20
de
maio
Ranghassirinawaranda
Diz-que muito tempo atrás viveu em um remoto povoado indiano um mulá chamado Ranghassirinawaranda, tido como o mais sábio dos sábios. Qualquer criança na Índia sabe que mulá é um homem comum do povo, dotado da esperteza de camelô brasileiro, capaz de responder as questões mais difíceis, as perguntas mais malucas que costumam povoar a mente dos asiáticos.
Um dia chegou um chefe de polícia novo, vindo de algum lugar na Caxemira, e implicou com o Rangha, só porque era mais querido e respeitado do que ele. O mulá o evitava, mas o policial buscava sempre a oportunidade para provocá-lo por qualquer bobagem. Assim foi que numa manhã chuvosa e fria Ranghassirinawaranda observava a chuva debruçado na janela, quando viu o chefe de polícia cruzando a paisagem apressado, para não pegar um resfriado.
“Chefe de polícia”, gritou ele, “por que está correndo? Não sabe que a chuva é uma dádiva dos céus?” Pego de surpresa, o outro diminuiu a marcha e passou a caminhar lentamente, receoso de que o mulá pudesse manchar sua reputação na comunidade.
Dias depois, o chefe estava de pé à porta da chefatura, que é o lugar onde devem estar os chefes, admirando a chuva que caía a cântaros, quando viu Rangha correndo saltitante para não enfiar o pé nas poças do chão.
“Mulá”, repreendeu, “se esqueceu de que a chuva é uma dádiva dos céus?”
Rangha nem pestanejou, e sempre erguendo a bainha do sári de algodão grosso com as pontas dos dedos respondeu de longe:
“Não esqueci, chefe de polícia, é que não devo pisar na dádiva dos céus”. E seguiu caminho como um sapo desajeitado e magro.
Em outra ocasião, Ranghassirinawaranda jogava milho no terreiro junto de sua humilde casa, quando o chefe de polícia o foi perturbar:
“Mulá, para que está jogando milho no terreiro a esta hora?”
O mulá parou por um instante, fitou-o dentro dos grandes olhos negros e disse:
“É para afugentar os tigres selvagens”. O chefe de polícia soltou uma gargalhada:
“Ora, mulá, por aqui não existem tigres”.
“Então? Vê como funciona?” o esperto Rangha retrucou, para maior aborrecimento do desafeto.
Não sei bem que moral tirar das histórias do mulá Ranghassirinawaranda, só sei que me divirto sempre que as leio ou ouço. Como personagem burlesco, tem um quê de Macunaíma, Pedro Malasartes, Jeca Tatu e outros inspirados na nossa cultura mais popular que, infelizmente, parecem ter perdido em definitivo o espaço legítimo para as bruxas, duendes, gnomos e seres outros importados da Europa e da Escandinávia, através dos Estados Unidos e sua imposição cultural. Bem ou mal, o mulá guarda alguma matreirice subdesenvolvida bem próxima de nós.
Como o personagem de um conto do Augusto Boal no Pasquim, décadas e décadas atrás, que vendia amostras de fezes aos candidatos a emprego numa multinacional recém-instalada no país. Como quase não comia nem bebia, seu cocô era exemplar, puro, límpido, livre de contaminação…Bem, mas essa é história pra outra vez.


Comentário por André Jerônimo — 21 21UTC maio 21UTC 2007 (15:22)
eu conheço um “mulázinho” destes, chamado Seu Lunga.
Um dia ele chegou no botequim e peidu ao balconista.
- Me dê uma lapada de cana!
Logo em seguida, acaba a energia no ambiente. Então o balconista diz:
- Ih.. Seu Lunga, acabou a luz!!
Seu Lunga, de bate-pronto:
- Vim tomar aguardente, num foi choque!!