22
de
fevereiro
Paranóia e discriminação
A seguida deportação de cidadãos brasileiros ao desembarcarem no aeroporto de Madri desperta a atenção para um novo fenômeno que é conseqüência de alguns fatores. Primeiro, a globalização da economia, que globalizou também a pobreza; segundo, os atentados que estabeleceram, a partir de setembro de 2001, a paranóia no mundo desenvolvido; e, terceiro, a impossibilidade de conter o fluxo migratório para esses países, em busca de trabalho e vida melhor.
O caso dos brasileiros deportados da Espanha “pode acabar tendo impacto nas relações entre os dois países”, nas palavras do chanceler Celso Amorim, que advertiu seu colega espanhol Miguel Angel Moratinos há duas semanas, em conversa formal em Madri. Amorim disse que antes eram 20 ou 30 brasileiros barrados por mês naquele país e hoje são oito por dia. Este aumento, segundo ele, “não é normal”.
O governo espanhol se escuda no Acordo de Schengen, firmado por Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Finlândia, Grécia, Itália, Islândia, Noruega, Países Baixos, Portugal e Suécia e Suíça. Ratificado e ampliado em 2004, o acordo estabeleceu novas regras para a circulação de seus nacionais pelo espaço europeu, eliminando controles de fronteiras, mas preservando as interdições aos não-europeus para trabalhar e residir em seus territórios. Os signatários do acordo tiveram o prazo de outubro de 2007 para implementar as mudanças, o que coincide com o aumento dos casos de deportações na Espanha.
A nova realidade atende ao cenário da União Européia, sua moeda e seu mercado comuns e tenta frear a entrada de africanos, americanos e asiáticos pobres. O aumento da deportação de brasileiros na Espanha se deve sobretudo ao fato de ser a rota preferencial do tráfico de cocaína e de escravas sexuais para o continente, sendo que em ambas as atividades os chefões quase sempre são cidadãos europeus, em especial espanhóis.
Outra conseqüência da globalização da economia foi a criação de um mercado mais voraz e ganancioso, no qual até jogadores de futebol são considerados commodities, importados dos produtores sul-americanos e africanos ainda na infância ou na adolescência, quando ainda são baratos e promissores. Juntamente com os filhos das antigas colônias européias, esses estrangeiros formam uma classe diferente, com papel social específico e limitado na cultura européia – como as garotas de programa brasileiras, russas, romenas e Filipinas que ocupam hoje o mercado que já pertenceu às prostitutas locais.
Acrescentando-se a este cenário a paranóia do terrorismo internacional, cujo ataque mais recente e espetacular ocorreu exatamente em Madri, forma-se o quadro que leva as autoridades de fronteira aérea e marítima a agirem com rigor máximo, sem distinguir os motivos de cada viajante. É mais fácil e prático considerar todo barbudo terrorista ou “mula’ do tráfico internacional e toda mulher sozinha prostituta ou “mula” e deportar todos, sem cerimônia.
Esta é a complexa realidade que está por trás da deportação da física Patrícia Camargo Magalhães, depois de 53 horas presa no aeroporto de Madri, quando tentava chegar a um congresso científico em Portugal. Ela pode ser o ponto de partida para uma diplomacia mais vigilante e firme na defesa dos brasileiros no exterior, independentemente de sua condição social, seu nível de instrução e da própria condição legal no país onde se encontre.




Viviane, a modelo.

