Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

30

de
maio

Fantasia macabra

 O piano de 375 mil dólares.

Este piano está à venda em Nova York por um preço bem superior ao que vale de fato por ter sido o último cujo teclado dedilhado por John Lennon. Também usaram o instrumento Bob Dylan, Lou Reed, Patty Smith e Don Mac Lean, entre outros menos afortunados. O detalhe macabro é que John o usou na gravação de Double Fantasy, disco que autografou para Mark Chapman, seu assassino. 

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30

de
maio

Pra inglês ver

 Mapa publicado no Clarín.

O mapa acima classifica por cor os países sul-americanos no quesito "paz". Os menos pacíficos, como se vê, são Colômbia e Venezuela e os mais são Chile e Uruguai. O Paraguai e nossos parceiros andinos estão um pouco melhor do que nós, mas não é muita coisa. A empresa de consultoria Global Peace, autora do índice, levou em conta 24 fatores, entre eles índice de violência, crime organizado e verba para as forças armadas. Foram analisados 121 países - os menos cotados são o Iraque, Sudão, Israel e Rússia; entre os paraísos terrestres estão Noruega, Dinamarca e Nova Zelândia.

25

de
maio

Modalidade bala perdida

Ouvimos no rádio do carro, logo de manhã, quando levava a patroa pro trabalho, que a diarista de 53 anos morta em Samambaia ao voltar da igreja com algumas amigas na noite de domingo foi vítima “da modalidade bala perdida”.

“Ué, começou o Pan?” minha mulher perguntou, aparentemente coberta de razão, porque jamais tinha ouvido falar em modalidade de crime como de esporte.

“Ainda não, mas a polícia está se adaptando à modalidade de linguagem que regerá as conversas quando a competição começar”, opinei, ao mesmo tempo que desviava o meu humilde carro do caminhão desembestado na pista da esquerda. Não sou nenhum Romário, mas também tenho meu golzinho mil, bem mais antigo que o dele. E foi pensando nisso que disse, à guisa de ilustração: “O Romário e o Pelé são os dois únicos artilheiros na modalidade gol mil”.

“É mesmo”, ela concordou, acrescentando: “A passagem da Vera subiu e ela já avisou que precisa de reajuste na modalidade diarista”. Quase perdi o controle do carro. Na modalidade motorista que leva a mulher pro trabalho de manhã cedo nunca fui muito bom.

“Quer saber? Eu devia é aproveitar que moro em Brasília e me enturmar numa modalidade gautama”, falei em tom queixoso. Ela riu:

“Na modalidade servidor corrupto você sempre foi um fracasso, graças a Deus. Já pensou eu ter que andar por aí na modalidade sou, mas quem não é? Não levo jeito pra isso”.

“Falei por falar, um desabafo, eu acho. Na modalidade saco cheio dessa merda sou medalha de ouro”.

“Eu também, mas não adianta ficar com essa postura, o negócio é ter fé e fazer a nossa parte”, ensinou minha mulher, que é craque na modalidade esposa exemplar. Seguimos nosso trajeto rotineiro em silêncio por um tempo. O dia estava lindo, sol radiante na modalidade maio em Brasília, cenário de não deixar ninguém pra baixo.

“Mas, cá pra nós”, retomei a conversa quase na reta de chegada, “modalidade bala perdida é demais, não é não?”, e caímos na risada.

“É assim mesmo, só modismo”, minha mulher disse. “Quando chegar o carnaval, a modalidade sai de moda e vira tudo quesito, quesito bala perdida, quesito conta no exterior, quesito propina gorda, quesito mão na cumbuca…”

“…Quesito vergonha na cara”, atalhei.

“Ah, esse tá em baixa desde quando era virtude, há muito tempo. Hoje é sinônimo de babaquice, uma modalidade de bobeira”, ela corrigiu, me deu um beijo e foi trabalhar.

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22

de
maio

Melhor que antes

Delfim Netto, hoje e ontem: sempre lembrado pelo teoria do bolo.

A consultoria Tendências levantou uma questão interessante sobre o momento econômico nacional. Estamos num cenário ótimo para a aceleração do crescimento, como pretenede o governo, com índices favoráveis em todos os aspectos, do risco-país à cotação do dólar. Segundo a economista que expôs a idéia à Folha no último domingo, vivemos hoje dias ainda melhores do que os do "milagre econômico" dos anos 1970, quando o PIB crescia acima dos 7% ao ano, mas era tudo muito artifical e o sonho virou pesadelo na primeir crise do petróleo, em 73. Não deu tempo de "esperar o bolo crescer para dividir", como defendia o então ministro Delfim Netto, da Fazenda (que, por sinal, defende a economia do governo de Lula).

20

de
maio

Ranghassirinawaranda

Diz-que muito tempo atrás viveu em um remoto povoado indiano um mulá chamado Ranghassirinawaranda, tido como o mais sábio dos sábios. Qualquer criança na Índia sabe que mulá é um homem comum do povo, dotado da esperteza de camelô brasileiro, capaz de responder as questões mais difíceis, as perguntas mais malucas que costumam povoar a mente dos asiáticos.

Um dia chegou um chefe de polícia novo, vindo de algum lugar na Caxemira, e implicou com o Rangha, só porque era mais querido e respeitado do que ele. O mulá o evitava, mas o policial buscava sempre a oportunidade para provocá-lo por qualquer bobagem. Assim foi que numa manhã chuvosa e fria Ranghassirinawaranda observava a chuva debruçado na janela, quando viu o chefe de polícia cruzando a paisagem apressado, para não pegar um resfriado.

“Chefe de polícia”, gritou ele, “por que está correndo? Não sabe que a chuva é uma dádiva dos céus?” Pego de surpresa, o outro diminuiu a marcha e passou a caminhar lentamente, receoso de que o mulá pudesse manchar sua reputação na comunidade.

Dias depois, o chefe estava de pé à porta da chefatura, que é o lugar onde devem estar os chefes, admirando a chuva que caía a cântaros, quando viu Rangha correndo saltitante para não enfiar o pé nas poças do chão.

“Mulá”, repreendeu, “se esqueceu de que a chuva é uma dádiva dos céus?”

Rangha nem pestanejou, e sempre erguendo a bainha do sári de algodão grosso com as pontas dos dedos respondeu de longe:

“Não esqueci, chefe de polícia, é que não devo pisar na dádiva dos céus”. E seguiu caminho como um sapo desajeitado e magro.

Em outra ocasião, Ranghassirinawaranda jogava milho no terreiro junto de sua humilde casa, quando o chefe de polícia o foi perturbar:

“Mulá, para que está jogando milho no terreiro a esta hora?”

O mulá parou por um instante, fitou-o dentro dos grandes olhos negros e disse:

“É para afugentar os tigres selvagens”. O chefe de polícia soltou uma gargalhada:

“Ora, mulá, por aqui não existem tigres”.

“Então? Vê como funciona?” o esperto Rangha retrucou, para maior aborrecimento do desafeto.

Não sei bem que moral tirar das histórias do mulá Ranghassirinawaranda, só sei que me divirto sempre que as leio ou ouço. Como personagem burlesco, tem um quê de Macunaíma, Pedro Malasartes, Jeca Tatu e outros inspirados na nossa cultura mais popular que, infelizmente, parecem ter perdido em definitivo o espaço legítimo para as bruxas, duendes, gnomos e seres outros importados da Europa e da Escandinávia, através dos Estados Unidos e sua imposição cultural. Bem ou mal, o mulá guarda alguma matreirice subdesenvolvida bem próxima de nós.

Como o personagem de um conto do Augusto Boal no Pasquim, décadas e décadas atrás, que vendia amostras de fezes aos candidatos a emprego numa multinacional recém-instalada no país. Como quase não comia nem bebia, seu cocô era exemplar, puro, límpido, livre de contaminação…Bem, mas essa é história pra outra vez.

18

de
maio

Banana republic

          

Salvatore Mancuso, líder da milícia paramilitar colombiana que faz frente às Farcs, depôs em tribunal colombiano que as multinacionais norte-americanas Chiquita, Dole e Del Monte doam à guerrilha de direita um centavo de dólar por caixa de banana exportada. A Chiquita já foi multada nos Estados Unidos por esta prática, que revela o velho viés imperialista e intervencionista das empresas norte-americanas instaladas abaixo do equador. Na foto, propaganda que apela para a imagem de Carmen Miranda, que cantava "Chiquita bacana, lá da Martinica, se veste com uma casca de banana nanica…"

18

de
maio

Pedra no sapato

 Cristina em plena campanha.

O presidente argentino Néstor Kirchner demitiu o presidente da empresa estatal de gás e o diretor da área de empréstimos do Banco de La Nación por se envolver em superfaturamento e propinas na ampliação de um gasoduto. É o primeiro caso de corrupção no governo, a cinco meses da eleição em que Kirchner lançará sua mulher Cristina à sucessão. Desde Eva Perón, na década de 1940, os argentinos mostram uma queda por mulheres no poder. chegando mesmo a empossar a vice de Perón, Isabelita, em 1974. Mas, voltando à corrupção no gasoduto, deve ser horrível viver num país onde acontecem essas coisas, né mesmo? 

18

de
maio

Tô fora!

Tarso nem levou em consideração o pedido.

Está na Folha: "O ministro da Justiça, Tarso Genro, recusou pedido do deputado Paulo Maluf (PP-SP), acusado pela Procuradoria Distrital de Nova York de ter desviado US$ 11,6 milhões, para que o governo tomasse providências contra mandado de captura expedido contra ele. Maluf nega ter contas no exterior". Aliás, Maluf nega tudo. É capaz até de negar que tenha feito a solicitação ao ministro da Justiça intervenção oficial a seu favor. Imagine se o governo vai meter a mão nessa cumbuca… 

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18

de
maio

Homem de bem

José Antônio Almeida, advogado do ex-governador maranhense José Reinaldo Tavares, do PSB, considera uma arbitrariedade a prisão do cliente na Operação Navalha, da Polícia Federal, e explica: "A prisão foi arbitrária porque José Reinaldo tem profissão, tem bens, tem família e residência fixa. Ele não deveria ser preso". Faz sentido, porque a quase totalidade dos que estão atrás das grades no Brasil não tem nada disso.

16

de
maio

Vã esperança

 Grondona é uma piadista de quarta.

O fato de a seleção brasileira não contar com Kaká e Ronaldinho Gaúcho na Copa América, a ser disputada na Venezuela, foi recebido com entusiasmo pelo presidente da Associação de Futebol Argentino, Julio Grondona. Em tradução livre, o maior cartola rival disse o seguinte: "Por mim, quero que o Brasil vá com a quarta seleção…assim, ganhamos a copa". Ele se esqueceu da que ganhamos a última com o time reserva, de virada, em cima da Argentina.

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