Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

25

de
janeiro

Crônica mundana

A namorada do francês na revista espanhola  DT

 

A França, definitivamente, não é mais a mesma. "Namorada de Sarkozy posa nua e nega rumores de casamento", estampa a Folha. O cara tomou posse, se divorciou e ato contínuo está com uma cantora e modelo toda exibida nas páginas de uma revista espanhola. Fui procurar na notinha o prenome do presidente e não achei, era só Sarkozy. A moça tem nome e sobrenome, no mesmo texto. 

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24

de
janeiro

Conselhos e conselheiros

Ele não consta de nenhum conselho, infelizmente

 

São tantas as acrobacias que o governo tem de fazer para governar que o presidente Lula vem de criar um “conselhinho político”, a ser composto por ministros e representantes de cada um dos partidos da sua base no Congresso, e com reuniões agendadas quinzenalmente. É razoável o prazo, já que deputados e senadores despendem mais ou menos esse tempo no estica/encolhe, cede/bate pé, sorri/fecha a cara em torno dos assuntos que lhes são enviados pelo Palácio do Planalto, em especial as famosas Medidas Provisórias.

Sobre estas, é bom lembrar que sucederam o antigo Decreto-Lei dos tempos ditatoriais, quando o general de plantão enviava um ao Congresso e se ele não o aprovasse em dois meses, virava lei por “decurso de prazo”. Muita coisa ruim passou por decurso de prazo no Legislativo e até na vida pessoal da gente comum. Florisvaldo, um garçom conhecido, cuja mulher deu à luz um robusto pimpolho, só o registrou dois meses depois do nascimento, à espera do decurso de prazo. “Não apareceu ninguém pra reclamar, então é meu. E o menino já ta tomando gosto, me chamando de papai”, explicou-me entre dois chopes.

O “conselhinho” vem somar esforços ao Conselho propriamente dito, que qualquer governo minimamente organizado mantém. No caso brasileiro, é formado pelos “ministros da casa”, ou seja, os que têm gabinete no palácio, mais uns poucos privilegiados. Não é comum reunir-se formalmente, mas está sempre ao alcance do presidente para uma palavra amiga. Um dos mais notórios conselheiros políticos de Lula é o “Galego”, como ele chama na intimidade o governador da Bahia, Jaques Wagner.

Nesta qualidade ele foi ministro do Trabalho, de Relações Institucionais e Secretário Geral do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – este, sim, um “conselhão” formado por “noventa cidadãos brasileiros e respectivos suplentes, maiores de idade, de ilibada conduta e reconhecida liderança e representatividade, designados pelo Presidente da República para mandatos de dois anos, facultada a recondução”, além dos “Ministros de Estado Chefes da Casa Civil; da Secretaria-Geral da Presidência da República e do Gabinete de Segurança Institucional; Ministros de Estado da Fazenda; do Planejamento, Orçamento e Gestão; do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; do Desenvolvimento Social e do Trabalho e Emprego; do Meio Ambiente, das Relações Exteriores e o Presidente do Banco Central”. Confira no endereço www.cdes.gov.br.

Fora isto tudo, o presidente Lula conta também com seus ministros, que orçam aí pela casa dos 36 ou 37, se não me engana a nomenclatura oficial, cuja primeira reunião do ano rendeu não somente boas fotos na mídia como a curiosa comparação com a última ceia de Jesus com seus discípulos. Curiosa porém justificável, porque todo conselho há de ter seu traidor, nem que seja para desmentir a presunção de que conselhos são uma instância superior e que seus membros estão acima de qualquer suspeita. Penso que foi isso que Lula quis dizer com a analogia, embora o Arthur Virgílio insista que Lula pensa que é Jesus Cristo.

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21

de
janeiro

Cratera

               

 

Para quem reclama dos buracos nas ruas, a foto no Jornal do Brasil comprova que no Rio de Janeiro, o buraco é mais embaixo de verdade.

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17

de
janeiro

Dendrobata

                       

 

Da série "Uma imagem vale mais que mil palavras", a foto do encontro em que Lula formalizou o convite para Edison Lobão integrar sua equipe de governo talvez mostre também o tamanho do sapo que o presidente teve de engolir para manter o apoio do PMDB.

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16

de
janeiro

Olha a febre aí, gente!

Saudades dos tempos em que “perigo amarelo” era a ameaça chinesa sobre o Ocidente. O exército chinês treinava soldados com baioneta calada, aquela com uma faca na ponta do cano, como observou o repórter americano que acompanhou Richard Nixon a Pequim em 1972, na chamada “política do pingue-pongue”. O general que o guiava na visita tinha apenas 29 anos de idade e quando perguntado por que arma tão antiga em plena era nuclear, respondeu que qualquer guerra, mesmo com bomba atômica, terminará no combate homem a homem, e aí vai dar China, com milhões e milhões de corpos de vantagem.

Desde 1942 não se via morte por febre amarela em zona urbana no Brasil. Agora morre um em Goiânia, outro em Brasília, alguém em Maringá…já são cinco mortos, e o ministro da Saúde insiste em manter a calma nacional na base do “senta que o leão é manso”. Quanto mais o ministro exibe tranqüilidade, maiores são as filas nos postos de saúde. Tem gente que tenta se vacinar duas vezes só por garantia, ou por ignorância. Parece que todo mundo se lembra como se fosse ontem da epidemia de meningite que a ditadura censurou na imprensa, no começo dos anos 70, até que os casos chegaram aos elegantes Jardins em São Paulo. Aí não teve jeito.

No alvorecer do século passado, em 1904, Oswaldo Cruz já lutava contra a febre amarela, no Rio de Janeiro, antes mesmo da epidemia de varíola que se tornaria o inimigo maior. Enfrentou preconceitos, ignorância e má vontade até de gente ilustre, mas acabou por livrar o Rio de Janeiro da doença. A vacina contra a febre amarela, por sua vez, surgiu na França em 1928 e dois anos depois nos Estados Unidos. Chegou ao Brasil em 1935. Por que não fizemos, em algum momento desde então, campanhas permanentes de vacinação em massa, como a da pólio? O que faltou aos nossos governantes? O mesmo que falta no combate à dengue?

Como é possível a ciência médica avançar em descobertas e tecnologias e as pessoas morrerem de doenças ancestrais? Essa pergunta eu me faço desde, pelo menos, a morte do compositor Beto Sem Braço, em 1993, por tuberculose. Não há resposta, repetem os próprios médicos, atônitos e perplexos. Tomografia, ressonância magnética e outros procedimentos não contribuem em nada nesta luta contra o passado.

Microscópios e telescópios e sondas espaciais não nos revelam mais do que já sabemos – ou seja, não sabemos nada, do grão de areia à Supernova detectada a milhões de anos luz. Apesar do massacre publicitário de comprimidos contra a gripe, é impossível curar um resfriado, prevenir uma dor de cabeça, evitar o estresse, a dor de barriga. Neste aspecto, o ministro da Saúde pode estar certo, sem saber. Ao garantir que a febre amarela não é ameaça à população, quem sabe não está de fato afastando o perigo e indiretamente convencendo os mosquitos a picar em outra freguesia, como se dizia no tempo do Dr. Cruz.

10

de
janeiro

A morte do espião do bem

    Philip Agee vivia em Havana.

Morreu aos 72 anos, em Havana, Philip Agee, que as gerações mais novas não conhecem nem de nome. Foi espião da CIA (Central Intelligence Agency) durante as ditaduras militares sul e centro-americanas. Abandonou o serviço denunciando o apoio da agência e do governo americano às torturas, perseguições e assassinatos de dissidentes políticos dos ditadores. O Brasil dos generais Médici e Geisel estava no topo da lista. Obviamente persona non grata em seu país, Philip viveu o resto da vida em Cuba e seu necrológico no Granma o destacou como “um amigo leal de Cuba e ferrenho defensor da luta dos povos por um mundo melhor”.

A morte de Philip Agee desmente a ficção cinematográfica e confirma que espiões, no geral, morrem mal, em serviço ou no ostracismo, com possíveis raras exceções guardadas em anonimato absoluto. Mata Hari, charmosa e bela bailarina holandesa, foi executada na França em 1917, por espionagem durante a Primeira Guerra Mundial. Nos Estados Unidos do pós Segunda Guerra, o casal Julius e Ethel Rosenberg morreu na cadeira elétrica acusado de passar aos soviéticos segredos militares.

Na Inglaterra do começo dos anos 1960, um governo inteiro foi ao chão, o do primeiro-ministro Harold MacMillan, por conta de uma garota de programa de 19 anos chamada Christine Keeler, que deve estar viva ainda e morando em Londres às custas da previdência social da rainha, muito diferente da nossa.

Chris conheceu John numa festa do socialite Stephen Ward, em 1961 e iniciaram um caso comum no mundo da infidelidade conjugal. Sua mulher, Valerie Hobson, atriz de filmes policiais e de terror, não se abalou, mas o Parlamento sim, porque Christine Keeler também namorava o adido da Marinha da União Soviética, Eugene Ivanov. O triângulo sugeria espionagem e montou-se logo algo como uma CPI à qual Profumo mentiu com a cara de pau de senador brasileiro e foi demitido.

A mocinha pegou nove meses de prisão e Stephen Ward se matou durante a investigação. Mais tarde, a Suprema Corte Britânica conduziu nova investigação em que nada ficou comprovado sobre a suposta espionagem – os três negociavam sexo apenas, como na novela das nove.

A morte de Philip Agee, autor do livro “Inside de Company”, suscita reminiscências dos tempos em que espionagem tinha um quê de romântico e humano. Espiões eram pessoas comuns, tinham sentimentos e em épocas de caça às bruxas muitas vezes nem eram profissionais. Espiões trocavam de lado para livrar a própria pele, outros morriam pela causa com maior ou menor dignidade e convicção.

Neste contexto, a atitude de Philip Agee de discordar e denunciar prisões, torturas e mortes sob inspiração de seus chefes, sobretudo nas circunstâncias daqueles tempos difíceis para a democracia latino e centro-americana, merece este registro póstumo.

7

de
janeiro

É pau, é pedra…

A aridez e a aspereza de gestos, olhares e do simples pensamento intuitivo nas ruas centrais ao sol de trinta e muitos graus me dão uma única certeza: estou no Rio de Janeiro. Não é a cidade onde nasci e vivi décadas da minha vida, este Rio na primeira semana de janeiro é uma multidão apressada pelas calçadas, esbarrando-se de cara amarrada, comentando o fim da CPMF com ar distraído, esquecida da falta de dinheiro no banco. O Rio de Janeiro continua lindo, só ganhou contornos novos, arrojados, trocou um tanto da personalidade carioca por um perfil menos cosmopolita e mais metropolitano, bairrista, se aceito que o mundo é a minha aldeia.

No centro, que conheci como “cidade” quando criança, impera o anonimato, as pessoas sem expressão, sem rosto, uma massa disforme a se mover de um lado a outro em passos largos e alheios à humanidade, aos astros, às conjunções e conjurações celestes. Parece mesmo que as pessoas fogem de coisa ruim, da má notícia, do inexorável, inescapável destino, e meu olhar descansa, paradoxal, na miscelânea de corpos, na mixórdia de rostos, e não sei bem por que me lembro do comentário grave da vizinha sobre o menino da minha idade que se perdeu da mãe “na cidade”.

Naquele tempo distante, quando uma criança se perdia “na cidade” era o fim do mundo, a família se desesperava, tios e tias saíam munidos de fotos e perguntas, emissoras de rádio repetiam a descrição das roupas, cor dos cabelos, sinais particulares. E quando a criança era localizada, alívio geral na vizinhança, no bairro, na cidade aflita. Nos dias de hoje, sumiu, já era. Em muitos sentidos, até, porque os tios andam ocupados demais com seus próprios filhos, a polícia está mais atenta a outros afazeres, como vimos no filme do capitão Nascimento, e as emissoras de rádio não estão nem aí para questões pessoais das orelhas mundanas.

A aspereza e a aridez não deixam espaço à poesia e à reflexão, neste ritmo acelerado, na busca aflitiva não de respostas, mas sim de soluções, panacéias, na corrida ilógica dessa gente empurrada pela publicidade na televisão, pelos falsos padrões estéticos e pela certeza de que no fim todos serão perdoados. Nesta sexta-feira quatro de janeiro, diante do teclado na Rua da Carioca, aprendo uma lição importante: sou apenas mais um neste admirável gado novo cantado por Zé Ramalho. Meus devaneios não passam de delírio fora do tempo, à margem da vida, coisa de poeta no sentido mais chulo do termo.

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