Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

16

de
janeiro

Olha a febre aí, gente!

Saudades dos tempos em que “perigo amarelo” era a ameaça chinesa sobre o Ocidente. O exército chinês treinava soldados com baioneta calada, aquela com uma faca na ponta do cano, como observou o repórter americano que acompanhou Richard Nixon a Pequim em 1972, na chamada “política do pingue-pongue”. O general que o guiava na visita tinha apenas 29 anos de idade e quando perguntado por que arma tão antiga em plena era nuclear, respondeu que qualquer guerra, mesmo com bomba atômica, terminará no combate homem a homem, e aí vai dar China, com milhões e milhões de corpos de vantagem.

Desde 1942 não se via morte por febre amarela em zona urbana no Brasil. Agora morre um em Goiânia, outro em Brasília, alguém em Maringá…já são cinco mortos, e o ministro da Saúde insiste em manter a calma nacional na base do “senta que o leão é manso”. Quanto mais o ministro exibe tranqüilidade, maiores são as filas nos postos de saúde. Tem gente que tenta se vacinar duas vezes só por garantia, ou por ignorância. Parece que todo mundo se lembra como se fosse ontem da epidemia de meningite que a ditadura censurou na imprensa, no começo dos anos 70, até que os casos chegaram aos elegantes Jardins em São Paulo. Aí não teve jeito.

No alvorecer do século passado, em 1904, Oswaldo Cruz já lutava contra a febre amarela, no Rio de Janeiro, antes mesmo da epidemia de varíola que se tornaria o inimigo maior. Enfrentou preconceitos, ignorância e má vontade até de gente ilustre, mas acabou por livrar o Rio de Janeiro da doença. A vacina contra a febre amarela, por sua vez, surgiu na França em 1928 e dois anos depois nos Estados Unidos. Chegou ao Brasil em 1935. Por que não fizemos, em algum momento desde então, campanhas permanentes de vacinação em massa, como a da pólio? O que faltou aos nossos governantes? O mesmo que falta no combate à dengue?

Como é possível a ciência médica avançar em descobertas e tecnologias e as pessoas morrerem de doenças ancestrais? Essa pergunta eu me faço desde, pelo menos, a morte do compositor Beto Sem Braço, em 1993, por tuberculose. Não há resposta, repetem os próprios médicos, atônitos e perplexos. Tomografia, ressonância magnética e outros procedimentos não contribuem em nada nesta luta contra o passado.

Microscópios e telescópios e sondas espaciais não nos revelam mais do que já sabemos – ou seja, não sabemos nada, do grão de areia à Supernova detectada a milhões de anos luz. Apesar do massacre publicitário de comprimidos contra a gripe, é impossível curar um resfriado, prevenir uma dor de cabeça, evitar o estresse, a dor de barriga. Neste aspecto, o ministro da Saúde pode estar certo, sem saber. Ao garantir que a febre amarela não é ameaça à população, quem sabe não está de fato afastando o perigo e indiretamente convencendo os mosquitos a picar em outra freguesia, como se dizia no tempo do Dr. Cruz.

Arquivado em: Cotidiano, Política I

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