24
de
abril
Os pindaíbas que se cuidem

A preocupação com o general está no rosto deles.
Acesse o Google, digite Artur Virgílio e clique na busca. Aparecerão vários sites, a quase totalidade contra o senador amazonense. Acusam-no de desvio de verba da educação quando prefeito de Manaus, no governo Itamar Franco, até atuação decisiva, mais recentemente, na CPI da Exploração Infantil, para livrar a cara de amigos envolvidos em denúncias escabrosas. Este mesmo Artur Virgílio quer levar o general Augusto Heleno a depor no Senado sobre a política indigenista do governo, o que não lhe diz respeito, absolutamente.
Antes de mais nada, é bom lembrar que o general integra as forças armadas deste governo, e deve obediência ao chefe supremo da nação, segundo os princípios de disciplina e hierarquia rigidamente estabelecidos em seu regimento interno. Militar não pode fazer greve, não pode reclamar aumento de soldo, nem fazer passeata ou dar entrevistas sem autorização superior. Para driblar este cerco, criou-se o movimento das mulheres de militares, que chegou a bater panelas nas ruas em protesto contra os vencimentos dos maridos. Muito justo e legítimo.
Não faz muito tempo, no Rio de Janeiro, o comandante da Polícia Militar foi sumariamente afastado por criticar o combate à criminalidade no estado. Ensaiou-se uma reação, mas a decisão do governador prevaleceu em nome da disciplina e da hierarquia. Por que haveria de ser diferente com o general Augusto Heleno? A ação do senador Artur Virgílio esconde um quê de lacerdismo anacrônico, um desejo óbvio de espalhar a discórdia, contrapor o presidente da República ao exército, em repetição a um viés tão antigo quanto prejudicial à institucionalização da democracia no país.
O general é comandante militar da Amazônia e, nessa condição por si mesma já difícil, graças ao narcotráfico internacional, às Farc e outros problemas, deveria abster-se de falar sobre a política indigenista, fora da sua alçada. Menos ainda deveria declarar à imprensa que ela é “lamentável, para não dizer caótica”. Como lhe faltam credenciais para tal julgamento, o general corre o risco de seu comando merecer os mesmos adjetivos vindos de um sertanista ou cacique.
O sertanista Sidney Possuelo, ex-presidente da Funai, julga que a discussão em torno da demarcação da reserva Raposa-Serra do Sol, em Roraima, significa apenas a reação do conservadorismo a mais uma ação que beneficia grupos indígenas. Não tenho dados suficientes para formar opinião, mas minha intuição diz que sertanista sabe mais dessa questão do que general. Acho mesmo que o senador Artur Virgílio poderia convidar também Sidney Possuelo para falar no Senado, quem sabe na mesma reunião do general Augusto Heleno. Pelo menos disfarçaria um pouco sua intenção golpista e forneceria a suas excelências a rara oportunidade de ouvir alguém do ramo sobre assunto tão sério.
E já que está na moda revirar arquivos em investigações legislativas, vale lembrar também que a demarcação da reserva Raposa-Serra do Sol se deu no governo Fernando Henrique Cardoso, oráculo do partido que Artur Virgílio defende com muito lustro, mas menos empenho que dedica a atacar o presidente da República no cenário político. Desde FHC a discussão se arrasta pelos gabinetes do Ministério da Justiça, sem que general algum metesse a colher, até agora, é claro. O que Artur Virgílio quer é desestabilizar a democracia, derrubar o governo e instalar uma nova ditadura militar. Os índios que se danem, inclusive e principalmente nós.

