24
de
outubro
Viagem de ônibus

Tomo o ônibus na Visconde de Pirajá, junto à Praça Nossa Senhora da Paz, pouco depois das cinco da tarde, com destino ao ponto final na Praça Barão de Drummond, em Vila Isabel. A mesma Vila onde nasci tantas décadas atrás e é hoje tão diferente, como de resto todo o Rio de Janeiro daquele tempo. Persiste a alma carioca, gentil e acolhedora apesar dos pesares. Diria melhor que embarco no presente para descer no passado, meu passado mais remoto.
À medida que se aproxima de Botafogo, o ônibus enche, lota, superlota, e eu na janela admirando a paisagem do fim de tarde: banhistas na volta da praia, senhoras e senhores nas calçadas de Copacabana, o embate por espaço entre coletivos diversos e táxis, caminhões improváveis e carros particulares, tudo misturado no trânsito impossível, com motos, bicicletas e triciclos e pedestres se esgueirando por onde dá entre rugidos fortes dos motores raivosos no calor de mais de trinta graus.
Apenas começa o horário de verão e percebe-se a resitência natural à novidade, o avanço do relógio contra o sol que não quer se pôr antes da hora. E no meio desta outra peleja, meu ônibus avança aos solavancos pelas coronárias enfartadas de Botafogo. Olhar perdido na paisagem, sorrio, alheio à resignação de muitos e à impaciência de alguns. Em meu passeio existencial não dou a mínima para irritações, curto cada instante como uma dádiva, uma bênção, é assim como se despertado de um coma prolongado adquirisse a consciência de que nada merece meu aborrecimento.
A muito custo segue o ônibus, e agora rosna, impaciente, quase entrando no Túnel Santa Bárbara. A passageira sentada ao meu lado resmunga contra algum dragão imaginário como devem ser dragões, duendes, gnomos, elfos e demais crendices populares. Olho para ela por alguns segundos e me pergunto se terá fantasias sexuais. Como serão? Haverá faunos, sátiros, anões bem dotados? Quanto devaneio…ela é somente uma passageira atribulada, feia e velha, além de tudo. Isso deve ser saudade do meu amor.
Numa curva, já no Estácio, um senhor sem camisa na sacada de um sobrado empunha o espelho com a mão esquerda enquanto inspeciona algo no rosto com o indicador direito. Aproveita a claridade da tarde extemporânea, pois já se aproximam as sete horas e com certeza está mais escuro no interior do quarto. Em Buenos Aires marcam-se encontros “a las siete de la tarde”, com o sol brilhante ainda, como na bandeira nacional.
Mas não vem ao caso, é memória intrujona para me distrair da crônica. Acabamos de cruzar a fachada da escola de samba imortalizada por Noel Rosa em O Xis do Problema e que tenho ouvido no rádio na bela interpretação de Roberta Sá. Sobre a porta de entrada da escola, letras garrafais: GRES. Se pedirmos ao carioca comum que decifre SUS ou INSS, não saberá. Mas não há aquele ignorante da sigla Grêmio Recreativo Escola de Samba, está incrustrado na sua alma.
A esta altura, faz quase hora e meia que admiro a paisagem da janela do ônibus, quase uma partida inteira de futebol – e por falar nela, alcançamos o Maracanã, o Flamengo joga daqui a pouco e um mar de bandeiras e camisas rubro-negras me remete a alguma “cubata africana”, como gostava de dizer o Doutel de Andrade, ele próprio flamenguista, campeão juvenil do Rio em 1938. Era também de Vila Isabel, e a lembrança me traz de volta no exato momento em que o ônibus entra na Avenida 28 de Setembro.
Os olhos marejam ao ver o velho Boulevard onde nos carnavais da minha infância desfilavam frevos dos Lenhadores e onde o Salgueiro promovia apresentações triunfais como o de 1963, com Chica da Silva na pele de Isabel Valença, mulher do bicheiro Osmar “Rato”, patrono da escola naquela época. Era tempo em que a contravenção tinha aura suave, malandro usava navalha, a ladeira do João Alfredo não parecia tão íngreme…bem, deixa pra lá, que o ônibus chegou na Praça Sete e, afinal, é preciso desembarcar na realidade morna da quinta-feira primaveril.


Comentário por André Jerônimo — 24 24UTC outubro 24UTC 2008 (16:13)
Caraca véi, que cara mais carioca!
Comentário por Ana lucia — 24 24UTC outubro 24UTC 2008 (16:49)
Que belíssima catarse hem! Pura emoção. Parabéns!
Comentário por carlos joão — 24 24UTC outubro 24UTC 2008 (19:46)
Uma bela crônica ao cair da tarde. Caraca!
Comentário por Jayme — 24 24UTC outubro 24UTC 2008 (20:05)
E o livro, sai qd? “Crônicas e Contos de uma Cidade Maravilhosa”, q tal??
Comentário por Euzi — 24 24UTC outubro 24UTC 2008 (20:16)
Amigo…poucos cariocas descreveriam essa viagem com detalhes que só quem ama o Rio é capaz de observar e descrever…ainda bem que vc está de volta ao “lar carioca” pra admirar coisas que muitos fazem questão de esquecer…
Parabéns pelo espírito carioca!!!
Comentário por Luis Carlos Sousa Lima — 27 27UTC outubro 27UTC 2008 (10:51)
Amigão, que bom saber de ti já no Rio. Os cariocas cordiais ganham um reforço extraordinário. Abração e apareça aqui no Beirola da norte, vez em quando.