19
de
fevereiro
Tempus fugit

Tanta tecnologia obsoleta, barata, enche a vida de informação repetitiva e contraditória, paradoxo da inclusão digital na senzala, invasão da fazenda multinacional. Tantos relógios impedem de chegar na hora certa, estou sempre atrasado ou adiante – na cabeceira são onze e quinze, no pulso onze e dezoito, na parede da cozinha hora do almoço, no painel do carro hora do rush, no relógio de luz a hora da morte, no biológico hora de viver.
Tantos números e ponteiros não adiantam na vida atemporal, nem marcam mais o compasso cadenciado do pulsar dos corações. Horas são pontos inalcançáveis no universo, minutos séculos, a velocidade está em milésimos de segundos numa pressa inconcebível. Meninas são mães aos dez, meninos mortos aos quinze no pé do tráfico, bebês nascem de olhos arregalados…um míssil corta a manhã ao meio, uma manga madura despenca do galho, se esborracha no chão.

