28
de
outubro
QUADRINHA TRISTE
NÃO, NÃO ERA DEPRESSIVA
NÃO ACHAVA TUDO DEPRIMENTE
APENAS SE SUICIDOU DE ALEGRIA
POR VIVER SEMPRE TÃO CONTENTE
NÃO, NÃO ERA DEPRESSIVA
NÃO ACHAVA TUDO DEPRIMENTE
APENAS SE SUICIDOU DE ALEGRIA
POR VIVER SEMPRE TÃO CONTENTE

Piada do O Estado do Paraná, vampirizada sem qualquer cerimônia do www.cartunistasolda.blogspot.com.

Tomo o ônibus na Visconde de Pirajá, junto à Praça Nossa Senhora da Paz, pouco depois das cinco da tarde, com destino ao ponto final na Praça Barão de Drummond, em Vila Isabel. A mesma Vila onde nasci tantas décadas atrás e é hoje tão diferente, como de resto todo o Rio de Janeiro daquele tempo. Persiste a alma carioca, gentil e acolhedora apesar dos pesares. Diria melhor que embarco no presente para descer no passado, meu passado mais remoto.
À medida que se aproxima de Botafogo, o ônibus enche, lota, superlota, e eu na janela admirando a paisagem do fim de tarde: banhistas na volta da praia, senhoras e senhores nas calçadas de Copacabana, o embate por espaço entre coletivos diversos e táxis, caminhões improváveis e carros particulares, tudo misturado no trânsito impossível, com motos, bicicletas e triciclos e pedestres se esgueirando por onde dá entre rugidos fortes dos motores raivosos no calor de mais de trinta graus.
Apenas começa o horário de verão e percebe-se a resitência natural à novidade, o avanço do relógio contra o sol que não quer se pôr antes da hora. E no meio desta outra peleja, meu ônibus avança aos solavancos pelas coronárias enfartadas de Botafogo. Olhar perdido na paisagem, sorrio, alheio à resignação de muitos e à impaciência de alguns. Em meu passeio existencial não dou a mínima para irritações, curto cada instante como uma dádiva, uma bênção, é assim como se despertado de um coma prolongado adquirisse a consciência de que nada merece meu aborrecimento.
A muito custo segue o ônibus, e agora rosna, impaciente, quase entrando no Túnel Santa Bárbara. A passageira sentada ao meu lado resmunga contra algum dragão imaginário como devem ser dragões, duendes, gnomos, elfos e demais crendices populares. Olho para ela por alguns segundos e me pergunto se terá fantasias sexuais. Como serão? Haverá faunos, sátiros, anões bem dotados? Quanto devaneio…ela é somente uma passageira atribulada, feia e velha, além de tudo. Isso deve ser saudade do meu amor.
Numa curva, já no Estácio, um senhor sem camisa na sacada de um sobrado empunha o espelho com a mão esquerda enquanto inspeciona algo no rosto com o indicador direito. Aproveita a claridade da tarde extemporânea, pois já se aproximam as sete horas e com certeza está mais escuro no interior do quarto. Em Buenos Aires marcam-se encontros “a las siete de la tarde”, com o sol brilhante ainda, como na bandeira nacional.
Mas não vem ao caso, é memória intrujona para me distrair da crônica. Acabamos de cruzar a fachada da escola de samba imortalizada por Noel Rosa em O Xis do Problema e que tenho ouvido no rádio na bela interpretação de Roberta Sá. Sobre a porta de entrada da escola, letras garrafais: GRES. Se pedirmos ao carioca comum que decifre SUS ou INSS, não saberá. Mas não há aquele ignorante da sigla Grêmio Recreativo Escola de Samba, está incrustrado na sua alma.
A esta altura, faz quase hora e meia que admiro a paisagem da janela do ônibus, quase uma partida inteira de futebol – e por falar nela, alcançamos o Maracanã, o Flamengo joga daqui a pouco e um mar de bandeiras e camisas rubro-negras me remete a alguma “cubata africana”, como gostava de dizer o Doutel de Andrade, ele próprio flamenguista, campeão juvenil do Rio em 1938. Era também de Vila Isabel, e a lembrança me traz de volta no exato momento em que o ônibus entra na Avenida 28 de Setembro.
Os olhos marejam ao ver o velho Boulevard onde nos carnavais da minha infância desfilavam frevos dos Lenhadores e onde o Salgueiro promovia apresentações triunfais como o de 1963, com Chica da Silva na pele de Isabel Valença, mulher do bicheiro Osmar “Rato”, patrono da escola naquela época. Era tempo em que a contravenção tinha aura suave, malandro usava navalha, a ladeira do João Alfredo não parecia tão íngreme…bem, deixa pra lá, que o ônibus chegou na Praça Sete e, afinal, é preciso desembarcar na realidade morna da quinta-feira primaveril.
Lula cancelou na véspera a presença em evento da campanha petista para a prefeitura paulistana, sob alegação formal de antecipação da viagem ao exterior. Informalmente, o Planalto avalia que Marta já perdeu para Gilberto Kassab e o presidente sofreria desgaste desnecessário. Na linha da formalidade, Dilma Rousseff lembra que eleição se ganha na apuração dos votos e se refere, sem menciona, à foto de Fernando Henrique na cadeira de prefeito dias antes da eleição na mesma São Paulo, na década de 80, quando perdeu para Jânio Quadros.
Lembrando: todas as pesquisas apontavam Fernando Henrique vitorioso, até com folga, e ele aceitou posar para a foto de capa da Veja que circularia no domingo da eleição. O acerto previa a publicação somente depois de iniciada a apuração, mas a foto vazou para os jornais na sexta-feira, saiu nas primeiras páginas de sábado e Fernando Henrique perdeu no domingo. O primeiro gesto de Jânio prefeito foi desinfetar a cadeira com detergente, diante da imprensa. Desconhecendo os detalhes da história, o eleitor considerou soberba de Fernando Henrique, o que não correspondia à verdade, embora ele tenha a humildade de um pavão.
Hoje, com internet, câmeras digitais e toda a parafernália tecnológica à disposição, ninguém é besta de cantar vitória antes da hora, menos ainda de deixar-se fotografar como Fernando Henrique naquele tempo. Marta Suplicy esteve à frente em todas as pesquisas, com boa margem de vantagem sobre os segundos colocados Kassab e Alckmin, mas acabou em segundo na hora da verdade. E o prefeito está praticamente reeleito, se não fizer alguma bobagem monumental no segundo turno.
Em Belo Horizonte, a comunista Jô Morais saiu na frente, virou fenômeno e perdeu toda a vantagem quando começou o horário eleitoral na tevê. Márcio Lacerda, desconhecido socialista apoiado por Aécio Neves e o prefeito petista Fernando Pimentel, disparou e só não levou no primeiro turno porque o eleitor não é besta e impôs Leonardo Quintão, do PMDB, à soberba do governador. Aécio aprendeu que não se elege um poste nos dias atuais e corre o risco de perder a prefeitura e comprometer seu sonho maior, o de ser candidato tucano à presidência daqui a dois anos.
No Rio, Marcelo Crivela acabou debaixo do Cimento Social que um tenente desprovido da mínima noção de humanidade detonou ao entregar três rapazes do morro da Providência a traficantes rivais do morro da Mineira, para serem torturados e executados (a propósito, circula um e-mail por aí dizendo que os três eram bandidos, como se isso pudesse justificar a atitude do militar). Bem no estilo baiano que elegeu Jaques Wagner há dois anos, o eleitor carioca puxou o tapete do Crivela e forçou o segundo turno com Fernando Gabeira contra Eduardo Paes. Estou no Rio e constato a impossibilidade de qualquer previsão de vitória de qualquer dos dois candidatos no páreo. Bela eleição.
Por falar em Rio, depois de uma semana de chuva e frio, o sol voltou e o hotel na Atlântica se encheu de rapazes sarados e saltitantes em duplas ou em grupos alegres e ansiosos pela parada gay que acontecerá domingo aqui mesmo em Copacabana, a princesinha do mar. A praia continua linda, o carioca em geral ainda é amável, bem humorado e sobretudo educado e a cidade sempre maravilhosa, a despeito da viadagem que assola a zona sul neste fim de semana.