11
de
abril
De Roraima ao Tibete, via São Paulo
A obrigação de produzir uma coluna semanal é cruel, sobretudo na escassez de assunto digno reflexão. Jornais, revistas, rádio e televisão estão recheados de notícias, mas todas ostentam indisfarçável ar deja vu, certo ranço de “novidade antiga” a corroborar o que escreve o rei Salomão no livro de Eclesiastes, quando adverte que não há nada sob o sol de hoje que não tenha acontecido antes e não venha a acontecer no futuro. Vaidade de vaidades!
A morte da menina Isabela é pano de fundo para o desfile de vaidades na mídia sempre disposta a abrigar versões, tenham ou não fundamento, declarações sensacionalistas e frases de efeito duvidoso. É perceptível o empenho geral em culpar o pai da menina e bem fez o juiz ao determinar segredo de justiça na investigação, senão teríamos tanta (des)informação que com certeza até Marco Aurélio Mello já teria metido a sempre subida e honrada colher, Lula teria contestado e ter-se-ia (viva a mesóclise!) o circo armado no Congresso, a oposição esperneando, a base governista se defendendo.
A desocupação da reserva indígena Raposa-Serra do Sol, no extremo norte do país, é outra muvuca servindo de palco ao desfile de vaidades em toda parte, sobretudo aqui em Brasília, onde as sandices costumam encontrar condições de pressão e temperatura ideais para contaminar os incautos de costume. Muita gente desconhece o tamanho da reserva, a maior do mundo com seu 1,74 milhão de hectares. Alguém aí visualiza tal extensão de terra? A demarcação é antiga, acho que do tempo do José Lutzemberg, no governo Collor, mas só foi regulamentada em 2005, depois que Márcio Thomaz Bastos excluiu da área um município inteiro e mais instalações militares em Roraima. No total, são 15 mil índios de várias tribos e nações, o que dá 116 hectares para cada filho da terra em que se plantando tudo dá.
Outro ledo engano (e neste embarcamos todos os caraíbas) é o Tibete. Até 1949, quando Mao tomou o poder na revolução comunista, era um enclave religioso cuja população tinha 90% de analfabetos e quem não fosse monge budista ou era servo ou escravo, sem direito a cidadania nem propriedade nem coisa alguma. Não digo que o governo chinês representa a redenção do povo tibetano, mas devolvê-lo ao Dalai Lama é, sem dúvida, um retrocesso óbvio. E tem outra: os budistas não querem a independência, mas sim a autonomia do território, e o que se vê e se ouve mais entre os tapuias é a veemente defesa da independência, como se cada um de nós tivesse um primo tibetano.
À custa de tanta confusão em tão vário assunto, sinto-me na obrigação de escrever um pouco sobre alguma coisa, perfunctoriamente, pinçando às vezes um tema ao acaso, consultando os alfarrábios internéticos e cuidando para não escorregar no vernáculo, aliás cada vez mais agredido, nos dias que correm.

