31
de
agosto
Novela nada exemplar
A jovem sentou-se ao meu lado no ônibus, abriu a revista, uma certa “tititi”, assim mesmo com minúsculas, e foi direto à matéria alardeada na capa: “Depois de matar Taís, Olavo apodrece na cadeia”. Imaginei manchetes tão ou mais bombásticas: “Depois de mentir pra todo mundo, Renan pede esmola em Maceió”, “Enquanto fazia política, metia a mão na cumbuca!”, “Antes de conhecer Mônica, só lia Luluzinha”, “Comprovado: Renan foi assinante de Veja”.
Uma por uma, o que traduziriam essas manchetes? A primeira, na minha opinião, é a mais dramática, beirando a tragédia grega, um Édipo alagoano vagando pelas ruas da capital, sem os olhos, esmolando migalhas daqueles que roubou a vida inteira. É claro que não teria o componente clássico de Sófocles, aquela sacanagem de transar com a mãe, porque assim também é demais. Lembra quando Fernando Collor pensou em se divorciar de Rosane e o pai da moça bradou lá de Canapi “Na minha família não tem mulher desquitada, só viúva”? Pois é, tragédia grega naquelas bandas acaba na bala.
A segunda manchete tem a sublime virtude de servir para diversos escândalos político-administrativos nesse Brasilzão de meu Deus, desde os tempos imemoriais da república Velha. A cara de pau dos nossos governantes é tão antiga quanto de dimensões siderúrgicas, e eu usarei aqui apenas o exemplo que considero uma pérola: quando era prefeito do Rio de Janeiro, em 1949, durante a construção do Maracanã, o general Mendes de Morais foi acusado pela imprensa de comprar uma mansão na zona sul da cidade por uma soma muito maior do que seu poder aquisitivo. Em dado momento, reunidos os repórteres para uma coletiva, alguém tascou a pergunta: “Prefeito, como o senhor explica o dinheiro da compra da mansão?” E o general, que sempre soube quem manda mesmo no país, saiu-se com essa: “Ganhei no jogo do bicho”.
A terceira é uma evidente brincadeira em dois planos: no primeiro, o senador não conhecia no sentido bíblico aquela que viria a ser sua maior dor de cabeça – como costumam ser as mulheres mal amadas ao longo da história, vide Monica Lewinski. No primeiro livro de Reis, logo no começo, os servos de Davi procuram uma companhia que lhe aquecesse os pés, quando o ex-rei já era avançado em anos, ou seja, estava mais pra lá do que pra cá. Encontravam a formosa sunamita Abisague, que se deitou com ele, mas ele não a conheceu. Era como Renan devia ter permanecido em relação à insinuante repórter da Globo, no segundo plano, ou seja, evitando deitar-se com ela e lendo Luluzinha, na maior inocência.
A última manchete também tem duas leituras: a primeira, óbvia, é que Renan já teve como obrigação semanal a leitura da revista Veja, aquela mesma que detonou a campanha pelo afastamento de Collor. Deve ter sido assinante, como a maioria dos deputados e senadores, a maioria às custas do meu, do seu, do nosso dinheiro, só pra lembrar o Armínio Fraga. A segunda leitura também é ruim para o senador alagoano: se ele sabia das falcatruas e picaretagens contra a editora Abril que agora traz a público, por que não falou antes? Alguma pista talvez venha na próxima edição de “tititi”.


Comentário por Ana Lucia — 31 31UTC agosto 31UTC 2007 (17:41)
ARREBENTOU!!!!