29
de
agosto
Ainda as Olimpíadas
“Pense num bronze caro”, diz o sujeito na charge do Correio da Paraíba, a propósito dos R$ 692 milhões investidos em dinheiro público na preparação para as Olimpíadas de Pequim. Entretanto, o judoca Eduardo Santos não tinha R$ 1,5 mil para trocar de faixa, embora a Confederação de Judô tenha recebido R$ 10, 86 milhões do Comitê Olímpico Brasileiro, através da Lei Piva de incentivo ao esporte, e do patrocinador, a nunca assaz suspeita Infraero. E César Cielo, nossa medalha única na piscina olímpica, tem preparação de excel^ncia paga por uma universidade norte-americana, com técnico australiano.
Na preparação dos jogos de Atenas, em 2004, foram investidos R$ 280 milhões para cinco medalhas de ouro. Na China, foram quatro primeiros lugares e, no total dos pódios, cada medalha brasileira saiu pela bagatela de R$ 53 milhões, excetuando-se o futebol, porque a CBF não recebe um centavo de dinheiro público. A decepção é ainda maior se levarmos em conta que a Lei Piva beneficiou pela primeira vez um ciclo olímpico completo: de 2004 a 2008, os dois por cento das loterias brasileiras renderam ao Comitê Olímpico Brasileiro e às confederações esportivas pouco mais de R$ 300 milhões.
Não discuto aqui a dinheirama à disposição dos esportes olímpicos, mas antes a falta de cultura brasileira na questão esportiva. No meio do ano passado o Brasil inteiro vibrou com os resultados dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Um nadador cujo nome nem preciso citar, conquistou tantas medalhas que era dado como vitória antecipada em Pequim, embora em nenhuma das modalidades disputadas nas águas cariocas tivesse alcançado índice olímpico. Mais uma vez, o que vimos, foi a antiga mania brasileira de cantar vitória antes do tempo, como costuma acontecer a cada quatro anos com a Copa do Mundo de Futebol.
Somos excelentes em comemorações, pintamos fachadas e colorimos nossas ruas como nenhum outro povo. Na última Copa do Mundo, venderam-se na Alemanha mais camisas do Brasil do que da própria anfitriã da competição. Temos os melhores jogadores do planeta e esta convicção leva ao menosprezo olímpico por nigerianos, equatorianos e outros. E quando nos acontece perder inapelavelmente para os irmãos argentinos, culpamos o Ronaldinho, o Dunga, o mau tempo, ignorando o óbvio ululante: o adversário jogou mais.
Penso nisso cada vez que num sinal fechado meninos e meninas fazem malabarismos em troca de moedas. Serão mais artistas ou mais atletas? Serão, de fato, sempre largados pela sorte, abandonados pelo Estado e suas verbas milionárias de incentivo à cultura e ao esporte. Nem sabem que exite uma Lei Piva ou uma Lei Rouanet, para empresas prósperas deduzirem do Imposto de Renda investimentos nessas áreas fadadas à carência financeira.
Uma noite dessas tive a oportunidade rara de jantar num hotel de primeiro nível, numa capital nordestina. Um hotel super-estrelado onde uma garrafinha de água mineral vale uma fonte cristalina no interior de Minas Gerais. O jantar, por sinal excelente, foi ilustrado por um grupo de moças e rapazes em exibição folclórica de gosto e valor duvidosos, mas bem ao gosto da gringalhada com as bolsas recheadas de euros. Nossos patrícios fizeram piruetas inacreditáveis, jogaram capoeira com a maestria de Mestre Pastinha e evoluíram em cambalhotas aéreas, saltos duplos e triplos, roscas e parafusos, estacionando sempre de pés juntos, sem cambalear nem dar um passo em falso, quanto mais cair de bunda no chão. Mas esse já é assunto para outra crônica.

