7
de
janeiro
É pau, é pedra…
A aridez e a aspereza de gestos, olhares e do simples pensamento intuitivo nas ruas centrais ao sol de trinta e muitos graus me dão uma única certeza: estou no Rio de Janeiro. Não é a cidade onde nasci e vivi décadas da minha vida, este Rio na primeira semana de janeiro é uma multidão apressada pelas calçadas, esbarrando-se de cara amarrada, comentando o fim da CPMF com ar distraído, esquecida da falta de dinheiro no banco. O Rio de Janeiro continua lindo, só ganhou contornos novos, arrojados, trocou um tanto da personalidade carioca por um perfil menos cosmopolita e mais metropolitano, bairrista, se aceito que o mundo é a minha aldeia.
No centro, que conheci como “cidade” quando criança, impera o anonimato, as pessoas sem expressão, sem rosto, uma massa disforme a se mover de um lado a outro em passos largos e alheios à humanidade, aos astros, às conjunções e conjurações celestes. Parece mesmo que as pessoas fogem de coisa ruim, da má notícia, do inexorável, inescapável destino, e meu olhar descansa, paradoxal, na miscelânea de corpos, na mixórdia de rostos, e não sei bem por que me lembro do comentário grave da vizinha sobre o menino da minha idade que se perdeu da mãe “na cidade”.
Naquele tempo distante, quando uma criança se perdia “na cidade” era o fim do mundo, a família se desesperava, tios e tias saíam munidos de fotos e perguntas, emissoras de rádio repetiam a descrição das roupas, cor dos cabelos, sinais particulares. E quando a criança era localizada, alívio geral na vizinhança, no bairro, na cidade aflita. Nos dias de hoje, sumiu, já era. Em muitos sentidos, até, porque os tios andam ocupados demais com seus próprios filhos, a polícia está mais atenta a outros afazeres, como vimos no filme do capitão Nascimento, e as emissoras de rádio não estão nem aí para questões pessoais das orelhas mundanas.
A aspereza e a aridez não deixam espaço à poesia e à reflexão, neste ritmo acelerado, na busca aflitiva não de respostas, mas sim de soluções, panacéias, na corrida ilógica dessa gente empurrada pela publicidade na televisão, pelos falsos padrões estéticos e pela certeza de que no fim todos serão perdoados. Nesta sexta-feira quatro de janeiro, diante do teclado na Rua da Carioca, aprendo uma lição importante: sou apenas mais um neste admirável gado novo cantado por Zé Ramalho. Meus devaneios não passam de delírio fora do tempo, à margem da vida, coisa de poeta no sentido mais chulo do termo.


Comentário por Walkyria Lobão Rocha — 10 10UTC janeiro 10UTC 2008 (13:42)
Luiz:
Outro dia, sem querer, esbarrei num artigo seu sobre a visita do Dalai Lama e, surpresa, lhe deixei um comentário.
De vez em quando tenho lido o que vc escreve e me pareces meio saudoso . Me lembro daquela personagem do filme Central do Brasil que disse”tenho saudade de tudo”. Acho que isso acontece quando nos sentimos meio fora do lugar e percebemos que esse tempo já não é o “nosso”, como diziam nossos avós, não é?
Li “minha palma”. Muito legal.
Um abraço
Walkyria