Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

27

de
dezembro

Duas cartas

                                        

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Duas mensagens no meu Hotmail merecem registro e comentários, embora recebidas no dia 18 de dezembro, data que, a depender de quando você lê estas maltraçadas, será ano passado – na velocidade da vida nos dias de hoje isso pode até ser considerado passado remoto. A primeira é a da viúva de uma das vítimas do choque do Boeing com o Legacy sobre a Amazônia:

“luiz,permita-me chamá-lo assim.
obrigado, por sua matéria referente cx preta boeing.
rosane gutjahr”.

Simples, direta, lacônica mesmo, quase um telegrama que, muito embora curto, carrega em cada palavra grafada o peso da perda irreparável. Mas o mais importante nesta mensagem é a parceria (diria cumplicidade) entre Rosane e eu, traduzida no artigo “As duas faces da moeda”, ainda disponível no endereço llgollo.blog.terra.com.br, entre outros locais na rede. Vale a pena conferir porque lá se trata das relações entre a cidadania civil e o estamento militar no Brasil, tutor e gestor último dos passos e dos destinos que às vezes nos vitimam.

A outra correspondência é do Calixto e trata da CPMF – ou, antes, da sua extinção:

Sr. Gollo,

Valeu pelo texto dessas semana. Depois de ler o seu artigo eu fiz uma pequena continha que me disse que quem ganha 100 mil reais / ano, e este não é o meu caso, paga um salário mínimo de CPMF… isso não é um absurdo??

Por que os Democratas (todos não seriam?) e o PSDB, que foi quem pariu o filho agora são contra? Deve ser pelo mesmo motivo que o Lula era contra quando oposição e totalmente favorável agora governo, né?

O Lula tá falando na tv que o fim da CPMF não vai mudar nada, então pra que (ou quem) servia a CPMF?

abraços do leitor

calixto”

Considerando que cem mil reais por ano, como bem diz o Calixto, não corresponde aos seus vencimentos, nem aos meus, lamentavelmente, saquei a calculadora e verifiquei que a CPMF corresponde a R$ 31,70 por mês, no caso de 12 salários/ano. No caso de haver 13º, cai para R$ 29,24. Com toda a sinceridade, não acho que seja sangria nenhuma no salário, sobretudo se considerarmos que os hipotéticos cem mil reais por ano correspondem tão-somente à movimentação financeira.

Quanto às mudanças de posturas com relação ao assunto por parte de petistas e tucanos e demoníacos…ops, perdão, democratas, tudo faz parte desse jogo sujo da política subdesenvolvida, na qual os reais interesses da sociedade são moeda de troca no balcão da administração pública.

Imagino que o propósito do governo (e não do chefe do governo) é cobrir o buraco de R$ 40 bi de 2008 com cortes de pelo menos R$ 12 bi dos R$ 29 bi de emendas parlamentares ao orçamento, além de cortar boa parte do orçamento do Ministério do Turismo, do Ministério do Esporte e alguns outros, além de obras milionárias no Judiciário e no Legislativo. Quem for contra aí, levante o braço.

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14

de
dezembro

CPMF

Se você é capaz de me dizer quanto pagou de CPMF neste ano é porque movimenta muito dinheiro na rede bancária. Eu mesmo não faço a mínima idéia de quanto somou o 0,38% sobre saques, transferências e outras operações na minha conta no Banco do Brasil. Nem quero entrar na discussão sobre o destino dessa grana, se foi para a saúde ou para a doença, para a pobreza ou para a riqueza, só sei que saiu na urina, ao contrário dos 27,5% do imposto de renda sobre o meu salário – que não é renda, como sabemos todos os tapuias. Mas essa é outra história.

Chamou atenção a festa dos senadores oposicionistas depois da derrota da proposta do governo, e nem sou governista, acho até que a incompetência do Lula para negociar é ancestral, vem de seus tataravós lá nas brenhas do agreste, sempre de cabeça baixa, submissos, culturalmente tão avançados quanto os bodes da região. Só isso explicaria a falta de tato na negociação, a absoluta ausência de “timing”, a soberba, enfim, o despreparo para resolver uma questão que superava em muito os interesses políticos.

Mais espantoso foi ver senadores dos Democratas e do PSDB comemorando a derrota da emenda governamental. Ora, não eram exatamente aqueles senhores que em 1996 pugnaram e deitaram falação na defesa da proposta do ministro Adib Jatene? Não foram liberais e tucanos que enfiaram goela abaixo da nação, graças ao “rolo compressor” do Fernando Henrique, o IPMF, em seguida transformado em CPMF?

Cabe aqui o parênteses: sabe por que a mudança de “imposto” para “contribuição”? É que um vai todo para o governo federal, enquanto a outra tem de ser dividida com estados e municípios. Fecha o parênteses.

Hoje PSDB e DEM são contra a CPMF que aprovaram em 1996 porque mudou o país, mudaram os partidos, ou a saúde dispensa o dinheiro da contribuição? Nenhuma das alternativas anteriores. O país continua sem recursos para a saúde, o PSDB é o mesmo e os liberais só mudaram de nome. A questão da CPMF, fora a cornucópia de dinheiro para o governo, é que o acesso às informações permite detectar sonegação, sinais de enriquecimento ilícito e outros crimes menos visíveis a olho nu. Não por acaso a Justiça teve de abrir a caixa preta às investigações policiais – os bancos escondiam a CPMF sob o sigilo bancário.

Hoje pela manhã vi o Everardo Maciel, ex-secretário da Receita Federal, que entende do riscado, dizer que já há outros modos de cruzar muitas informações sem a CPMF, mas é preciso achar um novo instrumento para as operações internacionais entre empresas. Por aí escoa muito dinheiro, limpo e sujo.

No mais, o governo terá de aumentar um imposto aqui, outro ali e controlar os gastos públicos, coisa difícil nessa cultura político-administrativa em que vivemos. Acho que saía mais barato contribuir com 0,38% da movimentação financeira para o SUS…ou não?

11

de
dezembro

Previsão sombria

Exemplo de "construção frágil no interior do país".

 

Foi só a terra dar uma tremidinha de nada em Minas e já apareceu um geomorfólogo, de nome Allaoua Saadi, com uma lista de 47 outras falhas apontadas no Mapa Neotectônico do Brasil. Alguns outros pesquisadores ouvidos pelo Estadão ecoam o alarme de Saadi, como Edson Farias Mello, da UFRJ, que adverte sobre o risco de desabarem construções frágeis no interior do país. Embora não tenha citado especificamente o Congresso Nacional, já tem político propondo a publicação diária de previsões sismológicas junto com os horóscopos dos jornais.

6

de
dezembro

As duas faces da moeda

Viúva de Rolf Gutjthar, uma das vítimas do Boeing da Gol que caiu depois do choque com o Legacy em setembro do ano passado, Rosane pediu e exigiu inúmeras vezes acesso à caixa preta do avião para inteirar-se do que de fato acontecera. A Aeronáutica negou e mentiu, dizendo que só havia ruídos na fita. Deputados da CPI que “investigou” o acidente reforçaram a versão, que afinal caiu por terra porque Rosane recebeu agora, gratuita e anônima, cópia em CD da fita. “Há muito mais do que gritos de ‘calma’ e os ruídos”, diz a viúva, revoltada com a mentira oficial.

Há muito mais também por trás deste episódio: persiste no país a cultura de que cidadão fardado vale mais do que cidadão em roupas civis. Os militares deixaram o poder há mais de duas décadas, mas mantêm sobre a sociedade a espada de Dâmocles de uma nova intervenção, se a gente não se comportar direitinho. Escondem desde os arquivos do combate à guerrilha do Araguaia até conteúdo de caixa preta de um avião civil. Erguem barricadas em torno de quartéis, impedem o acesso da Justiça às suas dependências e até o “machão gaúcho” Nelson Jobim, O Indômito, já se adaptou aos ditames da caserna.

O Brasil, como de resto muitos dos vizinhos sul e latino-americanos, não tem uma sociedade forte e independente, nem tem a formação de outras nações da sua idade, como os Estados Unidos, onde o poder civil está acima do poder militar. Lá, por exemplo, para aumentar o orçamento das forças armadas, o governo tem de aprová-lo no Congresso, com discussão na imprensa, vozes pró e contra. Os militares ganham sempre, mas não é como aqui, onde esses orçamentos são sigilosos, aprovados na moita, sem conhecimento nem discussão. Alguém aí sabe quanto já se gastou no submarino nuclear brasileiro? Ou quanto custou o porta-aviões francês São Paulo? Ou por quanto foi vendido o Minas Gerais e onde foi parar o dinheiro?

Uma vez, o deputado Eliseu Resende me disse que quando ministro dos Transportes de João Figueiredo, O Inesquecível, participou de um encontro internacional de ministros onde lhe perguntaram por que no Brasil a aviação civil não estava nos Transportes, mas sim na Aeronáutica. Ele não respondeu e se desvencilhou com um sorriso mineiro, mas com toda a certeza conhecia as razões, que remontam ao getulismo do Estado Novo.

Pensando bem, este defeito da nossa sociedade vem desde a Independência, de D. Pedro I, que nunca apareceu em trajes civis, se estendeu até a República do marechal Deodoro da Fonseca e seu sucessor Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, e se perpetua através dos golpes militares comuns tanto aqui quanto nos vizinhos. Estamos destinados a ser a parte tutelada do planeta, as sociedades que não sabem viver sem uma farda por perto, que precisam recorrer às armas em vez do debate e do voto livre. Rosane Gutjthar é mais uma voz a se levantar contra isso, embora nem ela própria tenha consciência do vespeiro em que se meteu. Quem lhe enviou a cópia da caixa preta, este sim, sabe o que fez e se escondeu num anonimato cidadão, não um anonimato covarde.

4

de
dezembro

Dalai Lama da Silva

                        

 

O Dalai Lama quer que todos os monges tibetanos digam se ele deve ou não reencarnar, como é tradição há séculos, desde muito antes da ocupação chinesa no Tibete. A idéia soa mal nos ouvidos ocidentais, porque somos ignorantes nessas coisas do lado de lá do planeta. Ele é o 14º corpo que o espírito do Dalai Lama ocupa. Tem 74 anos e está vendendo saúde, mas como até os líderes um dia vão dessa pra melhor, já se prepara para o transe da reencarnação.

Habitualmente, o Dalai Lama reencarna num menino que os monges identificam entre tantos outros, examinando-lhe mente e alma de forma que só monge tibetano conhece. Assim, entre não sei quantas crianças de dois anos ou pouco mais, descobrem a reencarnação e lá vai o menino pro monastério aprender os segredos e mistérios que só Dalai Lama sabe.

O plebiscito religioso proposto por Dalai Lama cria um problemão para a China, que já nomeou um Panchem Lama, o segundo em importância no Tibete e que foi “descoberto” pelo próprio Dalai Lama. Hoje o Panchem Lama está desaparecido, e o governo chinês avisou que qualquer reencarnação do Dalai Lama não autorizada por ele é ilegal, complicando ainda mais o cenário.

O Dalai Lama já visitou o Brasil três vezes, e anuncia agora que se o Tibete ainda estiver ocupado quando ele morrer, sua reencarnação não nascerá numa região não controlada pela China, mas sim num país livre. Quem sabe ele reencarna em Pernambuco, acaba com essa encanação de terceiro mandato e libera todo mundo pra ir à praia, a verdadeira vocação nacional?

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