9
de
outubro
Ideologiaá, eu quero uma pra viver…
Arte sobre foto de Alfredo Korda.
Amigos, aos que estranham de uns tempos para cá a periodicidade um tanto errática e imprecisa da coluna peço desculpas e adianto que estou nas providências finais para entrar em férias, o que, para um humilde escriba sem escritório, secretária, despachante, motorista e contínuo pode com certa facilidade se tornar prévia dos labirínticos suplícios burocráticos. Quem leu “O Processo”, de Franz Kafka, entende já o que eu digo. Mesmo eu não tendo nome que se encontre em qualquer lista telefônica, há sempre um carimbador de documentos a confundir-me com outra pessoa, quando não um denodado servidor para descobrir um deslize, lapso ou esquecimento perdido na poeira dos tempos.
Para evitar interregno ainda maior, deixo-vos uma derradeira crônica antes de esticar as pernas numa praia remota onde nenhum oficial de justiça me localizará, nenhuma mocinha de telemarketing me estará alcançando com seu gerundismo traduzido do inglês. E para não ater-me a um tema da nossa criativa vida político-administrativa, peço licença para falar de Ernesto “Che” Guevara, cujo 40º aniversário de morte na selva boliviana transcorreu no dia oito último, uma segunda-feira de lembranças e homenagens na América Latina e na Europa.
“El Che” foi o símbolo máximo da revolução cubana da virada de 1958/59, ocupou a presidência do Banco Central e o ministério da Economia, largou tudo e foi para o então Congo Belga lutar ao lado de Patrick Lumumba pela independência nacional e, mais adiante, embrenhou-se nos Andes bolivianos motivado pela mesma chama revolucionária que foi apagada onde brilhou no subcontinente sul-americano daqueles saudosos anos 60.
O Brasil não fazia parte da América Latina àquele tempo, como os Estados Unidos não integravam, tampouco, a América do Norte. Nossa ditadura militar olhava do alto e com desdém os países vizinhos, da mesma maneira que os governos norte-americanos faziam com relação ao Canadá e ao México, pelo menos até Jimmy Carter, um sopro de humanismo de cunho nitidamente religioso batista que chegou a condenar as torturas e os assassinatos cometidos pelos regimes militares abaixo do equador.
Não poderia ter sido outra a má sorte do “Che” naquela época. Fosse hoje, contaria com a hospitalidade amável de Evo Morales e o financiamento generoso de Hugo Chávez, além da simpática vizinhança de Rafael Correa e do conterrâneo Néstor Kirchner. Mas duvido que Lula e Michelle Bachelet lhe dessem boas-vindas – seu ideário é outro e Brasil e Chile, tanto quanto os Estados Unidos, não se consideram americanos como comunidade continental com interesses e metas mais ou menos comuns, apesar dos eventuais discursos e encontros de cúpulas. Uruguaios, paraguaios e colombianos, em diferentes graus de submissão e dependência, aspiram apenas a se tornar estrelas na bandeira dos EUA na qualidade de “Estado livre associado”, como Porto Rico.
Mas tudo isso não passa de divagação “a vol d’oiseau’ acerca do oito de outubro que outrora inspirou o MR-8. Com a onda neoliberal, o fim do bloco socialista, o império do mercado e a guerra anti-terrorista norte-americana , o “Che Guevara” que povoou sonhos libertários na América espoliada não passa, hoje, de uma camiseta desbotada, um decalque a mais no consumo alienado e antropofágico das nossas praças e ruas.

