Lula atribuiu seu torcicolo à alta dos juros ou ao “chocolate” que o Goiás aplicou no Corínthinas no meio da semana pela Copa do Brasil – ou ainda aos dois juntos. O economista Maílson da Nóbrega acha que ele tem razão, seja qual for a opção, porque em nenhuma delas podia ter feito algo para mudar o rumo da história. Verdade verdadeira, se bem que essa questão não tem a menor importância, comparada à intrigante indagação de Marisa Letícia, a “Galega”, segundo revelação do próprio maridão: “Como pode alguém que não tem pescoço ter dor no pescoço?” O general Castelo Branco, cearense de escol imune à forca e à guilhotina, mas não a acidente de avião, fazia piada consigo mesmo, contando aos amigos que Charles De Gaulle, na visita ao Brasil, presenteou-o com um cachecol.
Voltando às razões do torcicolo presidencial, quanto ao Timão despenca ladeira abaixo, em punição óbvia pela ligação com a máfia russa, e quanto à alta de meio ponto percentual na taxa básica de juros, acho que o Conselho de Política Monetária do Banco Central pode ter errado na dose, mas adota o remédio certo. O Financial Times, de Londres, disse que o mercado financeiro internacional tomou um susto com a elevação da Selic, esperava 0,25% e deu 0,5%. Isso é diferença lá na terra deles, onde os juros andam abaixo dos 5%, aqui passou de 11,25% para 11,75%.
Desemprego em queda, salários em alta, crédito barato…e nem é o governo que alardeia, é a imprensa inglesa, a partir do Financial Times, com repercussão na BBC Brasil. Na realidade, o governo, que poderia tirar algum proveito político do tripé virtuoso, está na difícil situação de aumentar os juros básicos em meio ponto percentual na tentativa de evitar a superação da inflação prevista para o ano, de 4,5%. Segundo o Banco Central, o aumento dos preços ao consumidor deve alcançar 4,66% neste ano. Não é alarmante, mas tampouco pode ser visto sem preocupação, num país onde inflação soa como praga bíblica há pelo menos quatro décadas.
A equação é complexa: como manter o crescimento econômico, as reformas do PAC, os incentivos à indústria, a formalização da economia e os programas sociais mais importantes para as classes menos favorecidas e, ao mesmo tempo, atender os interesses legítimos dos exportadores que tradicionalmente eram os principais responsáveis pelos índices positivos da nossa economia? E como controlar o consumo interno reprimido há tempos, quando o próprio governo promove a inclusão digital, a aquisição da casa própria, a ampliação do crédito, em nome da redução das desigualdades e de uma distribuição de riquezas menos cruel?
O aumento da taxa Selic para 11,75% ao ano está inserido na resposta a ambas as questões. Segundo o governo, é preciso frear o consumo aumentando um pouco o custo do dinheiro, para evitar o estouro da meta de inflação estipulada em 4,5% para este ano. O mercado internacional esperava que o Copom aumentasse os juros básicos em, no máximo, 0,25%, ainda segundo o jornal inglês FT. Esta previsão se baseia no bom momento vivido pela economia brasileira, que não foi afetada sequer pela crise hipotecária norte-americana que contaminou a economia mundial.
Parece que, vacinado contra as turbulências internas e externas, o Brasil preferiu adotar a postura mais conservadora, inibindo o consumo interno através do encarecimento do crédito, ao mesmo tempo que enfrenta o lobby da indústria de exportação, cujos resultados minguam à medida que o dólar desce a patamares inéditos desde 1999.