6
de
dezembro
As duas faces da moeda
Viúva de Rolf Gutjthar, uma das vítimas do Boeing da Gol que caiu depois do choque com o Legacy em setembro do ano passado, Rosane pediu e exigiu inúmeras vezes acesso à caixa preta do avião para inteirar-se do que de fato acontecera. A Aeronáutica negou e mentiu, dizendo que só havia ruídos na fita. Deputados da CPI que “investigou” o acidente reforçaram a versão, que afinal caiu por terra porque Rosane recebeu agora, gratuita e anônima, cópia em CD da fita. “Há muito mais do que gritos de ‘calma’ e os ruídos”, diz a viúva, revoltada com a mentira oficial.
Há muito mais também por trás deste episódio: persiste no país a cultura de que cidadão fardado vale mais do que cidadão em roupas civis. Os militares deixaram o poder há mais de duas décadas, mas mantêm sobre a sociedade a espada de Dâmocles de uma nova intervenção, se a gente não se comportar direitinho. Escondem desde os arquivos do combate à guerrilha do Araguaia até conteúdo de caixa preta de um avião civil. Erguem barricadas em torno de quartéis, impedem o acesso da Justiça às suas dependências e até o “machão gaúcho” Nelson Jobim, O Indômito, já se adaptou aos ditames da caserna.
O Brasil, como de resto muitos dos vizinhos sul e latino-americanos, não tem uma sociedade forte e independente, nem tem a formação de outras nações da sua idade, como os Estados Unidos, onde o poder civil está acima do poder militar. Lá, por exemplo, para aumentar o orçamento das forças armadas, o governo tem de aprová-lo no Congresso, com discussão na imprensa, vozes pró e contra. Os militares ganham sempre, mas não é como aqui, onde esses orçamentos são sigilosos, aprovados na moita, sem conhecimento nem discussão. Alguém aí sabe quanto já se gastou no submarino nuclear brasileiro? Ou quanto custou o porta-aviões francês São Paulo? Ou por quanto foi vendido o Minas Gerais e onde foi parar o dinheiro?
Uma vez, o deputado Eliseu Resende me disse que quando ministro dos Transportes de João Figueiredo, O Inesquecível, participou de um encontro internacional de ministros onde lhe perguntaram por que no Brasil a aviação civil não estava nos Transportes, mas sim na Aeronáutica. Ele não respondeu e se desvencilhou com um sorriso mineiro, mas com toda a certeza conhecia as razões, que remontam ao getulismo do Estado Novo.
Pensando bem, este defeito da nossa sociedade vem desde a Independência, de D. Pedro I, que nunca apareceu em trajes civis, se estendeu até a República do marechal Deodoro da Fonseca e seu sucessor Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, e se perpetua através dos golpes militares comuns tanto aqui quanto nos vizinhos. Estamos destinados a ser a parte tutelada do planeta, as sociedades que não sabem viver sem uma farda por perto, que precisam recorrer às armas em vez do debate e do voto livre. Rosane Gutjthar é mais uma voz a se levantar contra isso, embora nem ela própria tenha consciência do vespeiro em que se meteu. Quem lhe enviou a cópia da caixa preta, este sim, sabe o que fez e se escondeu num anonimato cidadão, não um anonimato covarde.

