Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

19

de
fevereiro

A cultura da violência

Cena do filme que navega entre a realidade e a ficção.

 

A premiação do filme “Tropa de Elite” no Festival de Berlim confirmou em nível europeu e mesmo mundial o fenômeno verificado no Brasil, onde o filme tinha sido visto em cópias piratas por mais de um milhão e meio de pessoas, antes mesmo de chegar às telas dos cinemas. Polêmico, repleto de cenas de extrema violência e considerado justificativa para o desrespeito sistemático aos direitos humanos na guerra da PM carioca contra o tráfico e a bandidagem, o filme agradou em cheio o público brasileiro, dividiu a crítica e torceu narizes intelectuais na Europa.

Longe de ser unanimidade no festival, o filme se impôs pelo tema através do qual a cidade do Rio de Janeiro é mais difundida no exterior: o retrato de uma sociedade impotente diante da violência urbana comandada por traficantes de drogas e de armas e que dispõe de uma elite policial mal equipada, mas baseada em rígidos padrões de hierarquia, onde a truculência substitui qualquer método científico ou inteligente de garantir a segurança dos cidadãos.

Sintomaticamente, “Tropa de Elite” inaugura o caminho a ser trilhado por outra produção de sucesso, “Meu nome não é Johnny”, biografia romanceada de um grande traficante de cocaína da Zona Sul do Rio, filho da melhor classe média ipanemense. Embora com um viés voltado mais para o humor do que para a violência, a narrativa é também um retrato da mesma sociedade vulnerável à ação impune do tráfico de drogas. De certa maneira, ambos os filmes, tidos como as duas principais bilheterias dos últimos meses, expõem uma realidade à qual a cidade do Rio de Janeiro já se acostumou, a julgar pela sua larga aceitação popular.

A premiação de um e a carreira ascendente de outro sugerem a discussão: está em alta uma cultura da violência no Rio e, por extensão, no país? A resposta da sociedade aos dois filmes pode revelar uma forma de protesto silencioso contra a realidade violenta? Se produções deste tipo se tornarem o grande apelo popular, corremos o risco de viver uma época de pornochanchada da violência? Quais os reflexos positivos e negativos de produções deste tipo para a imagem do Brasil?

Outros fatos, aparentemente sem qualquer vinculação com os dois filmes, mas que se inserem no cenário mais abrangente do cotidiano brasileiro, são a revolta dos policiais militares por melhores salários no Rio de Janeiro, a denúncia de esquadrões da morte integrados por PMs e a execução a sangue-frio do coronel José Hermínio Rodrigues em São Paulo, quando investigava grupos de extermínio integrados por seus comandados. Como se ligam esses acontecimentos com os relatados nos filmes em questão, sobretudo “Tropa de Elite”?

Até onde vai a realidade e onde começa a ficção nas telas, nas ruas e nas favelas brasileiras?

Arquivado em: Cultura I

1 Comentário »

  1. Comentário por Lúcio de Brito Castelo Branco — 20 20UTC fevereiro 20UTC 2008 (11:31)

    Excelente análise crítica, à altura do querido amigo!
    lúcio

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