6
de
janeiro
Adeus, ano velho, feliz ano novo
O ano começa e com ele ressurgem as previsões e decisões pessoais habituais de todo janeiro, desde que me entendo por gente, lá se vão tantas décadas que, resignado, antes mesmo das doze badaladas (quem se lembra?) reli as instruções e prescrições da Patrícia, a nutricionista. Uma série de cautelas, poucas restrições e recomendações básicas, como não interromper os exercícios físicos nem comer fora de hora, sobretudo a desoras (vai ser velho assim na conchinchina!), as preferidas por assaltantes de geladeira e vizinhanças. Patrícia quer que eu perca dez quilos, mediante menos empenho no prato e maior nas caminhadas na areia e no mar onde já arrisco braçadas perto do Forte de Copacabana.
Como venho desenvolvendo autodisciplina modelar desde a visita às fronteiras do Além, em novembro de 2010, espero alcançar antes do fim do ano esta meta impensável para a maioria do pessoal que encontro saindo das irresistíveis delikatessens – sem mencionar agente humilde do Garoto, que vivia em casas simples com cadeiras na calçada, na fachada escrito em cima que era um lar e cuja refeição mais consistente, nos dias desta dura sobrevivência,não passa do salgado com refresco a um real e meio nas lanchonetes centrais. Sem trocadilho, essa massa disforme é a responsável pelos índices nacionais obscenos de obesidade aos olhos do Ministério da Saúde, da OMS e imagino que até de ONGs dedicadas à preservação da vida no planeta.
Minha prioridade para 2012, entretanto, não se limita à perda de peso, desejável para a saúde e a estética: o mundo trata melhor os magros, como ensina mais ou menos subliminarmente a mídia, através de anúncios, reportagens, entrevistas e estudos científicos saídos do forno agorinha mesmo. Minha meta primeira é melhor convivência com o resto do mundo, a começar comigo mesmo, o cara que saiu do hospital e ainda não encontrou espaço próprio no mundo e na vida. Ao contrário das experiências sobre as quais li ou ouvi, a proximidade da morte não me abriu um terceiro olho, visão mais compassiva e a epifania do essencial à felicidade nesta terra. Com mais frequência, aliás, ando mais crítico do que antes, impaciente comigo, e embora cresça a noção da longanimidade e da afabilidade tão necessárias à convivência pacífica e profícua com os semelhantes, cada dia vejo menos semelhantes no caminho – então me revelo cínico, para meu pecado e desgosto.
Logo, o objetivo vital hoje para mim é convencer-me das limitações em geral, sobretudo as minhas, mas igualmente as dos outros, as da vida e as do mundo onde nos percebemos cada minuto mais perdidos. Sem isso, posso tirar o cavalinho da chuva (mais outra das antigas), entrar para o convento ou para a cadeia – é tudo privação de liberdade, a começar pelo pensamento. Não me entrego, porém, conforme os tempos mais recentes da minha vida comprovam com fartura. Tenho de vencer meus obstáculos e confirmar, como escreveu Pessoa, que “tudo vale a pena, se alma não é pequena”. O problema aqui é que, extraído do seu contexto, o verso faz sentido, mas não completamente. Confira:
“Mar Portuguez
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.”
Em pobres palavras minhas, é preciso vencer o temível cabo onde outrora se acreditava acabar o mar e o mundo, para alcançar não as glórias humanas, efêmeras, mas antes a própria grandeza da existência – eis aí meu maior desafio para 2012. Que, a propósito, tem sido o mesmo desde sempre, apenas eu não o percebera até chegar ao limiar e aprender que existe vida além do Bojador. A questão é: onde a grandeza da alma se recolheu, para de lá incitá-la à dimensão que não só eu próprio como Deus, meu criador, ansiamos realizar?
O rabino Nilton Bonder ilustra com um dos mais conhecidos episódios bíblicos esse raciocínio no livro “A alma imoral”, a partir do qual a atriz Clarice Niskier criou o monólogo homônimo, explicando com clareza o trecho do Êxodo. Ao conduzir seu povo pelo deserto, fugindo do exército de faraó, Moisés chega ao Mar Vermelho e se vê entre a morte na água ou nas armas egípcias. A gente fraqueja, duvida e se divide, mas o líder ergue os olhos ao céu, clama ao Senhor e entra no mar caminhando como em terra firme. Quando a água está na altura do seu nariz, o mar se abre e os hebreus cruzam o leito seco em segurança até a outra margem, enquanto os perseguidores e seus cavalos se afogam.
Encurralado, Moisés precisou buscar no mais profundo de si mesmo, no limite da alma, onde a fé espera inabalável, a realização dos desígnios a que muitos chamam destino, com toda a carga de fatalidade que a palavra encerra e a caracteriza como obstáculo à realização das aspirações pessoais de todos e de cada um de nós.
Feliz ano novo.






