18
de
julho
Três casos exemplares
Segurança resolve?
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A polícia matou uma criança dentro do carro porque o confundiu com outro, utilizado por bandidos que ela perseguia. Confundiu porque não pôde enxergar através dos vidros o interior do veículo. Não enxergou por causa da película negra que se tornou indispensável à segurança de quem tem carro. Graças a ela, os bandidos não sabem quantas pessoas estão no carro, se são homens armados como eles ou famílias indefesas como a que se transformou em alvo policial. Então, podemos concluir que a película escura não livra ninguém da violência urbana e que ela pode vir tanto dos assaltantes quanto dos policiais em luta com eles. “Bella roba!”, exclamaria um italiano conterrâneo do Salvatore Cacciola.
Em outro episódio menos recente e menos trágico, um lunático (ainda se usa isso?) pulou o muro da mansão do Sílvio Santos e manteve refém pelo menos uma filha sua durante horas e horas. A história teve final mais ou menos feliz, graças à empatia do apresentador e à transmissão ao vivo que conteve os ímpetos policiais. A mansão era cercada por muros altíssimos precisamente para proteger a família e seus bens, e sobre eles, em cada esquina, havia câmeras de segurança monitorando os movimentos suspeitos. Mesmo assim, o maluco furou o esquema e conseguiu o que queria: notoriedade. Depois, acho, foi morto na cadeia…morte suspeitíssima.
Muitos anos antes de tudo isso acontecer, outro doido, esta marginal mesmo, drogado e armado, invadiu um ônibus no Rio de Janeiro e fez uma refém, ameaçando-a de morte também diante das câmeras e microfones das emissoras de rádio e televisão. Depois de horas de intensa negociação, ele desceu do veículo agarrado à refém, morta por um policial militar que avançou, disparou contra o seqüestrador à queima-roupa e errou tragicamente, matando a moça.
São três casos independentes e sem vinculação maior, a não ser a ação de bandidos, insanos e policiais. Por trás das aparências, entretanto, está o modelo torto de desenvolvimento econômico e social do país. Na paranóia da segurança total, as pessoas cobrem a visão do interior dos seus carros, na ilusão de que não sendo vistas estarão a salvo. O exemplo carioca que abre este texto revela exatamente o contrário. A invisibilidade foi determinante para os policiais dispararem, imaginando ser aquele o carro que perseguiam.
Este caso mantém ligação com o do seqüestro no ônibus 174, também no Rio, quando o policial de elite matou a refém e seus colegas asfixiaram o bandido dentro do camburão, em seguida. Em ambos os casos, salta aos olhos o despreparo policial para enfrentar situações de alto risco. Que elite é essa que atira na vítima a menos de quinze centímetros? Na verdade, nem devia ter disparado, a ação caminhava para o fim, sem vítimas, mas acabou com dois mortos pela polícia: o bandido e a moça.
E o episódio da invasão da casa de Sílvio Santos reforça a idéia defendida cada vez mais por profissionais de diversas áreas comprometidos com a questão da segurança pública. Muros altos erguidos para proteger famílias também funcionam como biombo para ladrões e assaltantes que conseguem vencê-los. O ideal seria visibilidade total da rua, proporcionando aos vizinhos notar qualquer movimento estranho na casa. Pode parecer maluquice, mas é isso mesmo. A exposição das pessoas inibe a ação criminosa, dizem os defensores da idéia. O que você acha? Respostas para llgollo@hotmail.com.

