Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

19

de
setembro

O médico e o tempo

 

O tempo, o inexorável contar das horas, se abate sobre todo mundo, mas quando é com a gente, o buraco é mais embaixo. Andava sentindo umas coisas diferentes, falta de ar, palpitações, vez por outra formigamento nas extremidades dos dedos das mãos. Nada grave, pensei, até comentar com alguém no trabalho e logo ouvir histórias de fulano, que não tinha nada e caiu fulminado na mesa do almoço, de cara no prato de feijoada. Beltrano corria toda manhã no parque seis quilômetros, vendia saúde, pressão 12 por 8…sofreu um AVC dentro do elevador do ministério e quase se foi desta para melhor.

Sicraninha, tão simpática, uma jóia de pessoa, solícita e sempre sorridente, só tinha um defeito, o maldito cigarro pendurado entre os lábios: enfisema cruel e irreversível, os pulmões petrificados e enegrecidos, dois pedaços de carvão na caixa torácica, segundo os mais chegados, que conversaram com o legista.

No meu caso, fora minha avó materna, diabética, os antecedentes familiares são um desastre total. Meu pai morreu fulminado por um enfarte aos 46 anos, no que foi seguido pelo irmão mais velho, meu padrinho, que só morreu com 53 porque botou umas pontes de safena, mas o estrago já estava feito. Meu avô materno, marido da diabética que se foi de velhice aos 84, subiu aos 56, com pneumonia dupla, cardiopatia grave e todas as demais complicações da obesidade. Isso sem falar nas duas viúvas no cemitério, minha avó e uma senhora de preto encostada na árvore perto da capela do São João Batista.

No meu caso, o médico pesou e refletiu muito sobre as taxas mais altas que a Selic nos meus exames e sentenciou diabetes e risco cardiológico. Foi curto e preciso como o cirurgião que operou meu tio e padrinho, e ainda me assombrou com as conseqüências inevitáveis do diabetes, como pé rachado, perda gradativa da visão, sede insaciável, amputações dos membros inferiores, o escambau. O homem deve ter feito residência no pronto-socorro da Al-qaeda.

É o tempo, o relógio que nunca pára, esse livro aberto cujas páginas se sucedem ao sabor do vento morno da tarde. Ouvi meu algoz de guarda-pó alvo como auréola de anjo e ao final lhe contei a seguinte história: um sujeito saiu de sua cidade natal no interior e foi estudar na capital. Fez faculdade, se formou, montou banca, ganhou dinheiro e um belo dia resolver visitar os amigos de adolescência. Parou no mesmo bar que a turma freqüentava na pracinha central e pediu uma cerveja e uma pinga de alambique. Sentado numa mesa estava o Beto, que ele reconheceu com algum custo.

“E aí, Beto?”, saudou, efusivo como os visitantes do passado, “Não está me reconhecendo? Sou eu, o Alvinho!”

Abraçaram-se e o visitante passou a perguntar pelos outros da turma, ao que Beto respondia “morreu” à medida em que o nome era mencionado. Toda sua adolescência sepultada num cemitério interiorano, e com uma única causa mortis: cirrose hepática alcoólica. Já estavam os dois bêbados como convém nessas ocasiões quando Beto se lembrou de um último nome:

“E o Lauro? O Lauro também morreu de cirrose?”

“Não, o Lauro morreu de câncer”, Alvinho respondeu, ao que o amigo, mais pra lá do que pra cá, exclamou:

“Covarde!”

O médico me acompanhou até a porta do consultório com o sorriso protocolar de quem não acha graça em coisa alguma e me despediu com dois tapinhas nas costas que me pareceram pêsames antecipados, não sei por que.

Arquivado em: Cotidiano I

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