10
de
julho
Lei Seca
"Traz mais duas aí, garçom!" 
A palavra do momento é bafômetro, e ninguém venha dizer que não sabe o que é isso. Soprou, dançou – a não ser que o cidadão ou cidadã só tenha bebido refrigerante. Pelo que tenho ouvido pelos bares, nem Listerine escapa. Vou manter um frasco de litro e meio dentro do carro, um pouco abaixo da metade só pra disfarçar, e mais uns dez vazios no porta-malas só pra reforçar a imagem de gargarejador-mor da cidade.
Ninguém mais fala em mãos trêmulas, boca seca, gosto de corrimão de repartição pública, visão dupla, mundo girando, fazer um quatro, andar em linha reta, hepatite, cirrose, ácido úrico, delirium tremens – enfim toda a gama de situações e sensações mais ou menos comuns aos bebuns do mundo inteiro. Bóris Yeltsin foi meu herói por muito tempo porque apesar de toda a vodca que entornava dirigiu a Rússia sem nem uma batida (nem caipirosca).
A Lei Seca veio pra valer, garantem os detrans, as polícias rodoviárias, os alcóolicos anônimos e a liga das senhoras pelo soerguimento dos valores morais na sociedade. Mas os bares continuam cheios de gente enchendo o caveirão e voltando pra casa sem problemas. Cada um tem a sua desculpa atestada pela família, pelos amigos, pelos caronas da madrugada. E quem por acaso não tem desculpa faz que nem o motorista parado em Brasília: recusou-se a soprar o canudo infame, entregou a chave do carro pro policial e chamou um táxi pelo celular. “Amanhã eu resolvo, agora tô bêbado”, justificou.
Estatísticas de ocasião acusam reduções fantásticas no número de acidentes, coisa de mais de 50 por cento. Duvido de todas elas, como duvido dos índices oficiais de inflação, das taxas de crescimento da economia, da lisura do Opportunity e de todos os horóscopos do dia. Até uns meses atrás, levantamentos também oficiais informavam que menos de um terço dos acidentes de trânsito fatais eram causados por embriaguez ao volante. A gente até brincou dizendo que o perigo é dirigir sem tomar pelo menos uma.
Nem vou entrar na discussão sobre se a lei vai ou não pegar, não vale a pena especular se a multa de 955 reais vai ou não inflacionar o mercado livre da corrupção do guarda. Se o Daniel Dantas ofereceu um milhão de dólares ao delegado federal que o prendeu e ele recusou, nem tudo está perdido. Só adivinho é que as pessoas continuarão com seu happy hour, como a promotora de justiça ouvida pela reportagem da tevê: “Você acha que eu vou cancelar um jantar romântico com vinho por causa dessa lei inconstitucional?”
Aposto que não, e você?

