1
de
agosto
Vaidade e alienação
A vereadora de não poucos verões cedeu aos apelos da vaidade, internou-se na clínica para uma lipoaspiração simples, coisa de rotina. Entrou em coma e assim está, sem sinais previsíveis de recuperação. Aconteceu na Argentina, mas é coisa freqüente em todo canto do planeta, imagino, até no Sudão, pois nas lonjuras da miséria e da fome também existem elites endinheiradas e vaidosas.
Pesquisa do Instituto Datafolha publicada na edição do último domingo de julho da Folha de S. Paulo com mil e não sei quantos jovens em mais de cem cidades espalhadas pelo país revelou que 43% por cento das adolescentes e moças querem entrar no bisturi do cirurgião plástico, antes mesmo dos sinais iniciais do tempo. Outra enquete, mais antiga, aponta a carreira de modelo como a preferida das meninas e adolescentes ouvidas. Em seguida vem a de jornalista, graças à mediocrização da imprensa e ao império dos rostinhos bonitos nas telinhas de todos os canais.
Tudo isso mostra que a sociedade consumista e individualista venceu a corrida pela vida. Valores morais e espirituais perderam-se na noite dos tempos: tudo é palpável e material, tudo é urgente, como se o mundo estivesse para acabar – e quem sabe está mesmo. A indústria editorial diz que a cada ano vendem-se mais livros, mas é cada dia mais raro ver alguém sentado no banco da praça deliciando-se com a leitura de alguma ficção, clássica ou recém-saída do prelo (ainda existe isso? Alguém sabe o que é?).
As prateleiras estão cheias de romances e pseudo-romances estrangeiros e um ou outro Paulo Coelho para confirmar a regra: histórias fantásticas criadas a partir de presunções históricas agradam, e de preferência assinadas por algum nome estrangeiro repleto de dáblius, agás e ípsilones. É mais barato pagar o direito autoral e não precisar custear divulgação, turnês de lançamento, coquetéis em noites de autógrafos etc etc etc…
Mas o olhar atento percebe que as livrarias expõem livros de dieta para emagrecer, auto-ajuda, obras técnicas e escolares, estas em número crescente, acompanhando a proliferação de cursos superiores voltados apenas para a cultura do diploma, que herdamos dos portugueses, depois dos franceses e, depois da Segunda Guerra Mundial dos vitoriosos americanos. Qualquer universitário de expressão absolutamente alvar carrega sob a axila um ou dois livros de proporções enciclopédicas.
Na fogueira das vaidades em que se consomem os sonhos dessa gente nova não há espaço para reflexões existenciais ou metafísicas, nem mesmo meditações simplórias sobre a sua própria existência. As pessoas nascem, crescem, se reproduzem e morrem alheias a qualquer sentido menos superficial do que o prazer pessoal antes e acima de tudo e a afirmação da sua individualidade contra qualquer conceito de coletividade. Ninguém se envolve, não é testemunha nem de Jeová, não viu nem quer saber o que aconteceu, e assim caminha humanidade.
Neste contexto desconcertante, ainda querem falar de cidadania, direitos humanos e coisas que tais. Ora, no fundo todo mundo concorda com tortura de preso, como aparece no filme Tropa de Elite, todo mundo aplaude a lei seca no trânsito sem atinar para o desrespeito à cidadania. Pouca gente clama nos bares o direito de beber e dirigir sem causar acidentes, um ou outro defende a aplicação da lei por amostragem, como acontece em todo o mundo.
No Brasil, somos irresponsáveis, precisamos da PM para nos deixar dirigir ou não, somos incapazes de decisões próprias, temos uma necessidade ancestral de um governo no qual botar a culpa por tudo de ruim, de alguém que diga o que é melhor para nós e quais músculos temos de trabalhar para ficar parecido com os modelos da publicidade que nunca foi tão enganosa quanto nos dias que correm.

