Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

1

de
março

Cultura e política

 

Marco Aurélio, um dos 12 césares, foi imperador em Roma de 161 a 180 da era cristã. Seu homônimo contemporâneo preside o Tribunal Superior Eleitoral e de vez em quando dá uma de imperador, como nas declarações sobre a inconveniência de o Executivo lançar programas sociais em ano eleitoral, a propósito do recente “Territórios da Cidadania”. Lula respondeu na bucha com o argumento de que ministro de tribunal superior deve cuidar dos assuntos do Judiciário e deixar o Executivo em paz. Se quiser se meter em política, candidate-se e se eleja a um cargo no Legislativo.

O ministro não gostou, claro. Ele é do tipo que tem opinião formada sobre tudo, ao contrário da metamorfose ambulante instalada no quarto andar do Planalto. Também contrariamente a Lula, é um tipo instruído e culto, de linguajar refinado, capaz de expressões como “enquanto eu tiver a toga sobre os ombros”, ao passo que o presidente da República sempre esteve do lado oposto ao da bancada do juiz, nem sempre como inocente, é bom registrar. E sua expressão mais elaborada é “Nunca antes nesse país”.

Marco Aurélio Melo chegou à corte suprema pelas mãos do primo Fernando Collor de Melo, então presidente. Seu benfeitor também é homem de cultura e instrução acima da média, e certa vez chegou a responder em francês ao repórter em entrevista coletiva internacional, para estupefação geral da imprensa tapuia.

Logo mais, como gostam de escrever os diplomatas, Fernando Henrique Cardoso cometeria deselegância idêntica, discursando em francês para o então presidente Jacques Chirac, na inauguração do caminho rodoviário entre o Amapá e a Guiana francesa. Foi uma demonstração inolvidável não só para o governador anfitrião João Capiberibe, homem igualmente letrado e culto, mas para o minguado povo amapaense de pé diante do palanque onde também estava José Sarney, outro beletrista que também transita com facilidade pelo idioma de Balzac.

Esta sucessão de lembranças extemporâneas deve servir exclusivamente para comprovar a submissão da intelectualidade tupiniquim colonizada à cultura européia que julga superior e ante a qual dobra a espinha sem pejo e até com alguma singeleza caricatural. Sempre foi assim na história brasileira, os poderosos cevados na mais genuína elite escravagista se orgulham de ser recebidos em festivos salões do primeiro mundo e nutrem indisfarçável asco pelo conterrâneo, seja ele de São Paulo ou do Maranhão.

Não é de estranhar, portanto, a manifestação do ministro Marco Aurélio. Ele apenas repercute o pensamento anacrônico que sustenta a pior distribuição de renda do planeta, em pleno século 21. De fato, reações desse tipo refletem a preocupação das elites com os rumos enveredados de cinco anos para cá. “A continuarem esses programas a favor do povo, onde é que vamos parar?” devem estar perguntando-se, em francês, “évident”.

 

Marco Aurélio, com "a toga sobre os ombros".

Arquivado em: Cultura, Política I

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