9
de
agosto
Século passado
À mesa do almoço no restaurante, manifestei minha estranheza ao ouvir ou ler alguma referência aos anos 60 como “a década de 60 do século passado”. De cara sinto-me um Matusalém, afinal já era taludinho naqueles “entões”, lembro inclusive que voltava do colégio, à tardinha, no dia 22 de novembro de 1963, quando ouvi que tinham assassinado John Kennedy lá em Dallas. No ano seguinte, no dia 1º de abril, assisti na televisão a descida dos tanques de Juiz de Fora para o Rio, deflagrando a gloriosa redentora que me acompanhou por toda a adolescência e boa parte da juventude. Lembro como se fosse ontem, como é que foi no século passado?
A conversa começou com as doenças que havia antes e desapareceram na poeira dos tempos: reumatismo, lumbago, neurose de guerra…alguém aí conheceu pelo menos um neurótico de guerra? Na vila de casas onde vivi a primeira infância, no Rio de Janeiro, morava um senhor de pijama listrado que acendia um cigarro no outro e se escondia debaixo da cama sempre que ouvia o ruído de avião cruzando o céu. Era veterano da FEB e não regulava bem. Menino, tinha medo dele e do seu olhar alienado, até que um dia morreu deixando viúva e duas filhas mais aliviadas do que sentidas. Nunca mais sequer ouvi falar de neurótico de guerra, nem da segunda mundial nem de qualquer outra, embora o Hollywood seja pródiga em personagens do tipo em filmes cheios de mea culpa.
Fausto, outro "dinossauro". 
Minha avó sofria de reumatismo, em especial quando o tempo fechava e trovões e relâmpagos prenunciavam chuva. Para mim, era um mistério absoluto, como “vento encanado”, outra fatalidade que levava almas de meninos e meninas depois do banho vespertino, sobretudo com os cabelos molhados. À medida que avancei na idade conheci outras doenças, o terrível “ataque cardíaco”, também chamado “síncope cardíaca” quando se pretendia efeito mais dramático. O câncer veio a reboque, embora já existisse, porque era proibido pronunciar o nome: “O Tostes está com aquela doença”, dizia-se, e todos entendiam. Câncer era mais fatal do que vento encanado, leite com manga e ataque do coração juntos. Quando o médico reunia a família para dar o diagnóstico, a futura viúva já ia de preto, era fatura liquidada.
Hoje em dia ninguém “passa mal no elevador”, é claustrófobo, paranóico sofre de síndrome de pânico e criança sem apetite é anoréxica. Já se foi o tempo do óleo de fígado de bacalhau, da emulsão de Scott e dos remédios das nossas avós, fórmulas mágicas que davam um alento à família. Pílulas de Vida do Dr. Ross podiam não resolver, nem existiam para isso, como o Regulador Xavier, excesso ou escassez, ao gosto ou necessidade da freguesa. Mal comparando, vivíamos na década de 1950 no Rio de Janeiro mais ou menos do mesmo jeito que se vivia na Palestina há 2.000 anos.
Se as referências aos 1900s como século passado rendessem respeito e consideração às testemunhas oculares daqueles anos sentir-me-ia mais confortável, mas qual o quê, aumentou o meu sofrer, como escreve o Fausto Wolff, outro dinossauro do tempo em que se usava mesóclise.


Comentário por fernando gollo — 10 10UTC agosto 10UTC 2007 (10:44)
Meus parabéns.