17
de
novembro
A caravana e os cães
Vinte e dois chefes de Estado e de governo se reuniram recentemente na Cúpula Ibero-Americana, em Santiago do Chile. Primeiro: foi a décima sétima edição do encontro; segundo: chefes de Estado são uma coisa, chefes de governo são outra. O rei Juan Carlos é uma coisa, Hugo Chávez é outra. E só levanto esta questão porque até agora não entendi o que um rei fazia no encontro de chefes de governo – se já estava lá o Zapatero, a Espanha se fazia representar com galhardia. Mas o rei foi só para ouvir a provocação do venezuelano que, todos sabemos, não tá nem aí pra essas coisas.
Foi bom ouvir o rei perguntar, como quem ordena, por que o outro não se calava. Desopilante ver o colonizador perder o controle sobre o colonizado, ainda mais índio, e mandá-lo fechar a matraca. O representante da nação que descobriu, colonizou, matou centenas de milhares de indígenas em três séculos, não se segurou nas calças: “Por qué no te callas?” Chávez poderia ter devolvido outra pergunta: “Por qué estás acá?” Mas o coronel bolivariano não é besta, aproveitou a deixa de Juan Carlos para fazer o seu comercial. Está certíssimo.
Que integração ibero-americana é essa? É a Telefónica, o Santander e outras empresas espanholas no novo processo colonizador? É a gente engolir essa globalização e só ver o Robinho na televisão? Quem cuida dos interesses da nossa gente e da nossa economia e da nossa cultura? O Lula, a Michelle Bachelet ou o Chávez? Todo mundo defende a integração regional, como na cúpula recém-encerrada, e ninguém se toca que essa proposta é do Enrique Iglesias, do Banco Mundial?
Quem vai financiar o desenvolvimento desses países reunidos no bloco de perdidos? O saneamento básico, a casa própria, a reforma tributária e todo o resto? Quem vai botar dinheiro nessa parada? Os mesmos caras que exploram a gente há meio milênio. Você acha que o rei da Espanha estava em Santiago a passeio? Acha que Hugo Chávez brigou com ele? Não, senhor, Chávez brigou com o que Juan Carlos representa. Disse que a Espanha apoiou o golpe contra seu governo, em 2002. Não sei, é provável, mas sua majestade não tinha nem que estar ali, quanto mais se meter. Devia estar curtindo uma paella em Madri e olhe lá.
Os ricos estão preparados para tomar de assalto a nossa casa, mais uma vez. E o Lula está de gaiato, acredita que o Bolsa Família garante seu lugar na história, o que é rematada bobagem. Prova maior disso é a declaração de Santiago, que ele assinou, propondo a comemoração dos 200 anos da chegada de D. João VI ao Brasil no ano que vem. É a festa da nostalgia, a saudade do chicote, da escravidão, do obscurantismo. Vamos festejar o quê? O atraso? Desse jeito, o Tasso ainda vira presidente da República e Lula vai pro Itamaraty.

