e no mar onde já arrisco braçadas perto do Forte de Copacabana.

Como venho desenvolvendo autodisciplina modelar desde a visita às fronteiras do Além, em novembro de 2010, espero alcançar antes do fim do ano esta meta impensável para a maioria do pessoal que encontro saindo das irresistíveis delikatessens – sem mencionar agente humilde do Garoto, que vivia em casas simples com cadeiras na calçada, na fachada escrito em cima que era um lar e cuja refeição mais consistente, nos dias desta dura sobrevivência,não passa do salgado com refresco a um real e meio nas lanchonetes centrais. Sem trocadilho, essa massa disforme é a responsável pelos índices nacionais obscenos de obesidade aos olhos do Ministério da Saúde, da OMS e imagino que até de ONGs dedicadas à preservação da vida no planeta.

Minha prioridade para 2012, entretanto, não se limita à perda de peso, desejável para a saúde e a estética: o mundo trata melhor os magros, como ensina mais ou menos subliminarmente a mídia, através de anúncios, reportagens, entrevistas e estudos científicos saídos do forno agorinha mesmo. Minha meta primeira é melhor convivência com o resto do mundo, a começar comigo mesmo, o cara que saiu do hospital e ainda não encontrou espaço próprio no mundo e na vida. Ao contrário das experiências sobre as quais li ou ouvi, a proximidade da morte não me abriu um terceiro olho, visão mais compassiva e a epifania do essencial à felicidade nesta terra. Com mais frequência, aliás, ando mais crítico do que antes, impaciente comigo, e embora cresça a noção da longanimidade e da afabilidade tão necessárias à convivência pacífica e profícua com os semelhantes, cada dia vejo menos semelhantes no caminho – então me revelo cínico, para meu pecado e desgosto.

Logo, o objetivo vital hoje para mim é convencer-me das limitações em geral, sobretudo as minhas, mas igualmente as dos outros, as da vida e as do mundo onde nos percebemos cada minuto mais perdidos. Sem isso, posso tirar o cavalinho da chuva (mais outra das antigas), entrar para o convento ou para a cadeia – é tudo privação de liberdade, a começar pelo pensamento. Não me entrego, porém, conforme os tempos mais recentes da minha vida comprovam com fartura. Tenho de vencer meus obstáculos e confirmar, como escreveu Pessoa, que “tudo vale a pena, se alma não é pequena”. O problema aqui é que, extraído do seu contexto, o verso faz sentido, mas não completamente. Confira:

“Mar Portuguez

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.”

Em pobres palavras minhas, é preciso vencer o temível cabo onde outrora se acreditava acabar o mar e o mundo, para alcançar não as glórias humanas, efêmeras, mas antes a própria grandeza da existência – eis aí meu maior desafio para 2012. Que, a propósito, tem sido o mesmo desde sempre, apenas eu não o percebera até chegar ao limiar e aprender que existe vida além do Bojador. A questão é: onde a grandeza da alma se recolheu, para de lá incitá-la à dimensão que não só eu próprio como Deus, meu criador, ansiamos realizar?

O rabino Nilton Bonder ilustra com um dos mais conhecidos episódios bíblicos esse raciocínio no livro “A alma imoral”, a partir do qual a atriz Clarice Niskier criou o monólogo homônimo, explicando com clareza o trecho do Êxodo. Ao conduzir seu povo pelo deserto, fugindo do exército de faraó, Moisés chega ao Mar Vermelho e se vê entre a morte na água ou nas armas egípcias. A gente fraqueja, duvida e se divide, mas o líder ergue os olhos ao céu, clama ao Senhor e entra no mar caminhando como em terra firme. Quando a água está na altura do seu nariz, o mar se abre e os hebreus cruzam o leito seco em segurança até a outra margem, enquanto os perseguidores e seus cavalos se afogam.

Encurralado, Moisés precisou buscar no mais profundo de si mesmo, no limite da alma, onde a fé espera inabalável, a realização dos desígnios a que muitos chamam destino, com toda a carga de fatalidade que a palavra encerra e a caracteriza como obstáculo à realização das aspirações pessoais de todos e de cada um de nós.

Feliz ano novo.

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16

de
dezembro

Feliz aniversário

Dilma por Romero Britto.

Quarta-feira dia 14 último foi um dia especial, muito especial, para Dilma Rousseff: completou 64 anos ao lado da filha, do neto, de uns poucos amigos e do ex-marido com quem mantém relações civilizadas, ao contrário de muita gente boa por aí. Refratária à agenda social, passou o aniversário descansando, para frustração do contingente de puxas sacos, que odeiam perder uma chance dessas. Como ela deixou Brasília na véspera, imagino que secretárias, ministros “da casa” e frequentadores habituais do Palácio do Planalto tenham antecipado seus parabéns. Mas, conhecendo um pouquinho da vaidade nas entranhas do poder, acredito, também, que algum bajulador afoito tenha aproveitado um cochilo do cerimonial para chegar junto e dar o seu recado: "Parabéns pelo dia de amanhã, presidenta, boa viagem…e se por acaso a senhora espirrar, não esqueça: saúde!"


A quem interessa, é sabido que Dilma tem alergia a rapapés e, às vezes, pode até parecer dura no trato pessoal, como em audiência próxima sentiu o presidente da Petrobras. José Sérgio Gabrielli. Ele caiu na esparrela de repetir algumas vezes a expressão “eu acho”, até que recebeu a estocada: “Quando você tiver 56 milhões de votos, você ache o que quiser”. Note que ele preside a maior estatal brasileira, com ramificações e negócios em 27 países além das nossas fronteiras, agraciado há poucos meses com o prêmio de melhor executivo mundial de gás e petróleo do ano pelos líderes das cem maiores empresas do ramo no planeta.
Mas, pessoalmente, eu acho que Gabrielli não deu parabéns a ela este ano.


Outros insatisfeitos com o tratamento recebido com certeza se abstiveram de desejar muitos anos de vida a Dilma, por questões de foro íntimo e coerência com seus desejos mais recônditos. Entre eles, a maioria dos ministros que perderam seus cargos na faxina empreendida neste ano inaugural de sua gestão. Palocci, o primeiro a deixar o trem, pode ser exceção, por sua condição de correligionário e figura de proa na estrutura do partido. Não deve ter sido efusivo, apenas formal e protocolar.


Quarta-feira bem cedo em Porto Alegre tocou a campainha o rapaz da floricultura com um arranjo luxuoso que chamou a atenção geral na casa, a começar pela segurança. Era um presente inofensivo, mas prudência e caldo de galinha nunca mataram ninguém, assim, o imenso buquê passou pelo detector de metais e pelo raio x, antes de ser levado à aniversariante quando tomava o frugal café da manhã – uma fatia de mamão, café preto com adoçante e um naco razoável de queijo Minas acompanhado de umas poucas torradas de pão de queijo. Sem externar curiosidade, abriu o envelope que continha o cartão e leu:


“Parabéns, minha querida. Sei que é difícil, mas me perdoa. Do teu, sempre, Lupi”.


Desprezou o cartão com um gesto de enfado, arqueou as sobrancelhas para escolher uma torrada na cestinha, cobriu-a com um pedaço de queijo branco num ritual distraído e mecânico e levou à boca com a elegância de comensal de rainhas e presidentes ao redor do mundo.


O primeiro aniversário da primeira presidente do Brasil passou assim, simplesinho, em brancas nuvens, sem fanfarra nem festa, num estilo bem diferente do que se viu nos governos de Lula. Neste aspecto, a presidente é tão discreta que nem foto oficial foi divulgada: ela almoçou na casa do ex-marido e voltou para Brasília no fim da tarde, para retomar o batente na quinta-feira de manhã com o ânimo de sempre e idade nova. No avião presidencial, ganhou o maior presente que poderia esperar: a aprovação ao governo subiu de 51 para 56% de setembro para cá e sua aprovação pessoal está em 72%, segundo pesquisa a mais recente pesquisa mensal CNI/Ibope.


Deus a abençoe.

14

de
dezembro

O Brasil civiliza-se

 
Pode tirar o cavalinho da chuva, não teremos as estações definidas como no hemisfério norte, onde as folhas apenas esperam o primeiro dia do outono para cair, proporcionando beleza explorada por fotógrafos, cinegrafistas, cineastas e afins. Não teremos, tampouco, flocos de neve nem cristais de gelo sobre a Avenida Paulista ou a Rio Branco, nem a floração esplendorosa de setembro dos campos do norte, seja na Europa, na Ásia ou na América. Somos subtropicais e assim continuaremos pelos séculos dos séculos amém, marcados por uma saudável baderna climática que nos livrou durante os tempos difíceis da ditadura da manchete que o Pravda costumava escancarar, na data prevista: "Começa a primavera". Houvesse ou não notícia mais importante para a manchete - e sempre havia, é claro - o principal jornal soviético traduzia a censura oficial na obviedade sazonal. Aqui, no dia 14 de dezembro de 1968, dia seguinte ao da supressão das liberdades e garantias constitucionais pela ditadura, com o Ato Institucional nº 5, o Jornal do Brasil publicou no alto da primeira página, em letras miúdas como fazia diariamente, a previsão do tempo do editor Alberto Dines, driblando a censura prévia dos jornais: "Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos…"
 
Por outro lado, juntamente com os ventos metafóricos da democracia, vieram o buraco na camada de ozônio, o degelo da calota polar, o El Niño e o aumento dos furacões, terremotos e tsunamis. Tudo contribui para as alterações dramáticas em várias partes do planeta, que no nosso país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza se traduzem em temporais apocalíticos (apocalípticos, se preferir) cujas consequências são milhares de desabrigados e o enriquecimento de prefeitos de algumas cidades atingidas. Mas vale agora ressaltar mudanças como o aquecimento global que vêm inserindo o Brasil e toda sua região geográfica num mundo novo de realidades sazonais até algumas décadas imperceptíveis, como a mera chegada das estações. Não vamos ter flores desabrochando no primeiro dia da primavera, nem temperatura acentuadamente mais alta no sol inaugural do verão, mas já percebemos transformações no ar, por assim dizer, um viver mais civilizado e parecido com nossos irmãos do norte.
 
Se prestar atenção, você perceberá neste final de ano a chegada gloriosa do verão, coroando a primavera que se despede com a aura mágica de pólen e colibris, colmeias e abelhas, animais em reprodução, biquínis e sungas, vestidos esvoaçantes e bermudas de algodão, sandálias e chinelos. Começa agora, bem pertinho do natal, a estação dos 40 graus e das praias lotadas todo santo dia, dos ambientes refrigerados em contraposição às ondas de calor do trânsito ao sol escaldante. No entanto, se você for daqueles que têm termômetro em casa, nem precisará recorrer a ele para notar que não se fazem verões como antigamente, o calor da minha infância, em que os cachorros se esgueiravam junto aos muros com olhos baços e meio palmo de língua pendurada da boca entreaberta, as mulheres saíam com sombrinhas e leques de mão, saias leves e levemente evasés, frentes-únicas sugestivas de vedadas libertinagens. Eram tempos quando "sacanagem" era palavrão, temporais lavavam ruas, corpos e almas, entupiam ralos nas vias públicas e sempre alagavam a Praça da Bandeira. Eram dias de lenço branco guardado no bolso da calça e que todo homem usava o seu para enxugar o suor da fronte, limpar discretamente a boca depois de tossir ou oferecer à mulher para enxugar uma lágrima, tirar um cisco do olho. 
 
Naquele tempo era comum a expressão "canícula senegalesca", hoje inútil, porque não faz calor de amolecer o asfalto sob os pés nem a moleira de ninguém. São dias mais amenos, e até ouço aqui e ali queixas sobre o frio que tomou conta da cidade mesmo passado o inverno e a primavera se despedindo. Quiseram até vestir casaco no Cristo, coitado, quase sempre molhado por "cumulus nimbus" que o eclipsam aos olhos da cidade frustrada. Fez frio para paulista nenhum botar defeito e argentino vestir casaco em Copacabana. Felizmente, esses dias se foram e agora o sol sorri logo cedo, aquece nossos ossos até a tardinha e resfria civilizadamente para se despedir no horizonte do Arpoador. Aí pode chover um pouco, não muito, só para a noite soprar uma brisa de 19 ou 20 graus e a madrugada aconchegar os amantes, sem o barulhinho chato do ar condicionado.
 
Mas se prepare, porque até o carnaval a coisa vai num crescendo até os 43, 44 graus às duas da tarde e noites em que as baratas se suicidam de calor em plena calçada. No entanto, isso passa logo, e em abril começa o ciclo novamente, maio de céu azul sem uma nuvenzinha sequer e termômetros em níveis mais agradáveis. Aí os jornais começam a tratar do aquecimento global, como todo ano acontece, quando o verão bate às portas do hemisfério norte e a Europa, mais uma vez, se curva diante do Brasil. 
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8

de
dezembro

De Jango a Lupi

Jango foi ministro do Trabalho em 1951 

Carlos Lupi deixou o Ministério do Trabalho por anacronismo político-ideológico. É um tipo totalmente fora de moda, do penteado às meias (esse pequeno detalhe revelador do gosto e do caráter de quem as calça), passando pelo terno de loja de departamento, pelas gravatas de camelô e até pela camisas de malha listrada que tão bem realçam sua silhueta. Começou como sindicalista e presidiu a entidade de classe dos jornaleiros cariocas, abraçado às causas do trabalhismo getulista que teve o auge de sua influência dos anos 40 até meados dos 60, quando as elites derrubaram pela segunda vez João Goulart, usando as forças armadas para tanto e em nome de uma ameaça comunista tão incipiente quanto duvidosa. A primeira queda de Jango se deu no mesmo Ministério do Trabalho, no governo democrático de Vargas, no começo da década de 50, ao dar aumento de cem por cento no salário mínimo. Motivo até edificante, ao contrário do que temos hoje. O presidente manteve a decisão, mas demitiu o ministro que em poucos anos se elegeria vice-presidente duas vezes seguidas, de Juscelino Kubitschek e de Jânio Quadros. 

Lupi também guarda alguma semelhança fisionômica com Jango, e com Jânio no histrionismo que é outra característica marcante dos estadistas em toda parte. A fidelidade aos princípios trabalhistas estabelecidos pelo vetusto PTB na instituição da jornada de trabalho, da CLT e da carteira de trabalho manteve intocada a sua imagem, assim como a de Leonel Brizola, cujas palavras ecoava com fidelidade canina e ar bovino, embora em muitas ocasiões sem entender seu alcance. Mas na qualidade de ministro do Trabalho, Lupi mandou desenterrar, em 2007, a memória de João Goulart, apenas na forma, no verniz. Do porão do antigo prédio no centro carioca que havia sido a sede ministerial até a criação de Brasília mandou subir, limpar e lustrar os móveis que decoravam o antigo gabinete de Jango, resgatando até a bandeira nacional que ficava atrás de sua mesa, e o antigo cenário era exibido às visitas com orgulho, como capricho pessoal embora de importância histórica.

Sob todos os aspectos é sempre louvável a iniciativa de preservar a memória nacional, mesmo que seja a reconstituição original do gabinete de um ministro que duplicou o valor do menor salário pago no seu tempo, foi duas vezes vice-presidente e depois presidente da república, apeado num golpe sem sangue no contexto do anticomunismo internacional. Ao contrário do ministro do começo da década de 1950, o de agora caiu por questões que não soube avaliar e compreender, como as mentiras tolas, negativas infantis e o fato de ter uma mulher como chefe, coisa impensável desde Getúlio Vargas, porque o poder é masculino, como ensinam os dicionários.

 

21

de
outubro

Testemunha ocular

Imagens feitas por telefone celular de Kadafi arrastado pela rua, ensanguentado e com as roupas rasgadas, cabelos desgrenhados e a expressão intraduzível de quem adivinha a morte próxima, são ainda mais chocantes do que as de Saddam Hussein saindo do buraco onde foi achado pelos militares americanos no Iraque, anos atrás. Ou as de antigos chefes de estado depostos, presos e deportados ou mortos depois de julgamentos legítimos ou de simulacros convenientes à ocasião. Imagens de Kadafi captadas por alguém correm o mundo, ao fim de meses da sangrenta caça empreendida pelos rebeldes apoiados por forças estrangeiras de olho no petróleo líbio e não no bem estar do povo ou nos valores democráticos, até porque democracia é coisa de ocidental que assimilou e adaptou os ensinamentos dos gregos antigos, ditos inventores da democracia cujos princípios diferiam muito dos defendidos hoje, quase sempre de maneira hipócrita, para manter privilégios e vantagens indevidas.

O que me move, no entanto, são as imagens em movimento gravadas por um telefone anônimo cujo dono sabia muito bem a importância do que registrava. Não se ouve o ex-ditador implorar “Não me matem, meus filhos”, como garantem ter pedido as agências noticiosas, aliás não se ouve nada além do alarido da turba que está pronta para executar sua vingança bárbara, na essência a mesma contra Osama Bin Laden, com a diferença de que não há sequer uma foto em preto e branco, não se sabe nem quem deu o tiro na cabeça nem o que foi feito do cadáver – sofisticação digna de registro do nível civilizatório dos Estados Unidos e de sua preocupação com o surgimento de um mártir e também da documentação do rito sumário que empreendeu com exito e aplauso quase unânime. Afinal, Bin Laden era o terrorista número um, o símbolo do mal que ameaça toda a humanidade…ou não? O tempo dirá.

Ditadores são, pela própria índole, autoritário e sanguinários sempre que necessário, eliminando adversários a torto e a direito sem julgamentos ou outras formalidades. Não estão nem aí para o que os outros chamam de “direitos humanos”, porque os outros, os democratas, desrespeitam diária e eternamente os mesmos valores e trancam sua própria escória pior do que a animais, maltratam, surram, violentam, torturam e matam com intensidade e frequência não raro maiores do que os ditadores, e a diferença singela é que não são adversários políticos as vítimas, mas seu povo mesmo, como os ditadores em fim de carreira fazem de maneira desabrida e franca – Mubarak, Kadafi, Ceacescu, Somoza, Batista (e Fidel, em seguida), os Duvalier – enfim, uma extensa deplorável relação infindável até o último dia do homem na terra.

Ao ver as imagens amadoras de Kadafi na tevê, no entanto, me lembrei de outra, fixa e em preto e branco, de Benito Mussolini pendurado pelos pés numa praça, no fim do fascismo italiano, original que deu origem à série. O espanhol Franco teve sorte menos cruel e acabou seus dias como um zumbi deitado na cama de um hospital madrilenho ligado a tantos aparelhos que já não se podia dizer ao certo qual auxiliava a respiração, qual impulsionava o sangue nas veias, qual mantinha, enfim, sua vida vegetativa.

Observando diretamente da tevê, sem a amenização do impacto pela imagem estática, constato o início da nova era na instantaneidade da vida, da agonia, da morte. Sem escapar ao jogo de palavras que a constatação traz, qualquer mortal pode registrar o que bem quiser e expor aos olhos do mundo quase que na mesma hora. Como escreveria Nelson Rodrigues, um turista que desembarcasse no planeta hoje escreveria no seu caderninho “o ser humano é testemunha ocular de suas próprias desgraças”.

30

de
setembro

País rico é país sem pobreza

Faz já algum tempo, quase um ano, que incorporei à rotina diária caminhar pela areia molhada de Copacabana, da altura da Prado Júnior até a colônia de pescadores no posto seis, ida e volta quase sempre em passo de marcha, mas algumas vezes mais lentamente, curtindo alguma novidade ou apenas a paisagem e as pessoas.

No caminho, quando o sol esquenta o corpo, entro na água até o joelho ou a cintura, depende da braveza do mar, me refresco por dentro e por fora e retomo o percurso literalmente de alma lavada, quantas vezes a temperatura recomendar ou a algazarra das crianças junto à espuma branca das ondas contagiar.

Capítulo à parte na praia, a qualquer hora, a garotada faz jus à denominação de alevinos, no incansável afã de brincar, ora fugindo, ora entrando, assustadas ou intrépidas, sempre ao som de ganidos, que nada têm a ver com peixes. A incontida alegria infantil é a mesma dos marmanjos, só que estes a mascaram comportando-se conforme a idade: adolescentes trocam empurrões dentro d’água, dão pretensos saltos acrobáticos, atiram-se ao mar como fugitivos do fogo.

À medida que amadurecem, os banhistas adotam posturas que julgam ajuizadas, bronzeiam-se estendidos na areia, molhando-se a espaços regulares de tempo; mais maduros protegem-se à sombra das barracas próprias ou alugadas, raramente fazem-se ao mar – como diziam os antigos portugueses – e no geral estão em grupos pequenos de amigos.

Já os idosos, na maior parte, andam pela praia como o locutor que vos fala, obedientes a prescrições médicas e recomendações de várias ordens e matizes, nascidas nos encontros nos bares, nas salas de espera dos consultórios e sabe Deus mais onde.

É nessas caminhadas diárias que recomponho as forças do dia a dia, fortaleço músculos visíveis ou não, enfim, adquiro a dose de endorfina sem a qual a vida seria muito chata, como pode perceber qualquer pessoa diante do jornal ou da televisão ou ouvindo o rádio.

A mediocridade e a chatice estão tão em alta que uma ministra nomeada para cuidar dos interesses das brasileiras mais sofridas cismou de proibir um anúncio de mulher bonita com Gisele Bündchen (assim mesmo, com trema, ela merece). Sua excelência é, com todo o respeito, um jaburu capixaba da mais alta estirpe, e não consta até o momento reclamação sua sobre as anônimas modelos que abundam nos comerciais da cerveja em trajes ainda mais sumários que a lingerie da Gisele e sem a graça do seu comercial, em que a exibição do corpo tem pelo menos a saudável função de provocar a libido do seu fictício marido, e não ser exibido como carne com caras e bocas nos bares do consumo.

Mas deixemos de lado a chatice oficial e passemos à mediocridade galopante, avassaladora. Num sábado recente, a colunista Ana Cristina Reis escreveu no caderno hebdomadário Ela do jornal O Globo que quem manda no Brasil não conhece crase nem sabe o que é um pronome oblíquo – “aliás, nem sabe o que é oblíquo”, completou a amiga com quem conversava. Pior é que isso é o de “menas”, diria o doutor honoris causa pelo Instituto de Ciência Política de Paris.

A ignorância crassa grassa por estas plagas a ponto de a gente comum entender mais propriamente o que vem a ser “callcenter” do que “centro de atendimento” e de um doutor entrevistado às vésperas de uma corrida de carros em São Paulo afirmar que o “medical center” estaria pronto a tempo e a hora.

Por essas e outras, as palavras em língua portuguesa perdem sentido; ou antes, ganham outro, novinho em folha, como na frase reproduzida numa revista de periodicidade igual ao caderno feminino do Globo há semanas: “Fulano tá podendo, véi, arrumou um emprego com um salário gastronômico.” Nada pantagruélica, outra confusão também mostra o grau de desinformação cada dia mais comum e menos surpreendente: a freguesa (hoje transformada em cliente, satisfazendo uma necessidade falsa como uísque de novela) consulta a mocinha da loja se não teria, por acaso, um CD da cantora lírica Maria Callas, e a resposta é quase uma reprimenda: “Temos sim, mas o nome é Maraia Quérei”. Pano rápido.

Assim, de ignorância e desinformação, vamos no rumo da pobreza real, contrariamente ao discurso do país rico que se almeja a qualquer custo, mesmo que seja preciso formar mais bacharéis, mestres e doutores cujo conhecimento sequer alcança o significado desses títulos acadêmicos. A distância entre o discurso e a prática é incomensurável, nossa história é a narrativa do culto ao não saber, à esperteza e à burla. Chega a dar dó ver a presidente Dilma imbuída dos mais nobres propósitos e cercada por gente de um lado corrupta até a medula e de outro de gente politicamente correta até a cegueira (ou devo dizer deficiência visual?)

26

de
setembro

Guri adotado

A notícia no jornal dá conta apenas de que o Secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, quer sugerir ao Chico Buarque que componha uma versão nova, atualizada, da antiga canção “Meu guri”, mas acho que tudo não passa de intriga dessa oposição, saudosa do tráfico, mandando e desmandando nos morros sem Unidades de Polícia Pacificadora, as populares UPPs.

Afinal, onde já se viu chefe de polícia se meter nesses assuntos? Desde “Pelo telefone”, o primeiro samba gravado no país, delegados, investigadores, guardas e policiais em geral frequentam, aqui e ali, versos, e o próprio Chico, que me lembre, já retratou isso ao escrever “o delegado é bamba/na delegacia/mas nunca fez samba/nunca viu Maria”, num sucesso antigo. É a senha para agradecer o possível palpite infeliz do secretário e dar a coisa por encerrada.

“Meu guri”, vocês sabem bem, é uma crônica musicada que trata da mãe de um adolescente morto pela polícia e cuja foto saiu no jornal, com “as iniciais”, confirmando a condição de menor de idade. É uma história bela e triste, ingênua e trágica de uma mãe que não tem a mínima ideia da verdadeira atividade do filhote, assaltante e ladrão que lhe dava “pulseira, relógio, gravador” e tantos colares que “haja pescoço pra usar”.

Um dia, como costuma acontecer com garotos como ele, foi executado e virou notícia de jornal. Na foto, “tá lindo, sorrindo, de papo pro ar”, segundo a ênfase dada pelo poeta à alienação da mãe. É o retrato do cotidiano de muitos e muitos guris nos morros cariocas, nascidos na adolescência das mães, sem pai, sem família, sem nada a não ser a escola da sobrevivência neste vale de lágrimas. Fazer o quê?

Com certeza muita coisa pode e deve ser feita, inclusive a retomada do território ocupado por bandidos há décadas pelo poder público, e o secretário Beltrame é o primeiro a reconhecer que as UPPs, sozinhas, não são solução, mas um paliativo, um passo inicial, a conquista do terreno, como bem mostram as imagens das bandeiras oficiais fincadas nos cumes das favelas recém-ocupadas.

O segundo passo é nomear e numerar ruas e casas, água encanada, rede de esgoto, luz elétrica, coleta de lixo, contenção de encostas, implantação de escolas, transporte coletivo, enfim, a presença efetiva do Estado. O terceiro passo são as agências bancárias, os serviços de telefonia fixa, a tevê por assinatura legal, a titulação dos proprietários das unidades, e o quarto passo é o acesso ao mercado consumidor, o cartão de débito etcetcetc, até criarem-se as condições essenciais à tão falada cidadania.

Foi o próprio secretário de Segurança Pública quem se queixou, em entrevista histórica e memorável ao Globo, há meses, de que todo mundo só fala do Complexo do Alemão, onde já tem teleférico, banco, assistência à legalização de comércio e de fábricas domésticas de salgados e doces, ONGs atuando junto à criançada e aos jovens.

A queixa, dizia ele, vem do fato de que o Alemão nem tem UPP, está somente sob ocupação do Exército, do mesmo pessoal que andou pelo Haiti.

Onde estão todas estas entidades, ausentes até agora de muitas das 18 favelas pacificadas? O Alemão é, sem dúvida, emblemático, é um conjunto de favelas com talvez 40 mil moradores. Mas, e as outras? O tempo corre e os passos que devem seguir-se à ocupação ainda são tímidos, ou nem foram dados.

Por tudo isto, custo a acreditar que o secretário esteja à procura de Chico Buarque para compor a música “O guri do Beltrame”.

9

de
setembro

Velho homem de imprensa

 

Lennon e Matthau em "The Front Page"

Há (ou havia) um filme chamado “The Front Page” estrelado por Walter Matthau e Jack Lemmon, coadjuvado por Susan Sarandon e dirigido pelo genial Billy Wilder, feito em 1974 e ambientado nas primeiras décadas do século passado. Narra as peripécias do editor (Matthau) e o principal repórter (Lemmon) de um diário em Chicago.

É uma das comédias mais engraçadas do cinema norte-americano, tanto pelas situações quanto pelos diálogos. O repórter resolve se casar, para desespero do editor, que cria todas as armadilhas imagináveis, até perder para o amor do casal. Ao se render, finalmente, dá ao pupilo seu relógio de estimação como presente de casamento, e quando o rapaz parte ao encontro da esposa no trem para a lua-de-mel ele telefona para a polícia dando queixa do roubo e dizendo até onde prender o ladrão.

Para mim, velho homem de imprensa, a história da peça adaptada para a telona é exemplar da astúcia que já foi essencial no jornalismo, sobretudo o diário, e me faz recordar duas histórias, a primeira da década de 40 e a segunda de 70, dignas de figurar em qualquer antologia do gênero, se é que existe isso.

O ano era 1945 e a ditadura varguista do Estado Novo ia cair em breve. Orestes Barbosa editava o Diário Carioca e queria uma manchete profética, por isto chamou o repórter setorista na presidência e ordenou que fizesse uma só pergunta ao general Góis Monteiro, Ministro da Guerra apelidado de “condestável” do regime, principal entre os principais de Getúlio: general, é verdade que há um golpe em andamento contra o presidente?

- Você é louco?! – o repórter estrilou – Como é que eu vou fazer uma pergunta dessas ao Góis Monteiro?
- Simples: você, que tem acesso fácil a ele, chega perto e repete do jeito que eu disse. Preciso da manchete de amanhã. – explicou o poeta de Chão de Estrelas.
- Mas, Orestes, está na cara que ele vai dizer que não.
- Ótimo. Você volta e escreve a matéria e eu tenho a manchete “Góis nega golpe contra Getúlio”.
- E se ele entrar na brincadeira e disser que tem um golpe vindo aí?
- Melhor: “Góis confirma golpe contra Getúlio”.
- Mas, Orestes, conhecendo o general como eu conheço, é bem capaz de ele ficar me olhando sério e não dizer nada.
- Mesmo assim você fará a matéria e eu terei a manchete “Góis cala sobre golpe contra Getúlio”.

Não sei se alguma manchete foi publicada, mas Getúlio caiu, o Estado Novo acabou e ele voltou cinco anos depois, eleito pelo povo.

A segunda história é mais recente, do tempo mais difícil da ditadura militar, que foi o período do general Ernesto Geisel.

Muitos defendem que os anos negros foram os do Médici, mas a guerrilha do Araguaia foi derrotada no governo seguinte, o ministro da Guerra foi demitido sumariamente, o comandante do Segundo Exército, em São Paulo, caiu pelas torturas e os assassinatos do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho, enfim, foram os anos cruciais (e cruciantes) da “distensão lenta, gradual e segura”, ou uma no cravo, outra na ferradura.

Geisel conduziu o país com mão de ferro e, sem dúvida, foi o mais duro e determinado general da ditadura. Compactuou com o que se fazia nos porões, mas tinha projeto de país, visão de estadista, muito embora à maneira da caserna. Impôs como sucessor o inesquecível João Batista Figueiredo na “eleição indireta”, revogou o AI-5, o Decreto-Lei 477 que amordaçava a universidade e a censura prévia à imprensa, além de deixar o terreno aplainado para a anistia ampla, geral e irrestrita de 1979.

Foi, a propósito, em março daquele ano que passou o bastão a Figueiredo e escondeu-se no Sítio dos Cinamomos, em Teresópolis, que havia adquirido ao longo da vida militar. Queria paz e sossego, mas a imprensa não deixava e na manhã inaugural do novo governo, lá estavam os repórteres que cobriam suas vindas ao Rio de Janeiro postados junto à porteira. Lá pelas tantas, Humberto Barreto, que tinha sido porta-voz do Planalto e logo mais presidiu a Caixa Econômica, andou até eles e transmitiu o óbvio: “O presidente não vai falar com vocês”.

- Mas Barreto – argumentaram os repórteres que tinham com ele bom relacionamento -, pede pra ele vir até aqui e dizer qualquer coisa, a gente precisa levar alguma coisa pra redação.

Humberto Barreto voltou para a casa e tempos depois saiu com Geisel ao lado, ambos caminhando lentamente, como que provocando a ansiedade da imprensa. O repórter do Globo correu até o carro da reportagem, recolheu uns oito ou dez exemplares da edição do dia, trazidos por ele mesmo diretamente da boca da rotativa ao sair do jornal e postou-se junto à cerca. Quando o general chegou ele chamou sua atenção para a pilha de jornais, que Geisel pegou, na certa pensando serem exemplares dos diversos diários do país. Deu-se conta, então, de que eram cópias do mesmo jornal, e exclamou, em tom de deboche:
- Agora só vou ler o Globo?!

Pronto: na manhã seguinte lá estava na primeira página a foto do ex-presidente com os jornais nas mãos junto à porteira do Cinamomos embaixo da manchetona: “Geisel: "Agora só vou ler O Globo".

23

de
agosto

A mulher da faxina

No calçadão de Copacabana, a passos acelerados na direção do Posto 6, cercado de outros caminhantes vespertinos, ciclistas tardios, maratonistas de araque e demais espécies da vasta fauna local, pergunto à minha camiseta de algodão, já que não tenho botões a quem falar, se serão sinceras as motivações da Dilma ou não passará de troca da guarda nos ministérios até agora alcançados pela já falada “faxina” a dança das cadeiras no primeiro escalão de Brasília. Senão, vejamos:

Fulminado pelo faturamento de 20 milhões da sua empresa de consultoria no ano passado, Antônio Palocci cedeu lugar a Gleisi Hoffmann na Casa Civil, na mudança inaugural do que pode se atribuir ao estilo Dilma de governar. Quase na mesma canetada, Luiz Sérgio trocou as Relações Institucionais com Ideli Salvati, que deixou o esquisito Ministério da Pesca. Troca também apropriada e bem recebida pela mídia. Em seguida, Alfredo Nascimento, abatido pela proverbial corrupção no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, deixou a cadeira de ministro para seu secretário executivo e marido da cantora Rosa Passos, Paulo Sérgio Passos.

Da mesma maneira e por razões muito parecidas, Wagner Rossi “pediu demissão” da Agricultura, na esteira das denúncias envolvendo a Companhia Nacional de Abastecimento, outro histórico antro de corruptos apadrinhados e a serviço de políticos profissionais. Ela resulta da fusão das antigas Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal), Companhia de Financiamento da Produção (CFP) e Companhia Brasileira de Armazéns (Cibrazem). Assim como no DNER, trabalhei por algum tempo na Conab, o primeiro sediado no Rio de Janeiro e a segunda em Brasília. Sou testemunha do trabalho sério de técnicos e funcionários de ambos os órgãos públicos e da vergonha que sempre sentiram com a roubalheira promovida por diretores nomeados precisamente para promovê-la. Desiludidos após anos de assalto impune, muito desses servidores tornaram-se cínicos, quando não simples coniventes e partícipes do butim.

Em contexto diverso, numa solenidade em São Paulo na quinta-feira, Dilma empregou em seu discurso o termo “faxina”, referindo-se ao combate à miséria. Ficou clara, entretanto, a intenção de mencionar a palavra-chave adotada por jornalistas e parlamentares quando tratam das mudanças no ministério. De fato, chegamos a um ponto em que é tão grande a bandalheira que surge no Senado uma “banda ética” capitaneada por Pedro Simon e já com a pronta adesão de Jarbas Vasconcelos e Cristóvam Buarque pela criação da Frente Parlamentar Suprapartidária de apoio a Dilma Rousseff somente neste empreendimento. A iniciativa senatorial é saudada como da maior relevância porque quem não aderir será suspeito.

Em outra linha de raciocínio, as substituições no primeiro escalão podem ser vistas como a tomada do poder real pela Dilma que, todos sabemos, foi inventada por Lula quando a empossou na Casa Civil, na saída de José Dirceu, em 2005, e dois anos mais tarde fez dela a “mãe” do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC hoje em sua segunda edição. Ao mesmo tempo que gerenciava o programa, Dilma fazia o melhor curso de conhecimento da corrupção na administração pública, graças às concorrências e obras em estradas, ferrovias, aeroportos, portos, usinas, saneamento, construção e urbanização em áreas carentes etc etc etc. Não foi outra a razão de passar o bastão para Míriam Belchior ao assumir a presidência da República. A ministra do Planejamento foi seu braço direito na implementação do PAC.

Em Brasília, até as pedras das (poucas) calçadas sabem que Dilma ganhou de presente um ministério de seu inventor que, inclusive, tem reprovado publicamente ações da Polícia Federal, como a Operação Vaucher, cujo final feliz deverá ser a saída do turista Pedro Novais, feito ministro por obra e graça de José Sarney, incansável batalhador em prol das classes menos favorecidas maranhenses, amapaenses e brasileiras e brasileiros em geral. Como são mais de 30 ministérios, fazer palpites sobre mudanças futuras, mais do que arriscado, será mera especulação – até porque vários ministros são de tal insignificância que nem autonomia para roubar têm.

No passo corrido e já chegando ao Forte de Copacabana, a única coisa que me resta é torcer e orar por Dilma, que consiga desgrudar sua imagem do antecessor, livrar-se das alianças impostas sem muito critério, na base do toma lá, dá cá, para fazer apenas o governo possível, porque o desejável está fora do alcance para a nossa e a próxima gerações. Quem sabe nossos netos terão condições de forjar, num mundo pós-capitalista, uma sociedade mais justa e igualitária.

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