16
de
maio
Títulos e manchetes
Difícil tarefa é batizar programa, de rádio ou de televisão. Escolher, inventar um nome ao mesmo tempo atraente, com conteúdo, original, ou mesmo sendo cópia, que seja bem aproveitada. Passei por várias oportunidades em quase 40 anos de jornalismo. Na realidade, tudo começou com títulos, às vezes de reportagens, às vezes de publicações.
Um dos títulos mais expressivos da minha carreira de editor do segundo caderno do Correio da Manhã, no começo dos 70, foi para a reportagem sobre o trem que percorria um itinerário miserável, transportando passageiros miseráveis de uma estação miserável para outras também miseráveis: “A viagem da pobreza e da fome”. Daquela mesma época foi a manchete de jornal “Matou a família e foi ao cinema”, inspiradora do filme de Júlio Bressane e da refilmagem de Neville de Almeida. Meu título não teve a mesma sorte, mas está até hoje à disposição de cineastas e videomakers.
Outra manchete de jornal popular, se não me engano da Luta Democrática carioca, foi a obra-prima do editor cujo nome me escapa, que mandou o repórter à favela acompanhar a captura de um perigoso marginal da época, acho que meados dos 50. Frustrada a operação, ele voltou à redação sem a notícia. O editor, que havia reservado espaço na primeira página para a manchete e a chamada principal, além de outro na página três, fez o repórter contar tudo o que havia visto no morro.
Papo vai, papo vem, o rapaz disse que o único fato fora da rotina da favela tinha sido a morte de uma prostituta doente havia algum tempo, conhecida por “Lamparina”. Os olhos do editor se arregalaram: “E a que horas foi isso?” “Ah, lá pelas cinco, quase de manhã”, disse o repórter. O editor escreveu toda a história da prostituta, sua doença, a desgraça e a solidão na favela, um texto de cortar coração de carcereiro. E tascou a manchete “Lamparina apaga ao amanhecer”. Estava salva a edição, que chegou às ruas lá pelas dez da manhã, como era costume dos vespertinos de então.
Nos anos áureos da ditadura militar, juntei uns colegas e amigos e criamos o jornal Repórter, no Rio de Janeiro, que me rendeu processos na Lei de Segurança Nacional, vigilância da Polícia Federal, idas à segunda auditoria do exército e não fosse a anistia de 1979 teria me levado à cadeia. Foi um título bom e oportuno que marcou meu coração para sempre. Neste jornal mensal, Octávio Ribeiro, o “Pena Branca”, inspirado repórter policial, publicou a entrevista exclusiva com a “loura da metralhadora”, à ápoca recém-libertada do presídio feminino.
Sua história era tocante. Namorada de bandido, envolveu-se em assaltos a bancos munida de uma metralhadora que mal sabia empunhar. Era uma época em que grupos armados de esquerda promoviam “expropriações” através de assaltos a agências, sobretudo no Rio e em São Paulo, à razão de seis ou sete por dia. Assalto a banco virou crime contra a segurança nacional e a bela loura, quando foi presa, entrou na LSN, foi torturada e confinada entre criminosas da pior espécie.
A foto escolhida para a capa da edição mostrava a loura quase de corpo inteiro, linda, de jeans brancos, meio de perfil, barriguinha de fora, camisa amarrada sob os seios, encarando a lente do fotógrafo (Chiquito Chaves ou Custódio Coimbra). À direita do corpo recortado com cuidado, de alto a baixo, seguindo a silhueta, a manchete: “Loura nua no pau de arara conta tudo e vira lésbica”. O Repórter esgotou em três dias. E para quem pensa que a manchete foi politicamente incorreta, lembro outra do final dos anos 60, se não me trai a lembrança do O Dia sanguinolento daquele tempo: “Assassinaram o branco azedo”.

