Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

30

de
maio

Hiléia Amazônica

                     

Gente, vamos falar sério: um assessor sueco do primeiro ministro inglês fez as contas na calculadora de bolso e chegou ao valor de US$ 50 bilhões para a Amazônia. É isso mesmo, um nórdico que trabalha com uma ONG suspeita de mil sacanagens na Amazônia fez o levantamento de hectare mais caro e hectare mais barato e bateu o martelo. Dos 50 bi, a maior parte seria nossa, mas sobraria para os parceiros amazônicos Colômbia, Venezuela e Peru. O princípio é o mesmo formulado pelo Al Gore, o verdão que foi vice do Clinton. Na campanha eleitoral em que perdeu para o Bush, ele disse mais ou menos o seguinte: “A Amazônia não pertence aos brasileiros, como eles pensam, ela é de todo o mundo”. Esse cara é incensado no mundo dito desenvolvido por tiradas como essa.

A declaração de Al Gore foi lembrada com insistência agorinha mesmo, quando Marina Silva deixou o Meio Ambiente e assanhou a cobiça mundial sobre o pedaço mais nobre do território nacional. O The New York Times, que reimprimiu a declaração numa matéria especulativa sobre a capacidade dos sul-americanos administrarem o “pulmão do mundo”, assim como o Financial Times de Londres, duvida da nossa aptidão para preservar a região, e com razão, já que as madeireiras asiáticas metem a motossera sem cerimônia na Amazônia. Também as ONGs britânicas e norte-americanas agem com desenvoltura há décadas na região, alheias à legislação brasileira e à soberania nacional.

Não há por que a gente se espantar com estas investidas. Nos idos de 1947 e 48 chegou à Câmara dos Deputados a denúncia da iminente internacionalização da Amazônia, a partir da criação de um certo Instituto Hiléia Amazônica, o que provocou a imediata e indignada reação dos parlamentares, à frente o ex-Presidente da República Arthur Bernardes, eleito deputado em 1945, na redemocratização do País depois da ditadura do Estado Novo.

A nota insólita do caso – que aumentou sobremaneira a indignação nacional – foi a forma como ele veio à cena política brasileira: em Washington, um diplomata italiano procurou o adido militar da nossa embaixada nos Estados Unidos, general Floriano Lima Brayner, para saber qual pedaço da Amazônia caberia a seu país, na divisão a ser executada pelo instituto. A consulta ganhou ares de escândalo fartamente explorado pela imprensa apaixonada e sensacionalista daquele tempo em que a Segunda Guerra era memória viva e a ditadura Vargas recém-extinta ainda desfilava personalidades de destaque no cenário político.

Como agora, naquele tempo já se falava abertamente da internacionalização da Amazônia, e despertava-se a indignação nacional. É idéia antiga, que vem à tona de vez em quando, lembrando a história de lambuzar o selo pra ver se cola. Uma hora cola, a não ser que algum governo encare pra valer os interesses estrangeiros que já estão por lá explorando a flora com fins medicinais, cooptando índios com o olho nas riquezas minerais e até os que estão lá preocupados de verdade com a preservação do meio ambiente.

16

de
maio

Títulos e manchetes

Difícil tarefa é batizar programa, de rádio ou de televisão. Escolher, inventar um nome ao mesmo tempo atraente, com conteúdo, original, ou mesmo sendo cópia, que seja bem aproveitada. Passei por várias oportunidades em quase 40 anos de jornalismo. Na realidade, tudo começou com títulos, às vezes de reportagens, às vezes de publicações.

Um dos títulos mais expressivos da minha carreira de editor do segundo caderno do Correio da Manhã, no começo dos 70, foi para a reportagem sobre o trem que percorria um itinerário miserável, transportando passageiros miseráveis de uma estação miserável para outras também miseráveis: “A viagem da pobreza e da fome”. Daquela mesma época foi a manchete de jornal “Matou a família e foi ao cinema”, inspiradora do filme de Júlio Bressane e da refilmagem de Neville de Almeida. Meu título não teve a mesma sorte, mas está até hoje à disposição de cineastas e videomakers.

Outra manchete de jornal popular, se não me engano da Luta Democrática carioca, foi a obra-prima do editor cujo nome me escapa, que mandou o repórter à favela acompanhar a captura de um perigoso marginal da época, acho que meados dos 50. Frustrada a operação, ele voltou à redação sem a notícia. O editor, que havia reservado espaço na primeira página para a manchete e a chamada principal, além de outro na página três, fez o repórter contar tudo o que havia visto no morro.

Papo vai, papo vem, o rapaz disse que o único fato fora da rotina da favela tinha sido a morte de uma prostituta doente havia algum tempo, conhecida por “Lamparina”. Os olhos do editor se arregalaram: “E a que horas foi isso?” “Ah, lá pelas cinco, quase de manhã”, disse o repórter. O editor escreveu toda a história da prostituta, sua doença, a desgraça e a solidão na favela, um texto de cortar coração de carcereiro. E tascou a manchete “Lamparina apaga ao amanhecer”. Estava salva a edição, que chegou às ruas lá pelas dez da manhã, como era costume dos vespertinos de então.

Nos anos áureos da ditadura militar, juntei uns colegas e amigos e criamos o jornal Repórter, no Rio de Janeiro, que me rendeu processos na Lei de Segurança Nacional, vigilância da Polícia Federal, idas à segunda auditoria do exército e não fosse a anistia de 1979 teria me levado à cadeia. Foi um título bom e oportuno que marcou meu coração para sempre. Neste jornal mensal, Octávio Ribeiro, o “Pena Branca”, inspirado repórter policial, publicou a entrevista exclusiva com a “loura da metralhadora”, à ápoca recém-libertada do presídio feminino.

Sua história era tocante. Namorada de bandido, envolveu-se em assaltos a bancos munida de uma metralhadora que mal sabia empunhar. Era uma época em que grupos armados de esquerda promoviam “expropriações” através de assaltos a agências, sobretudo no Rio e em São Paulo, à razão de seis ou sete por dia. Assalto a banco virou crime contra a segurança nacional e a bela loura, quando foi presa, entrou na LSN, foi torturada e confinada entre criminosas da pior espécie.

A foto escolhida para a capa da edição mostrava a loura quase de corpo inteiro, linda, de jeans brancos, meio de perfil, barriguinha de fora, camisa amarrada sob os seios, encarando a lente do fotógrafo (Chiquito Chaves ou Custódio Coimbra). À direita do corpo recortado com cuidado, de alto a baixo, seguindo a silhueta, a manchete: “Loura nua no pau de arara conta tudo e vira lésbica”. O Repórter esgotou em três dias. E para quem pensa que a manchete foi politicamente incorreta, lembro outra do final dos anos 60, se não me trai a lembrança do O Dia sanguinolento daquele tempo: “Assassinaram o branco azedo”.

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7

de
maio

Retaguarda do atraso

  A ministra deu uma lição no senador.

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O senador José Agripino Maia tinha a obrigação de saber e sua ignorância forjada propiciou um momento de emoção no depoimento da ministra Dilma Rousseff no Senado, na quarta-feira passada. Lídimo representante da elite potiguar, nordestina e brasileira, ele lembrou a declaração da ministra de que mentiu muito durante os anos 1960/70. Seu propósito óbvio era desqualificar as palavras de Dilma, partindo do pressuposto de que cesteiro que faz um cesto, faz um cento, e que se ela mentiu no passado pode muito bem fazê-lo hoje.

Dilma mentiu no pau-de-arara, debaixo de choques, para livrar companheiros de luta do martírio pelo qual passava, o que conseguiu. Disse isso, quase com as mesmas palavras, a um José Agripino Maia com cara de paisagem. Foi aplaudida na sala da comissão e ainda frisou que estiveram em lados opostos durante a ditadura militar, ou seja, enquanto seu grupo empreendia luta armada contra a ditadura, ele era um dos seus diletos filhotes. Assim como Fernando Collor, exemplo-mor da espécie.

Agripino foi nomeado prefeito de Natal pela ditadura em 1979. Todas as capitais, mais os municípios de fronteira e outros estratégicos (como Volta Redonda) eram “área de segurança nacional”, e só voltariam a eleger seus prefeitos em 1985, na chamada Nova República de Tancredo, que acabou no PFL de Sarney, logo rotulado de “vanguarda do atraso” pelo ministro da Justiça Fernando Lyra, de passagem meteórica pelo governo.

Em 1982, nas primeiras eleições diretas para governador depois de 1965, o PDS emplacou José Agripino nas urnas do Rio Grande do Norte. Dois anos depois, pressentindo o fim do ciclo militar, ele se rebelou e engrossou a eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral – designação de ocasião para um Congresso que legitimou a exceção elegendo todos os generais desde o golpe de 64. A redemocratização, palavra de ordem de então, começava na nomenclatura, na maquiagem.

José Agripino se elegeu senador em 1987 e voltou ao governo do seu estado em 1990, para voltar ao Senado em 1994. Ali, como sabemos, o equilíbrio de forças favorece o conservadorismo, a partir da bancada do Norte/Nordeste. José Agripino é o tipo de político profissional, patrimonialista por princípio familiar, daquele que compra voto e intimida opositor com rara desenvoltura. Tem mão macia de contar dinheiro e é devoto de Santo Antônio Carlos Magalhães.

Este tipo de político é capaz das vilanias como a que cometeu no depoimento de Dilma no Senado, diz que não houve ditadura alguma no país e ainda acusa os guerrilheiros de terem torturado e matado militares à queima-roupa. O pior de tudo é que essa gente se perpetua nas instituições das quais se assenhorearam desde a vinda de D. João VI para cá, 200 anos atrás.

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