Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

28

de
abril

Exploração midiática

A pesquisa CNT/Sensus foi contratada pela Confederação Nacional dos Transportes anos atrás para dar visibilidade ao seu presidente, Clésio Andrade, na mídia nacional. Praticamente todo mês ele repercute índices aferidos pelo Sensus sobre o cenário político e garante precioso espaço, sobretudo nos jornais. Este mês, uma pergunta totalmente fora do espectro político provoca reflexões pela quase unanimidade da resposta: 98,2% das pessoas ouvidas têm conhecimento do assassinato da menina Isabella Nardoni.

 

 
A morte de Isabella virou espetáculo.
  

 

Entre a maioria dos entrevistados que acompanham o caso, diz a Folha de S. Paulo, 71,8% consideram que a mídia tem acompanhado "adequadamente" os fatos relacionados à morte de Isabella, com "competência" na divulgação das informações. Outros 24,3% pensam o contrário, enquanto 3,9% dos ouvidos pela pesquisa não quiseram opinar.

Entre a maioria dos entrevistados que acompanha o caso, 71,8% consideram que a mídia tem acompanhado "adequadamente" os fatos relacionados à morte de Isabella, com "competência" na divulgação das informações. Outros 24,3% pensam o contrário, enquanto 3,9% dos ouvidos pela pesquisa não quiseram opinar.

E tem gente que ainda não sabe por que a imprensa se dedica ao caso com tanto empenho.

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28

de
abril

Vox populi

O desempenho pessoal de Lula alcançou 69,3% em abril, pela pesquisa CNT/Sensus, contra os já altos 66,8% registrados em fevereiro. "Esse resultado é o melhor desde janeiro de 2004, ficando atrás somente dos índices de popularidade do primeiro ano de governo", diz o Estadão, talvez o diário mais conservador do país. E tem mais: metade das pessoas ouvidas quer o terceiro mandato presidencial, apesar de o próprio Lula negar a pretensão.

É um fenômeno que merece a análise de cientistas políticos e demais estudiosos, já que a maior parte dos países que viveram sob ditaduras militares sem eleições a partir dos anos 1950 hoje vivem democracias formais com reeleição do presidente. Venezuela e Brasil poderão ser os primeiros a estenderem esse instituto a mais de dois mandatos consecutivos. Afinal, não é a vontade popular que deve ser atendida na eleição?

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24

de
abril

Os pindaíbas que se cuidem

A preocupação com o general está no rosto deles.

Acesse o Google, digite Artur Virgílio e clique na busca. Aparecerão vários sites, a quase totalidade contra o senador amazonense. Acusam-no de desvio de verba da educação quando prefeito de Manaus, no governo Itamar Franco, até atuação decisiva, mais recentemente, na CPI da Exploração Infantil, para livrar a cara de amigos envolvidos em denúncias escabrosas. Este mesmo Artur Virgílio quer levar o general Augusto Heleno a depor no Senado sobre a política indigenista do governo, o que não lhe diz respeito, absolutamente.

Antes de mais nada, é bom lembrar que o general integra as forças armadas deste governo, e deve obediência ao chefe supremo da nação, segundo os princípios de disciplina e hierarquia rigidamente estabelecidos em seu regimento interno. Militar não pode fazer greve, não pode reclamar aumento de soldo, nem fazer passeata ou dar entrevistas sem autorização superior. Para driblar este cerco, criou-se o movimento das mulheres de militares, que chegou a bater panelas nas ruas em protesto contra os vencimentos dos maridos. Muito justo e legítimo.

Não faz muito tempo, no Rio de Janeiro, o comandante da Polícia Militar foi sumariamente afastado por criticar o combate à criminalidade no estado. Ensaiou-se uma reação, mas a decisão do governador prevaleceu em nome da disciplina e da hierarquia. Por que haveria de ser diferente com o general Augusto Heleno? A ação do senador Artur Virgílio esconde um quê de lacerdismo anacrônico, um desejo óbvio de espalhar a discórdia, contrapor o presidente da República ao exército, em repetição a um viés tão antigo quanto prejudicial à institucionalização da democracia no país.

O general é comandante militar da Amazônia e, nessa condição por si mesma já difícil, graças ao narcotráfico internacional, às Farc e outros problemas, deveria abster-se de falar sobre a política indigenista, fora da sua alçada. Menos ainda deveria declarar à imprensa que ela é “lamentável, para não dizer caótica”. Como lhe faltam credenciais para tal julgamento, o general corre o risco de seu comando merecer os mesmos adjetivos vindos de um sertanista ou cacique.

O sertanista Sidney Possuelo, ex-presidente da Funai, julga que a discussão em torno da demarcação da reserva Raposa-Serra do Sol, em Roraima, significa apenas a reação do conservadorismo a mais uma ação que beneficia grupos indígenas. Não tenho dados suficientes para formar opinião, mas minha intuição diz que sertanista sabe mais dessa questão do que general. Acho mesmo que o senador Artur Virgílio poderia convidar também Sidney Possuelo para falar no Senado, quem sabe na mesma reunião do general Augusto Heleno. Pelo menos disfarçaria um pouco sua intenção golpista e forneceria a suas excelências a rara oportunidade de ouvir alguém do ramo sobre assunto tão sério.

E já que está na moda revirar arquivos em investigações legislativas, vale lembrar também que a demarcação da reserva Raposa-Serra do Sol se deu no governo Fernando Henrique Cardoso, oráculo do partido que Artur Virgílio defende com muito lustro, mas menos empenho que dedica a atacar o presidente da República no cenário político. Desde FHC a discussão se arrasta pelos gabinetes do Ministério da Justiça, sem que general algum metesse a colher, até agora, é claro. O que Artur Virgílio quer é desestabilizar a democracia, derrubar o governo e instalar uma nova ditadura militar. Os índios que se danem, inclusive e principalmente nós.

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18

de
abril

No caminho certo

Lula atribuiu seu torcicolo à alta dos juros ou ao “chocolate” que o Goiás aplicou no Corínthinas no meio da semana pela Copa do Brasil – ou ainda aos dois juntos. O economista Maílson da Nóbrega acha que ele tem razão, seja qual for a opção, porque em nenhuma delas podia ter feito algo para mudar o rumo da história. Verdade verdadeira, se bem que essa questão não tem a menor importância, comparada à intrigante indagação de Marisa Letícia, a “Galega”, segundo revelação do próprio maridão: “Como pode alguém que não tem pescoço ter dor no pescoço?” O general Castelo Branco, cearense de escol imune à forca e à guilhotina, mas não a acidente de avião, fazia piada consigo mesmo, contando aos amigos que Charles De Gaulle, na visita ao Brasil, presenteou-o com um cachecol.

Voltando às razões do torcicolo presidencial, quanto ao Timão despenca ladeira abaixo, em punição óbvia pela ligação com a máfia russa, e quanto à alta de meio ponto percentual na taxa básica de juros, acho que o Conselho de Política Monetária do Banco Central pode ter errado na dose, mas adota o remédio certo. O Financial Times, de Londres, disse que o mercado financeiro internacional tomou um susto com a elevação da Selic, esperava 0,25% e deu 0,5%. Isso é diferença lá na terra deles, onde os juros andam abaixo dos 5%, aqui passou de 11,25% para 11,75%.

Desemprego em queda, salários em alta, crédito barato…e nem é o governo que alardeia, é a imprensa inglesa, a partir do Financial Times, com repercussão na BBC Brasil. Na realidade, o governo, que poderia tirar algum proveito político do tripé virtuoso, está na difícil situação de aumentar os juros básicos em meio ponto percentual na tentativa de evitar a superação da inflação prevista para o ano, de 4,5%. Segundo o Banco Central, o aumento dos preços ao consumidor deve alcançar 4,66% neste ano. Não é alarmante, mas tampouco pode ser visto sem preocupação, num país onde inflação soa como praga bíblica há pelo menos quatro décadas.

A equação é complexa: como manter o crescimento econômico, as reformas do PAC, os incentivos à indústria, a formalização da economia e os programas sociais mais importantes para as classes menos favorecidas e, ao mesmo tempo, atender os interesses legítimos dos exportadores que tradicionalmente eram os principais responsáveis pelos índices positivos da nossa economia? E como controlar o consumo interno reprimido há tempos, quando o próprio governo promove a inclusão digital, a aquisição da casa própria, a ampliação do crédito, em nome da redução das desigualdades e de uma distribuição de riquezas menos cruel?

O aumento da taxa Selic para 11,75% ao ano está inserido na resposta a ambas as questões. Segundo o governo, é preciso frear o consumo aumentando um pouco o custo do dinheiro, para evitar o estouro da meta de inflação estipulada em 4,5% para este ano. O mercado internacional esperava que o Copom aumentasse os juros básicos em, no máximo, 0,25%, ainda segundo o jornal inglês FT. Esta previsão se baseia no bom momento vivido pela economia brasileira, que não foi afetada sequer pela crise hipotecária norte-americana que contaminou a economia mundial.

Parece que, vacinado contra as turbulências internas e externas, o Brasil preferiu adotar a postura mais conservadora, inibindo o consumo interno através do encarecimento do crédito, ao mesmo tempo que enfrenta o lobby da indústria de exportação, cujos resultados minguam à medida que o dólar desce a patamares inéditos desde 1999.

16

de
abril

Menas, menas…

 

 De laranja a orange em cinco anos.

 

Podem falar mal o quanto quiserem, mas o homem é craque, quando quer. Veja essa pérola: "Gostaram do ‘en passant’? Isso é para magoar aqueles que têm preconceito contra mim. Há uma evolução estupenda, gente. Quem falava ‘menas laranja’ e agora fala ‘en passant’…há uma evolução linguística extraordinária". A observação sobre si mesmo foi feita por Lula no discurso de saudação aos participantes da 11ª Marcha dos Prefeitos, quando empregou a expressão francesa equivalente ao nosso "de passagem".

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11

de
abril

De Roraima ao Tibete, via São Paulo

A obrigação de produzir uma coluna semanal é cruel, sobretudo na escassez de assunto digno reflexão. Jornais, revistas, rádio e televisão estão recheados de notícias, mas todas ostentam indisfarçável ar deja vu, certo ranço de “novidade antiga” a corroborar o que escreve o rei Salomão no livro de Eclesiastes, quando adverte que não há nada sob o sol de hoje que não tenha acontecido antes e não venha a acontecer no futuro. Vaidade de vaidades!

A morte da menina Isabela é pano de fundo para o desfile de vaidades na mídia sempre disposta a abrigar versões, tenham ou não fundamento, declarações sensacionalistas e frases de efeito duvidoso. É perceptível o empenho geral em culpar o pai da menina e bem fez o juiz ao determinar segredo de justiça na investigação, senão teríamos tanta (des)informação que com certeza até Marco Aurélio Mello já teria metido a sempre subida e honrada colher, Lula teria contestado e ter-se-ia (viva a mesóclise!) o circo armado no Congresso, a oposição esperneando, a base governista se defendendo.

A desocupação da reserva indígena Raposa-Serra do Sol, no extremo norte do país, é outra muvuca servindo de palco ao desfile de vaidades em toda parte, sobretudo aqui em Brasília, onde as sandices costumam encontrar condições de pressão e temperatura ideais para contaminar os incautos de costume. Muita gente desconhece o tamanho da reserva, a maior do mundo com seu 1,74 milhão de hectares. Alguém aí visualiza tal extensão de terra? A demarcação é antiga, acho que do tempo do José Lutzemberg, no governo Collor, mas só foi regulamentada em 2005, depois que Márcio Thomaz Bastos excluiu da área um município inteiro e mais instalações militares em Roraima. No total, são 15 mil índios de várias tribos e nações, o que dá 116 hectares para cada filho da terra em que se plantando tudo dá.


Outro ledo engano (e neste embarcamos todos os caraíbas) é o Tibete. Até 1949, quando Mao tomou o poder na revolução comunista, era um enclave religioso cuja população tinha 90% de analfabetos e quem não fosse monge budista ou era servo ou escravo, sem direito a cidadania nem propriedade nem coisa alguma. Não digo que o governo chinês representa a redenção do povo tibetano, mas devolvê-lo ao Dalai Lama é, sem dúvida, um retrocesso óbvio. E tem outra: os budistas não querem a independência, mas sim a autonomia do território, e o que se vê e se ouve mais entre os tapuias é a veemente defesa da independência, como se cada um de nós tivesse um primo tibetano.

À custa de tanta confusão em tão vário assunto, sinto-me na obrigação de escrever um pouco sobre alguma coisa, perfunctoriamente, pinçando às vezes um tema ao acaso, consultando os alfarrábios internéticos e cuidando para não escorregar no vernáculo, aliás cada vez mais agredido, nos dias que correm.

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9

de
abril

Ao pé da letra

          

 

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4

de
abril

Caravana da Anistia

O ministério da Justiça, a Associação Brasileira de Imprensa e a União Nacional dos Estudantes lançaram sexta-feira, dia 4, a Caravana da Anistia, que percorrerá o país resgatando a cidadania de muitas pessoas perseguidas durante os 20 anos de ditadura, contribuindo, assim, para a consolidação da democracia no país. Como bem definiu o ministro Tarso Genro na cerimônia na sede da ABI, no centro carioca, a anistia é o que falta, depois das eleições livres e da Constituição de 1988, para o Brasil assumir e saldar a dívida histórica com a geração de perseguidos, exilados, presos, torturados, mortos, desaparecidos e seus familiares, entre 1964 e 1985.

O termo “dívida” não comporta apenas a indenização econômica do Estado aos anistiados, mas sobretudo a dívida histórica, o reconhecimento de que anistia não é esquecimento nem perdão, não quer dizer que passamos a borracha nos crimes cometidos pelo Estado contra milhares e milhares de cidadãos e cidadãs, em nome do regime de exceção. Anistia é amadurecimento, é a admissão de responsabilidade e a reparação existencial das vítimas e de suas famílias. Essas pessoas, muitas das quais aguardam há décadas o reconhecimento do Estado, devem e irão andar de cabeça erguida na sociedade, com sua dignidade e sua cidadania resgatadas, finalmente.

O dinheiro, essa excrescência em nome da qual se cometem todos os pecados, não é recompensa pelo que os anistiados sofreram, física e psicologicamente, nos anos de repressão política: é a tradução possível dos danos e prejuízos materiais causados pelo obscurantismo. Não representa, ao contrário do que O Globo estampou na primeira página do próprio dia do lançamento da caravana de “bolsa-ditadura”. Aliás, se existiu algo digno desse nome foi durante da ditadura e beneficiou precisamente órgãos de comunicação como O Globo.

A Caravana da Anistia precisa ser saudada como passo significativo na conquista de cidadania, em especial nos rincões mais longínquos, onde ainda se prende, tortura e mata gente sem qualquer possibilidade de defesa. Estão de parabéns o ministro Tarso Genro, o presidente da Comissão de Anistia de seu ministério, Paulo Abrão, o colega Maurício Azêdo, à frente da ABI, e a jovem promissora presidente da UNE, Lúcia Stumpf. Bem sucedida a iniciativa, “os jornais terão vergonha de chamar a anistia de bolsa-ditadura”, como afirmou o ministro em seu discurso.

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