3
de
julho
Desvio de função
A promotora de justiça responsável por Fernandinho Beira-Mar estar atrás das grades tem um filho que recebe proteção pessoal de um policial da PM aonde for, inclusive à boate de madrugada. A promotora alega que o bandido a jurou de morte e que sua família é prisioneira da paranóia da segurança há anos. Uma paranóia muito maior e palpável do que a dos demais cidadãos do Rio de Janeiro.
O filho da promotora, quase um adolescente, tem os movimentos tolhidos pela incômoda segurança pessoal. Não consegue namorar sossegado, imagino, com o guarda-costas de pé à entrada do quarto. Não pode cometer as pequenas e médias transgressões comuns à adolescência, como fumar um baseadinho na praia. Aliás, nem deve ir à praia, sabidamente local perigoso onde ocorrem arrastões a céu aberto.
O PM a serviço do rapaz tem comportamento pacato, segundo a promotora. Nunca deu um tiro, até que matou um freqüentador de boate que se desentendeu com seu protegido. Atirou de curta distância, curtíssima, a julgar pelo laudo pericial. Alegou que o morto e seus amigos provocaram uma briga com o filho da promotora, obrigando-o a sacar a arama e atirar para o alto.
Aí entra a carochinha, das histórias fantasiosas. Ao ver que estava armado, alguém gritou “Vamos tirar a arma dele!” e, ameaçado, o PM se defendeu apontando-a para as pessoas, quando teria ocorrido o disparo fatal. Está armado o imbroglio. O PM está detido, o filho da promotora está na berlinda e ela própria não está muito bem na foto, porque não é a primeira vez que seu pimpolho se mete em confusão à saída de uma boate.
Nós, meros espectadores deste circo dos horrores em que se transformou a vida nas grandes cidades brasileiras, aguardamos a apuração da verdade com algumas pulgas atrás da orelha. Por exemplo: se Fernandinho Beira-Mar quer matar a promotora por que não fez o serviço sujo até agora? E se o narcotráfico carioca quiser eliminar o filho da promotora, um PM sozinho impedirá?
Há anos o governo do Estado do Rio paga pelo menos um policial militar para acompanhar o filho de uma promotora ameaçada pelo provável maior traficante do país. Em todos esses anos, não se verificou nenhum atentado contra a promotora ou contra seu filho, o que quer dizer que a paranóia se instalou naquela família e vem servindo para outros fins que a proteção pessoal de quem quer que seja.
A mim me parece que a promotora precisa retomar sua vida normal, até porque os alvos do tráfico são eliminados à sua direita e à sua esquerda todos os dias nas ruas do Rio, mas nada lhe acontece. E seu filho já está bem crescidinho para andar com segurança paga por nós para defendê-lo nas arruaças em que se envolve. Trata-se de evidente desvio de função de servidor público no exercício do dever, e que no caso, desgraçadamente, custou a vida de um inocente.

