Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

20

de
setembro

Drible da foca

O atacante cruzeirense Kerlon (com esse nome, tinha que ser jogador de futebol) não inventou nada, mas a imprensa esportiva tratou de batizar de “drible da foca” a jogada em que ele ergue a bola com o pé e passa pelos adversários quicando-a na testa. Ou pelo menos tenta, porque os zagueiros vão logo baixando o pau, jogando o corpo contra ele. Consideram a jogada um desrespeito, um acinte, onde já se viu? Um certo Luiz Alberto, do meu querido tricolor das Laranjeiras, declarou tomado de ira santa que “arregaçaria” Kerlon (vem cá, isso não é de passar no cabelo não?) se tentasse o polêmico drible. E o lateral esquerdo santista Kleber o acusou de provocar os adversários. Imagino se jogasse nos tempos de Pelé, Coutinho, Pepe, Mengálvio e companhia bela, quando as jogadas superavam a imaginação da torcida, ou nos dias de um certo Garrincha, que deixava adversários de bunda no gramado, em dribles verdadeiramente humilhantes.

Nunca ouvi que quisessem “arregaçar” qualquer desses craques de ontem; antes ao contrário, eram admirados e respeitados por jogadores, técnicos e cartolas de todos os times, inspiravam crianças e adolescentes, causavam inveja até aos colegas de clube, enfim, desfilavam como semideuses dentro e fora dos estádios. Lembro de Pelé, falando sobre sua fama mundial, dizendo algo como “Já pensou o que é descer do avião num lugar onde você nunca pisou e encontrar três mil crianças gritando o seu nome?” Era o que ocorria nos aeroportos onde o Santos dos anos gloriosos da década de 1960 desembarcava para amistosos e torneios internacionais. O episódio a que ele se referiu aconteceu numa capital africana, mas ocorria em muitos lugares para onde levavam-se ônibus e mais ônibus de crianças para ver o artista único do futebol mundial.

Bons tempos aqueles! bem diferentes desses em que um jogador mediano como o Carlos Alberto, também revelado no Fluminense e em boa hora vendido ao Corinthians do MSI, é flagrado ao telefone comunicando à gerente do banco que abrirá empresa num paraíso fiscal para fugir aos impostos brasileiros. Isso é que merece um “arregaço”, tanto quanto as jogadas anti-esportivas, anti-éticas e imorais dos deputados sanguessugas e mensaleiros, dos magistrados que vendem sentenças a traficantes, dos empresários que sempre distribuíram propinas em todos os níveis de governo e agora dizem “Cansei”.

Provocação verdadeira, como acusa o Kléber, do Santos, é o que faz o Renan equilibrando a bola da corrupção na testa por gabinetes, corredores e até pelo plenário do Senado, driblando acusações comprovadas de aquisição de meios de comunicação em tabelinha com “laranjas” e tráfico de influência em favor da Schincariol (por sinal, incapaz de fabricar cerveja digna do nome). Provocação mesmo é o Marco Aurélio Melo soltar os bicheiros preso pela Polícia Federal na Operação Furacão, provocação é a sucessão de novelas alienadas e alienantes na telinha da tevê, anestesiando as classes média e baixa com falsos dilemas morais, éticos e sexuais.

No futebol, drible da foca, da vaca, lençol, chapéu, gol de letra, passe de calcanhar, tudo embeleza o espetáculo e fura o bloqueio das retrancas, porradas no adversário, caneladas pela linha de fundo e chutões pro mato que caracterizam a mediocridade. Viva Kerlon, cuja habilidade acrescenta graça ao talento brasileiro. Se Deus quiser e o Dunga não atrapalhar, ele pode até encantar os gramados internacionais com a camisa amarela.

Arquivado em: Cotidiano I

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