24
de
janeiro
Conselhos e conselheiros

Ele não consta de nenhum conselho, infelizmente
São tantas as acrobacias que o governo tem de fazer para governar que o presidente Lula vem de criar um “conselhinho político”, a ser composto por ministros e representantes de cada um dos partidos da sua base no Congresso, e com reuniões agendadas quinzenalmente. É razoável o prazo, já que deputados e senadores despendem mais ou menos esse tempo no estica/encolhe, cede/bate pé, sorri/fecha a cara em torno dos assuntos que lhes são enviados pelo Palácio do Planalto, em especial as famosas Medidas Provisórias.
Sobre estas, é bom lembrar que sucederam o antigo Decreto-Lei dos tempos ditatoriais, quando o general de plantão enviava um ao Congresso e se ele não o aprovasse em dois meses, virava lei por “decurso de prazo”. Muita coisa ruim passou por decurso de prazo no Legislativo e até na vida pessoal da gente comum. Florisvaldo, um garçom conhecido, cuja mulher deu à luz um robusto pimpolho, só o registrou dois meses depois do nascimento, à espera do decurso de prazo. “Não apareceu ninguém pra reclamar, então é meu. E o menino já ta tomando gosto, me chamando de papai”, explicou-me entre dois chopes.
O “conselhinho” vem somar esforços ao Conselho propriamente dito, que qualquer governo minimamente organizado mantém. No caso brasileiro, é formado pelos “ministros da casa”, ou seja, os que têm gabinete no palácio, mais uns poucos privilegiados. Não é comum reunir-se formalmente, mas está sempre ao alcance do presidente para uma palavra amiga. Um dos mais notórios conselheiros políticos de Lula é o “Galego”, como ele chama na intimidade o governador da Bahia, Jaques Wagner.
Nesta qualidade ele foi ministro do Trabalho, de Relações Institucionais e Secretário Geral do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – este, sim, um “conselhão” formado por “noventa cidadãos brasileiros e respectivos suplentes, maiores de idade, de ilibada conduta e reconhecida liderança e representatividade, designados pelo Presidente da República para mandatos de dois anos, facultada a recondução”, além dos “Ministros de Estado Chefes da Casa Civil; da Secretaria-Geral da Presidência da República e do Gabinete de Segurança Institucional; Ministros de Estado da Fazenda; do Planejamento, Orçamento e Gestão; do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; do Desenvolvimento Social e do Trabalho e Emprego; do Meio Ambiente, das Relações Exteriores e o Presidente do Banco Central”. Confira no endereço www.cdes.gov.br.
Fora isto tudo, o presidente Lula conta também com seus ministros, que orçam aí pela casa dos 36 ou 37, se não me engana a nomenclatura oficial, cuja primeira reunião do ano rendeu não somente boas fotos na mídia como a curiosa comparação com a última ceia de Jesus com seus discípulos. Curiosa porém justificável, porque todo conselho há de ter seu traidor, nem que seja para desmentir a presunção de que conselhos são uma instância superior e que seus membros estão acima de qualquer suspeita. Penso que foi isso que Lula quis dizer com a analogia, embora o Arthur Virgílio insista que Lula pensa que é Jesus Cristo.

