14
de
setembro
Quem viver verá!
…e tudo se resumiu a comer fora.
Não deveria tratar do assunto, afinal todo mundo já meteu sua colher de pau na absolvição do Renan Calheiros, mas não consigo conter a indignação. Os senadores não conseguiram fazer o que a opinião pública exigiu até com cartazes e faixas estendidos à passagem dos carros oficiais na Esplanada dos Ministérios na manhã da quarta-feira 12, a quarta-feira fatídica, que entrará para a história republicana como o dia em que a mentira, a falsidade ideológica, a falsificação, a fraude, o embuste, a roubalheira venceram.
Dizem que Renan responderá agora a processos outros no Senado e na Justiça, o que causa apreensão ao mesmo cidadão comum que confiava na hombridade de pelo menos 41 dos 82 senadores.
Dizem que Renan intimidou seus pares no discurso derradeiro de defesa, dirigindo-se explicitamente a Jefferson Peres para dizer: “Veja bem, senador Jefferson, eu poderia ter empregado a Mônica Veloso em meu gabinete, mas não o fiz”. Mais adiante, apontou o dedo podre para Pedro Simon: “Veja bem, senador Pedro Simon, a Mônica Veloso tem uma produtora de vídeo. Eu poderia ter contratado com dinheiro da presidência do Senado, mas não o fiz”.
Pelo que entendi, Jefferson Peres mantém uma amante ou ex-amante em seu gabinete e o senador Pedro Simon em algum tempo contratou os serviços profissionais da empresa de uma amante ou ex-amante. Renan jogou lama sobre a reputação de dois senadores até agora ilibados. É a mesma tática que empregou contra a revista Veja, atacando negócios escusos da Editora Abril. Manobra diversionista, dirão os inconformados como eu.
Da Dinamarca, onde Shakespeare ambientou a tragédia incestuosa de Hamlet, Lula não comemorou abertamente a absolvição, mas é claro que gostou, declarando até com muita propriedade que a decisão do plenário do Senado é soberana e deve ser acatada. Tudo, bem, mas não é bem a decisão dos senadores que está em questão, é a maneira como se chegou a ela, os caminhos tortuosos, as pressões, ameaças cuja conseqüência óbvia serão as retaliações contra os senadores que pediram a cabeça de Renan numa bandeja de prata. O estilo é o homem e o alagoano que começou carreira na esquerda em Murici, no interior do estado provará isto a partir de já.
Dizem que ele terá daqui para a frente mais poder do que antes. Pode ser. Só sei que o PT saiu enfraquecido com a abstenção de Aloyzio Mercadante, confessada, e de Ideli Salvati, presumida. Em nome da prorrogação da CPMF os senadores petistas meteram a mão e se sujaram na lama, extensiva ao partido e ao presidente da República, aceitem ou não, admitam ou cometam sofismas de telenovela.
Tem razão o Gabeira: algo morreu na quarta-feira 12 de setembro na absolvição de Renan, e tenho cá pra mim que foi o que ainda restava de prestígio do Senado. Daqui a três anos, quando enfrentarem as urnas da reeleição, dois terços dos senadores se verão diante da memória popular, e se a justiça prevalecer terão o mesmo destino dos mensaleiros e da sua infeliz dançarina na Câmara dos Deputados.

