4
de
agosto
País e nação
O que há em comum entre o acidente do Airbus da TAM, o buraco do metrô paulistano, as denúncias de corrupção, os desvios éticos na administração pública, a violência nas favelas cariocas e as filas de atendimento nos postos de saúde e hospitais da rede pública? A resposta é simples: o Estado está por trás de tudo isso. Nenhum escândalo de corrupção foi detonado por empresa ou órgão de imprensa, todos tiveram origem em investigações da Polícia Federal ou do Ministério Público. Todos os acidentes têm como pano de fundo a corrupção, o tráfico de influência, o desvio de dinheiro público, toda a falta de assistência à população traz na sua raiz a falta de entendimento da cidadania. O Brasil é um país, não uma nação.
Quer um exemplo recém saído do forno? O presidente da CBF disse que os porres e as farras dos jogadores levaram a seleção à eliminação na Copa do Mundo do ano passado. Disse que Ronaldo se apresentou pesando 98 quilos, que tudo era festa em Wiggs. O técnico Carlos Alberto Parreira foi adiante e disse que a cidadezinha alemã não era lugar para abrigar a seleção brasileira, mas a CBF assinou um contrato com a prefeitura local. Traduzindo: a CBF só pensou na grana do contrato com a prefeitura, a comissão técnica só queria saber da grana preta que todos ganhavam, os jogadores faziam o que queriam e nós pintávamos asfalto e fachadas, pendurávamos bandeiras e soprávamos cornetas de plástico, alheios a tudo isso. Aliás, sabemos da verdade agora porque a CBF não quer repetir na próxima Copa o prejuízo de US$ 10 milhões amargado no ano passado.
Sabe o que está por trás das 199 mortes do acidente da TAM? O comandante Rolim Amaro, que chantageou o governo em 1991 para conseguir a rota Congonhas-Brasília. Sabe quem mais? Nenê Constantino, dono da Gol, que perguntou ao então comandante da Aeronáutica, Luís Carlos Bueno, quando pensou em reduzir os vôos em Congonhas: “Brigadeiro, o senhor quer me ferrar?” Operadores de vôo, pilotos, co-pilotos, o governo, muita gente sempre soube que o aeroporto de Congonhas não suporta nem aviões para mais de 120 passageiros nem o tráfego intenso. Ninguém disse nada. Esta é uma das diferenças entre país e nação.
O buraco do metrô paulistano é a repetição do desabamento do edifício que Sérgio Naya construiu com areia da praia na Barra da Tijuca, é a vergonha da chacina dos meninos na Candelária, é a falta de cidadania que causou o assassinato de fiscais do trabalho em Minas Gerais, é a repetição ad nauseam dos desmandos, da impunidade, da ausência total e absoluta de nacionalidade. Estamos perdendo a melhor chance em décadas para recuperar a auto-estima do carioca e implantar um mínimo de cidadania que sirva de exemplo para o país. Os Jogos Pan-americanos propiciaram disputas esportivas, medalhas, orgulho e alegria. Era a hora de aproveitar o cenário para discutir direitos e deveres, espantar o medo da bala perdida, devolver à população desarmada os espaços públicos, as calçadas, as praças, as ruas e avenidas. Mas o outro lado venceu, o governo deixou carros, motos, armas e homens para reforçar o policiamento e não para o benefício da sociedade, e já no dia seguinte recomeçaram os tiroteios e os incêndios de veículos em via pública.

