7
de
fevereiro
Entre tapa e beijo
Viviane, a modelo.
A São Clemente, escola de samba carioca que subiu ao grupo especial porque ficou em primeiro no ano passado no grupo inferior, desfilou neste carnaval o enredo sobre a chegada da família real portuguesa ao Brasil, que completa o bicentenário este ano. Fez jus ao apoio financeiro de R$ 2 milhões da prefeitura, para não falar mal de D. João VI, D. Carlota Joaquina e companhia bela.
Mas o que projetou seu desfile na mídia foi a modelo Viviane Castro, usando um tapa-sexo de apenas quatro centímetros. Roubou a cena até da Rogéria, sexagenário travesti que um dia atendeu pelo nome de Astolfo Barroso Filho, no bairro onde nasceu em Niterói. Transformado em artista, vestiu-se de D. Maria, a Louca, mãe do príncipe regente D. João VI.
Pela ousadia da modelo, a São Clemente foi punida com a perda de meio ponto. Pela maluquice da Rogéria, nem um milésimo. Mas carnaval é isso mesmo, e mudando de canal, viu-se na Band que o repórter responsável pela transmissão de acalorados beijos ao vivo, sob o alto patrocínio de um creme dental, impediu que duas lésbicas participassem da promoção, aos brados de "mulher com mulher não!" e "vou arrumar dois homens pra vocês".
"A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais flagrou a cena e pediu ‘providências’ à emissora, que ainda não se manifestou sobre o caso", escreveu a Folha, em matéria francamente favorável ao beijo gay em rede nacional por volta das seis da tarde, no carnaval de Salvador.
Existirá algum vínculo sócio-antropológico entre os dois acontecimentos noticiados nas cinzas desta quarta-feira? Não sou a pessoa indicada para responder. Apenas acho mulher pelada na avenida e manifestações públicas tipo beijo gay um pouco demais pro meu gosto. Tomara que o repórter da Band não sofra represálias por sua postura, nem apareça uma associação de modelos nuas pedindo de volta o meio ponto tirado da São Clemente.

