Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

28

de
outubro

QUADRINHA TRISTE

NÃO, NÃO ERA DEPRESSIVA

NÃO ACHAVA TUDO DEPRIMENTE

APENAS SE SUICIDOU DE ALEGRIA

POR VIVER SEMPRE TÃO CONTENTE

 

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24

de
outubro

Piada do O Estado do Paraná, vampirizada sem qualquer cerimônia do www.cartunistasolda.blogspot.com.

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24

de
outubro

Viagem de ônibus

                  

Tomo o ônibus na Visconde de Pirajá, junto à Praça Nossa Senhora da Paz, pouco depois das cinco da tarde, com destino ao ponto final na Praça Barão de Drummond, em Vila Isabel. A mesma Vila onde nasci tantas décadas atrás e é hoje tão diferente, como de resto todo o Rio de Janeiro daquele tempo. Persiste a alma carioca, gentil e acolhedora apesar dos pesares. Diria melhor que embarco no presente para descer no passado, meu passado mais remoto.

À medida que se aproxima de Botafogo, o ônibus enche, lota, superlota, e eu na janela admirando a paisagem do fim de tarde: banhistas na volta da praia, senhoras e senhores nas calçadas de Copacabana, o embate por espaço entre coletivos diversos e táxis, caminhões improváveis e carros particulares, tudo misturado no trânsito impossível, com motos, bicicletas e triciclos e pedestres se esgueirando por onde dá entre rugidos fortes dos motores raivosos no calor de mais de trinta graus.

Apenas começa o horário de verão e percebe-se a resitência natural à novidade, o avanço do relógio contra o sol que não quer se pôr antes da hora. E no meio desta outra peleja, meu ônibus avança aos solavancos pelas coronárias enfartadas de Botafogo. Olhar perdido na paisagem, sorrio, alheio à resignação de muitos e à impaciência de alguns. Em meu passeio existencial não dou a mínima para irritações, curto cada instante como uma dádiva, uma bênção, é assim como se despertado de um coma prolongado adquirisse a consciência de que nada merece meu aborrecimento.

A muito custo segue o ônibus, e agora rosna, impaciente, quase entrando no Túnel Santa Bárbara. A passageira sentada ao meu lado resmunga contra algum dragão imaginário como devem ser dragões, duendes, gnomos, elfos e demais crendices populares. Olho para ela por alguns segundos e me pergunto se terá fantasias sexuais. Como serão? Haverá faunos, sátiros, anões bem dotados? Quanto devaneio…ela é somente uma passageira atribulada, feia e velha, além de tudo. Isso deve ser saudade do meu amor.

Numa curva, já no Estácio, um senhor sem camisa na sacada de um sobrado empunha o espelho com a mão esquerda enquanto inspeciona algo no rosto com o indicador direito. Aproveita a claridade da tarde extemporânea, pois já se aproximam as sete horas e com certeza está mais escuro no interior do quarto. Em Buenos Aires marcam-se encontros “a las siete de la tarde”, com o sol brilhante ainda, como na bandeira nacional.

Mas não vem ao caso, é memória intrujona para me distrair da crônica. Acabamos de cruzar a fachada da escola de samba imortalizada por Noel Rosa em O Xis do Problema e que tenho ouvido no rádio na bela interpretação de Roberta Sá. Sobre a porta de entrada da escola, letras garrafais: GRES. Se pedirmos ao carioca comum que decifre SUS ou INSS, não saberá. Mas não há aquele ignorante da sigla Grêmio Recreativo Escola de Samba, está incrustrado na sua alma.

A esta altura, faz quase hora e meia que admiro a paisagem da janela do ônibus, quase uma partida inteira de futebol – e por falar nela, alcançamos o Maracanã, o Flamengo joga daqui a pouco e um mar de bandeiras e camisas rubro-negras me remete a alguma “cubata africana”, como gostava de dizer o Doutel de Andrade, ele próprio flamenguista, campeão juvenil do Rio em 1938. Era também de Vila Isabel, e a lembrança me traz de volta no exato momento em que o ônibus entra na Avenida 28 de Setembro.

Os olhos marejam ao ver o velho Boulevard onde nos carnavais da minha infância desfilavam frevos dos Lenhadores e onde o Salgueiro promovia apresentações triunfais como o de 1963, com Chica da Silva na pele de Isabel Valença, mulher do bicheiro Osmar “Rato”, patrono da escola naquela época. Era tempo em que a contravenção tinha aura suave, malandro usava navalha, a ladeira do João Alfredo não parecia tão íngreme…bem, deixa pra lá, que o ônibus chegou na Praça Sete e, afinal, é preciso desembarcar na realidade morna da quinta-feira primaveril.

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10

de
outubro

Segundo turno

Lula cancelou na véspera a presença em evento da campanha petista para a prefeitura paulistana, sob alegação formal de antecipação da viagem ao exterior. Informalmente, o Planalto avalia que Marta já perdeu para Gilberto Kassab e o presidente sofreria desgaste desnecessário. Na linha da formalidade, Dilma Rousseff lembra que eleição se ganha na apuração dos votos e se refere, sem menciona, à foto de Fernando Henrique na cadeira de prefeito dias antes da eleição na mesma São Paulo, na década de 80, quando perdeu para Jânio Quadros.

Lembrando: todas as pesquisas apontavam Fernando Henrique vitorioso, até com folga, e ele aceitou posar para a foto de capa da Veja que circularia no domingo da eleição. O acerto previa a publicação somente depois de iniciada a apuração, mas a foto vazou para os jornais na sexta-feira, saiu nas primeiras páginas de sábado e Fernando Henrique perdeu no domingo. O primeiro gesto de Jânio prefeito foi desinfetar a cadeira com detergente, diante da imprensa. Desconhecendo os detalhes da história, o eleitor considerou soberba de Fernando Henrique, o que não correspondia à verdade, embora ele tenha a humildade de um pavão.

Hoje, com internet, câmeras digitais e toda a parafernália tecnológica à disposição, ninguém é besta de cantar vitória antes da hora, menos ainda de deixar-se fotografar como Fernando Henrique naquele tempo. Marta Suplicy esteve à frente em todas as pesquisas, com boa margem de vantagem sobre os segundos colocados Kassab e Alckmin, mas acabou em segundo na hora da verdade. E o prefeito está praticamente reeleito, se não fizer alguma bobagem monumental no segundo turno.

Em Belo Horizonte, a comunista Jô Morais saiu na frente, virou fenômeno e perdeu toda a vantagem quando começou o horário eleitoral na tevê. Márcio Lacerda, desconhecido socialista apoiado por Aécio Neves e o prefeito petista Fernando Pimentel, disparou e só não levou no primeiro turno porque o eleitor não é besta e impôs Leonardo Quintão, do PMDB, à soberba do governador. Aécio aprendeu que não se elege um poste nos dias atuais e corre o risco de perder a prefeitura e comprometer seu sonho maior, o de ser candidato tucano à presidência daqui a dois anos.
No Rio, Marcelo Crivela acabou debaixo do Cimento Social que um tenente desprovido da mínima noção de humanidade detonou ao entregar três rapazes do morro da Providência a traficantes rivais do morro da Mineira, para serem torturados e executados (a propósito, circula um e-mail por aí dizendo que os três eram bandidos, como se isso pudesse justificar a atitude do militar). Bem no estilo baiano que elegeu Jaques Wagner há dois anos, o eleitor carioca puxou o tapete do Crivela e forçou o segundo turno com Fernando Gabeira contra Eduardo Paes. Estou no Rio e constato a impossibilidade de qualquer previsão de vitória de qualquer dos dois candidatos no páreo. Bela eleição.

Por falar em Rio, depois de uma semana de chuva e frio, o sol voltou e o hotel na Atlântica se encheu de rapazes sarados e saltitantes em duplas ou em grupos alegres e ansiosos pela parada gay que acontecerá domingo aqui mesmo em Copacabana, a princesinha do mar. A praia continua linda, o carioca em geral ainda é amável, bem humorado e sobretudo educado e a cidade sempre maravilhosa, a despeito da viadagem que assola a zona sul neste fim de semana.

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