25
de
maio
Modalidade bala perdida
Ouvimos no rádio do carro, logo de manhã, quando levava a patroa pro trabalho, que a diarista de 53 anos morta em Samambaia ao voltar da igreja com algumas amigas na noite de domingo foi vítima “da modalidade bala perdida”.
“Ué, começou o Pan?” minha mulher perguntou, aparentemente coberta de razão, porque jamais tinha ouvido falar em modalidade de crime como de esporte.
“Ainda não, mas a polícia está se adaptando à modalidade de linguagem que regerá as conversas quando a competição começar”, opinei, ao mesmo tempo que desviava o meu humilde carro do caminhão desembestado na pista da esquerda. Não sou nenhum Romário, mas também tenho meu golzinho mil, bem mais antigo que o dele. E foi pensando nisso que disse, à guisa de ilustração: “O Romário e o Pelé são os dois únicos artilheiros na modalidade gol mil”.
“É mesmo”, ela concordou, acrescentando: “A passagem da Vera subiu e ela já avisou que precisa de reajuste na modalidade diarista”. Quase perdi o controle do carro. Na modalidade motorista que leva a mulher pro trabalho de manhã cedo nunca fui muito bom.
“Quer saber? Eu devia é aproveitar que moro em Brasília e me enturmar numa modalidade gautama”, falei em tom queixoso. Ela riu:
“Na modalidade servidor corrupto você sempre foi um fracasso, graças a Deus. Já pensou eu ter que andar por aí na modalidade sou, mas quem não é? Não levo jeito pra isso”.
“Falei por falar, um desabafo, eu acho. Na modalidade saco cheio dessa merda sou medalha de ouro”.
“Eu também, mas não adianta ficar com essa postura, o negócio é ter fé e fazer a nossa parte”, ensinou minha mulher, que é craque na modalidade esposa exemplar. Seguimos nosso trajeto rotineiro em silêncio por um tempo. O dia estava lindo, sol radiante na modalidade maio em Brasília, cenário de não deixar ninguém pra baixo.
“Mas, cá pra nós”, retomei a conversa quase na reta de chegada, “modalidade bala perdida é demais, não é não?”, e caímos na risada.
“É assim mesmo, só modismo”, minha mulher disse. “Quando chegar o carnaval, a modalidade sai de moda e vira tudo quesito, quesito bala perdida, quesito conta no exterior, quesito propina gorda, quesito mão na cumbuca…”
“…Quesito vergonha na cara”, atalhei.
“Ah, esse tá em baixa desde quando era virtude, há muito tempo. Hoje é sinônimo de babaquice, uma modalidade de bobeira”, ela corrigiu, me deu um beijo e foi trabalhar.


Comentário por jayme — 26 26UTC maio 26UTC 2007 (17:09)
e esse post está na categoria cotidiano…
Comentário por joao — 30 30UTC maio 30UTC 2007 (0:37)
modalidade interessante de visão!
Comentário por flávio — 13 13UTC junho 13UTC 2007 (20:20)
Ah, se a modalidade pega!