28
de
novembro
De altruísmo e vilania
Flagrante de solidariedade. 
Não costumo escrever sobre fenômenos naturais, nem mesmo quando é um tsunami lambendo países limítrofes na Ásia e na África, ou um vulcão vomitando lava montanha abaixo em outras partes do mundo. No geral, são de trágicas conseqüências, imagináveis ou até previsíveis, e atestam, em sua avassaladora manifestação, a fragilidade da condição humana sobre o planeta que insistimos em ofender, na ignorância de que a natureza responde em dobro o mal que mãos humanas lhe fazem. Mesmo quando as intenções são boas, se há agressão ela terá resposta à altura. Lembro-me de percorrer de carro um bom trecho da rodovia Transamazônica, entre Altamira, no Pará, e Prainha, ponto perdido no meio do Amazonas. Em vários trechos, as copas das árvores às margens da estrada de terra se uniam sobre nossas cabeças, num túnel natural exuberante e assustador. Em outros, a Brasília da Polícia Rodoviária Federal mergulhava lentamente num lado do buraco e emergia ao leito da estrada do outro, com muita preocupação minha e do fotógrafo que me acompanhava.
As chuvas sobre Santa Catarina não se incluem em nenhuma categoria de ofensa do homem à natureza, pelo menos até onde se especula na imprensa, desde a semana passada. É uma aguaceiro inédito, diluviano mesmo, a se infiltrar nas encostas e a dissolver as terras dos morros, transformando-as num mingau indigesto tanto para as populações locais quanto para nós, que testemunhamos, assustados, pela televisão. Pode ter origem no El Niño, que esquenta as águas do Pacífico, altera correntes marítimas e por ocorrer anualmente nesta época recebe o nome em lembrança ao nascimento do menino Jesus. Pode ser também o fenômeno detectado no Atlântico, próximo à costa catarinense, que provoca a precipitação pluviométrica, e pode ainda ter algo a ver com a frente fria estacionada sobre o litoral sul brasileiro, ou ainda ser o somatório de todas estas hipóteses. Não acho que seja importante definir a origem, até porque o poder econômico, metáfora do mal, não deixará de poluir, agredir, violentar um centímetro de ambiente, acontença o que acontecer.
O que me motiva a escrever sobre o desastre catarinense é a solidariedade humana, as manifestações espontâneas, a doação de roupas, comida e dinheiro, a demonstração concreta e palpável da preocupação do brasileiro com a desgraça alheia. Vi e ouvi uma mulher na tevê dizer que doava roupas e alimentos porque os irmãos do sul precisam de ajuda. Sentiu-se impelida pela consicência cívica a dar sua colaboração, e terminou a declaração com o recado: “Animem-se, vocês vão superar e vão partir pra outra”. Se não foram essas as palavras, foi o significado. Aquela mulher de talvez quarenta anos não se contentou em mandar ajuda concreta, como também enviou apoio moral através da mensagem encorajadora e otimista. Posturas assim me devolvem a fé no chamado “ser humano”, nem que seja por instantes. São um bálsamo entre tantas coisas negativas na mídia nacional.
Pena que sejam raras as ocasiões agradáveis geradoras de comportamentos elogiáveis, mas as desgraças deixam bem claro como nos espelhamos no outro, como nos projetamos nas situações difíceis, às vezes pensando “graças a Deus não é comigo”, mas quase sempre sem reflexão alguma, apenas movidos pela piedade, pela compaixão. É interessante comparar reações opostas na solidariedade. Por exemplo, o gari do aeroporto de Brasília achou uma pasta de executivo no banheiro com 35 mil reais dentro e devolveu. Foi até recebido pelo presidente Lula, mas ouvi muita gente boa tachá-lo de “otário” e “babaca”. Na enchente catarinense, muita gente correu para ajudar e ninguém para saquear os pertences das vítimas. Mas deixa passar um tempo e a polícia não isolar a área…no vale do Itajaí vigora o toque de recolher e até o fechamento desta edição três pessoas tinham sido presas. Vai ver estavam entre os primeiros socorristas voluntários da manhã. “O homem é o lobo do homem”, disse Thomas Hobbes, filósofo seiscentista inglês. “Maldito o homem que confia no próprio homem”, já dizia Jesus Cristo, muitíssimo tempo antes.

Bento 16 recebeu Jacinta, Lúcia e Francisco, na versão eleitoral brasileira.
