24
de
julho
Verinha e o professor
Muita gente boa se indignou com a lista da Associação dos Magistrados Brasileiros que, entre 350 candidatos, apontou apenas 15 com pendências judiciais: “Só isso?!” espantou-se Verinha, a diarista lá de casa, “Esperava muito mais”. Não adiantou explicar que a lista se refere apenas a candidatos a prefeito e vice de capitais. A decepção era evidente no seu rosto.
“O Maluf tá no bolo?”, quis saber, desconfiada das intenções dos magistrados.
“Claro que está”, emendei de bate-pronto. “É o campeoníssimo da lista, ninguém tem mais rabo-preso na Justiça do que ele: quatro ações penais no Supremo Tribunal Federal e três por improbidade administrativa”.
“Mas ele nunca foi condenado a nada?” espantou-se.
“Foi sim, em São Paulo, por ter dado um fusca zero para cada jogador da seleção do tri”.
“E foi preso?”
“Não, Verinha, claro que não”, eu disse já fazendo papel de bobo. “Ele recorreu, o caso foi parar no Supremo e ele foi absolvido em 2002, ou seja, 32 anos depois”.
Verinha deixou cair a vassoura: “Peraí, seu Luiz, essa seleção que o senhor falou é aquela do Pelé, Tostão…”
“Gerson, Rivelino, Jairzinho, Clodoaldo, aquela turma toda”, completei.
“Mas isso é muito antigo, eu nem era nascida”.
“É a Justiça, ela garante os direitos políticos até a condenação final, em última instância”, observei com ar de professor do Mobral.
Verinha, que jamais deixou dúvidas sobre a limpeza dos móveis de casa, largou o trabalho por um instante e veio conferir o jornal. Entre linhas tantas, quase escondido, estava o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, tachando a iniciativa da associação de “populismo de índole judicial”.
“Peraí…peraí! Esse Gilmar não é aquele que soltou o banqueiro preso pela Polícia Federal?”
“Ele mesmo, soltou e ressoltou, na mesma semana. Mas isso é outra história”.
“Outra história?! Me desculpe, viu, seu Luiz, mas o senhor é muito ingênuo”, ela finalizou, e voltou ao trabalho.

