30
de
janeiro
É carnaval!
O carnaval começou pra mim faz uma semana, quando meu chefe me passou a tarefa de redigir e gravar vários programas curtos sobre o enredo de cada escola de samba dos grupos Especial, A e B, num total de mais de 30, cada uma com enredo próprio, mas nem sempre exclusivo. Portela e Paraíso cantam Clara Nunes, cada qual a seu jeito e a primeira com muito mais propriedade, embora o enredo seja sobre a Bahia. Explico: o título é “E o povo na rua cantando é feito uma reza, um ritual”, versos da música Portela na Avenida, de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, que foi marido de Clara e compôs o samba para a sua voz poderosa. A Tuiuti vem com “A tal mineira”, enredo específico, dedicado somente à cantora, a “Clara Guerreira”, como foi chamada primeiro no mundo do candomblé; logo mais, em toda parte.
Mas eu falava que o carnaval começou mais cedo para mim, e admito um certo encantamento com isso, porque se no racional não me agrada a festa, no emocional ainda trago vivas na memória as imagens do Salgueiro campeão festejando o título no Boulevard 28 de Setembro, coração e alma de Vila Isabel, com outra Isabel, Valença, mulher do Osmar “Rato”, presidente da escola, vestida de Chica da Silva, enredo e título do samba de Anescarzinho e Noel Rosa de Oliveira (nada a ver com Noel de Medeiros Rosa, o poeta da Vila). Bons tempos, velhos sambas cantados na avenida, não essas marchinhas apressadas de hoje. Também, nenhuma escola tinha três, quatro mil figurantes, o desfile era lento e o povo acompanhava melhor o desenvolvimento do enredo.
Chega de saudosismo! Carnaval é isso mesmo, as escolas são “super escolas de samba S/A, super alegorias, escondendo gente bamba, que covardia!” já denunciavam Aluísio Machado e Beto Sem Braço no enredo do Império Serrano de 1982, “Bum bum paticumbum prugurundum”. Legal é ver enredos como os cem anos de Nelson Rodrigues, da Viradouro, e Jorge Amado, na Imperatriz Leopoldinense, que faz lembrar a Lins Imperial e o Império Serrano, que já cantaram o escritor em carnavais passados.
Aí começa a esculhambação: a Porto da Pedra vem com o incrível enredo “Da seiva materna ao equilíbrio da vida”, samba do crioulo doido que imagina enaltecer o iogurte como fonte de energia, proteínas, sais minerais e, obviamente, gordo patrocínio da Danone à escola. Lembra da Mangueira quando quis puxar o saco da ditadura com o samba sobre o Correio Aéreo Nacional? Foi em 1971, no governo Médici, e o samba falava de “modernos bandeirantes” e lá pelas tantas cantava a seguinte pérola : “Nossos pássaros de aço/deixam o povo feliz/ninguém segura mais este país”. Os generais tiveram orgasmos, mas a Mangueira amargou o quarto lugar – e o resultado só não foi pior porque as notas dos jurados são anunciadas no microfone e aí já viu, né, quem tem, tem medo.
Como quem gosta de passado é museu, vou só lembrar aqui os nomes de blocos que saem às ruas nos próximos dias: “Se cair eu como”, “Encosta que ele cresce”, “Quem vai, vai, quem não vai, cagueta”, “Já comi pior pagando”, “Se me der, eu como”, “Mulheres da Vila”, “Sorri pra mim”, “Calma, calma, sua piranha”, “Só o cume interessa” e por aí vai a fértil imaginação. Mas pra mim o melhor mesmo é o “A coisa tá feia e o teu nome tá no meio”.






