Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

30

de
junho

Polícia, cadeia, penas…

Estarão os Metralhas com os dias contados?

Depois de sete anos e meio de tramitação na Câmara dos Deputados e no Senado, as alterações que visam dar mais agilidade à Justiça ao Código de Processo Penal foram aprovadas, afinal, neste mês de junho. A origem dessas propostas foi o estudo dirigido pela professora Ada Pellegrini Grinover ainda durante o governo Fernando Henrique Cardoso e que resultou em oito projetos de lei encaminhados à Câmara em janeiro de 2001.

O Código de Processo Penal , ou Decreto-Lei 3689/41, data de 1941 e, salvo eventuais alterações modernizadoras, tem base numa sociedade que sofreu profundas transformações em suas relações nos últimos 67 anos. A exemplo do Código de Processo Civil, que datava das primeiras décadas do século passado e passou por um aggiornamento semelhante em 1973 (e nos anos seguintes, até a mini-reforma de 2006), também o CPP carecia de revisão de conceitos e procedimentos para fazer face à realidade contemporânea.

As mudanças propostas e aprovadas pelos parlamentares, embora digam respeito à vida de todos os brasileiros e estrangeiros às voltas com a lei brasileiras, são determinadas agora por razões de Estado, mais do que por razões de cidadania – ainda que este seja um ponto controverso. Reduzir de três para uma única audiência é agilizar o Judiciário ou restringir o amplo direito de defesa? E extinguir a possibilidade de segundo julgamento para réus condenados a mais de 20 anos?

O instituto da defesa prévia do réu poderá ensejar a impunidade? E os desvios de conduta no Poder Judiciário serão mais facilmente inibidos? Enfim, quais as conseqüências imediatas para juízes, advogados, promotores e sobretudo réus?

Outras alterações merecem pelo menos o registro: a redução da idade mínima dos jurados de 21 para 18 anos. Será que nesta tenra idade o cidadão será capaz de fazer juízo equilibrado? Duvido. Outra: juiz que aceitar prova ilícita tem de abandonar o caso na hora. Neste caso estão confissões sob tortura, escutas telefônicas sem autorização, invasão de propriedade sem mandado de busca e apreensão y otras cositas más.

Mais uma: absolvição imediata do réu na primeira audiência, quando a denúncia for inconsistente e ele apresentar defesa prévia convincente. É uma faca de dois gumes, porque pode livrar tanto o inocente quanto o culpado, desde que assistidos por bons advogados. E ainda: redução da sustentação oral de cada parte de duas horas e meia para uma hora e meia, no julgamento. Outra: menos burocracia no sequestro de bens dos réus condenados, que é onde dói mais a pena, no bolso.

Finalmente, admite-se o uso de pulseiras e tornozeleiras nos casos de liberdade condicional, que nem nos filmes americanos. Pessoalmente, acho uma boa, mas receio que a tecnologia se curve, uma vez mais, ao subdesenvolvimento tupiniquim.

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18

de
junho

Corrupção eleitoral

                                                 

Se existe uma unanimidade nacional é ser contra a corrupção. Não se ouve uma voz em defesa deste mal enraizado na vida brasileira desde os tempos imemoriais da colonização, muito embora corromper e ser corrompido figurem entre os “esportes favoritos” na rotina político-administrativa do país. A tal ponto que existe até um Movimento Contra a Corrupção Eleitoral, entre muitos outros organismos independentes na luta pela moralização.

O MCCE, formado por dezenas de entidades, associações e organizações, está empenhado desde abril na coleta de assinaturas de cidadãos em todo o Brasil com o objetivo de apresentar Projeto de Lei de iniciativa popular proibindo candidaturas de pessoas condenadas em primeira ou única instância, ou que tiverem contra si denúncia recebida por órgão judicial colegiado pela prática de crime, ou que renunciarem a seus mandatos para não serem cassados, ou ainda que tenham sido condenadas por representações por compra de votos ou uso eleitoral da máquina administrativa.

Como se depreende da lista de delitos e procedimentos escusos, a iniciativa do Movimento se baseia na realidade traduzida na imprensa, nos tribunais e nas representações legislativas em todos os níveis. É uma luta difícil, porque serão necessárias 1 milhão 300 mil adesões para legitimar o Projeto de Lei e, depois, enfrentar a indiferença e a oposição à idéia. Afinal, fosse simples, a iniciativa nasceria no próprio Legislativo – mas é justamente lá onde se escondem seus principais alvos.

O Projeto de Lei está nas mãos do presidente do TSE, ministro Carlos Ayres de Britto, desde a última segunda-feira, e somente depois da coleta das assinaturas exigidas por lei seguirá para o Congresso Nacional. São etapas completamente distintas da guerra, uma batalha junto à sociedade, outra dentro do Legislativo, onde o corporativismo costuma falar mais alto, abafando o clamor popular.

Depois de muito refletir, o Tribunal Superior Eleitoral achou por bem permitir, no último dia 10, a inscrição de candidatos em situação suspeita ou mesmo ilegal, sob a alegação de que os partidos políticos são os responsáveis pelas candidaturas e seus titulares. Ocorre que o cidadão rouba a não mais poder, financia candidaturas e nas eleições seguintes candidata-se ele próprio, com o apoio e a gratidão dos que financiou. Assim gira o mundo e torna-se impossível reverter a situação, seja nos partidos, seja nas assembléias legislativas e no Legislativo federal.

Enquanto não vier o financiamento público, dentro da reforma política mais abrangente, com voto distrital misto, fidelidade partidária onde o mandato pertença ao partido, enfim, enquanto não mudarem as regras pra valer, continuaremos subscrevendo projetos de iniciativa popular que poderão até mudar alguma coisa, mas apenas para que tudo continue como está.

12

de
junho

Os donos da terra

Plantações de soja atraem cada vez mais estrangeiros

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Pesquisa inédita do Incra revela que estrangeiros são donos de terras em todos os estados brasileiros, inclusive no Distrito Federal. No total, são 3 milhões e 800 mil hectares, destacando-se Mato Grosso com 754.705,4 ha em 1.377 propriedades rurais, São Paulo com 504.742,8 ha em 11.424 propriedades e Mato Grosso do Sul com 423.148,1 ha em 749 propriedades. Seguem-se, em extensão de terras em mãos estrangeiras, Bahia, Minas, Paraná e Goiás, antes de chegar à Amazônia tão discutida hoje em dia.

Plantações de soja, cana-de-açúcar e eucalipto são as que mais atraem compradores, sobretudo no Nordeste e no Centro-Oeste. Produtores endividados vendem a terra a preços acessíveis a investidores de EUA, França, Japão, Alemanha, Holanda, Bélgica, Itália, Inglaterra, México, Noruega e Chile. Mas há empresas de países com economia mais fraca que a nossa, como a argentina El Tejar, que chegou seis anos atrás ao Mato Grosso com a Telhar Agropecuária, plantando milho e soja em 35 mil hectares, e não pára de crescer.

Outra faixa preferencial do território brasileiro cobiçada por estrangeiros é o litoral nordestino, onde empresas e pessoas físicas disputam o mercado turístico. É aí onde mora o perigo, segundo o ex-secretário do Meio Ambiente do Amazonas, Virgílio Viana: “Você sai de uma praia e entra em outra controlada por gringos, quilômetros e quilômetros. Em termos de presença estrangeira, é muito mais grave (que a situação amazônica)”.

Adquiridas por empresas ou cidadãos estrangeiros, estas terras parecem comprovar o fracasso da reforma agrária brasileira e a tese do ongueiro sueco para quem a Amazônia pode ser comprada por US$ 50 bilhões. Na origem de ambas as hipóteses, esconde-se a falta de política de Estado para promover a justa distribuição da terra e criar mecanismos legais de defesa do seu território.

Na América Latina, nossos vizinhos Peru, Bolívia e Paraguai, além do México e Panamá, proíbem a compra de terras por estrangeiros na faixa de fronteira. Outros países impõem algumas restrições, mas Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e Uruguai recebem todos de braços abertos. O Uruguai, por sinal, prepara nova legislação para barrar a invasão de argentinos e brasileiros sobre seu pequeno território.

O fenômeno é mundial. A queda do dólar atrai europeus e japoneses a investir em terras produtivas ou de lazer nos Estados Unidos. Há uma lei federal um pouco restritiva e algumas estaduais que buscam restringir investidas estrangeiras, mas não há proibição legal nem em faixas de fronteira. Na realidade, trata-se de mais um filhote da globalização da economia que chama agora a atenção de todos, em função da produção de alimentos e de energia limpa em escala mundial. Comida e combustível estão mais uma vez na raiz da discussão, mas turismo e lazer surgem também como ingredientes de peso.

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