22
de
novembro
Estamos conversados
Li, outro dia, artigo de um francês residente nos Estados Unidos reclamando do “politicamente correto”, a partir de um e-mail enviado por ele a alguém na Europa e no qual usou a palavra “retard”, que em inglês pode ser “retardado”, mas em bom francês não passa de um atraso. Imediatamente surgiu na tela do computador uma mensagem com mais ou menos o seguinte:
“Atenção! Você acabou de empregar um termo pejorativo. A política da empresa não admite este tipo de comportamento, blábláblá…” Indignado, o francês procurou o setor de informática para esclarecer o caso e saber quem era o responsável pela advertência indevida. Não descobriu nem uma coisa nem outra, porque os funcionários do setor não tinham noção de outro idioma que não o “informatês” e não faziam a mais pálida idéia de quem implantou a linguagem do “politicamente correto” nos computadores da rede.
A conclusão do francês é que o “politicamente correto” não tem pai nem mãe e nem justificativa sustentável na sociedade contemporânea. Talvez se explique pela paranóia da discriminação, que em muitos países (aqui, inclusive) eventualvemente gera processos judiciais e prejuízos financeiros.
O fato é que o “politicamente correto” impõe alarmes nas nossas mentes e mordaças nas nossas bocas, em nome de um tratamento igualitário inexistente. A pessoa que não pode ver é cega, não importa o eufemismo que se crie para substituir a cegueira. Da mesma forma, o surdo, o manco, o coxo, o caolho, o perneta, e por aí segue o baile.
Humoristas reclamam que o “politicamente correto” está acabando com sua fonte de piadas, e deve ser verdade. Não podem mais fazer graça com gago, aleijado, bicha, português, velho, criança, mulher, está cada dia mais restrito o universo das personagens de anedota.
Dizer que alguém é preto é racismo, crime inafiançável, mas chamar de “branco azedo” tudo bem. Dizer que toda loura é burra é discriminação, mas esculhambar sogra pode. Chamar o rapaz cheio de “ademanes”, como dizia Jânio Quadros, de viado é ultraje, mas “gay” faz até parada orgulhosa.
Aleijado já era, nem paraplégico pode, agora é cadeirante – o que me faz pensar se meu irmão que usa bengala canadense será um “muletante” ou “bengalante”. Deficiente visual, deficiente auditivo, deficiente mental, portador de necessidades especiais, esses são os termos do glossário “politicamente correto” e não se discute.
Neste passo, aos poucos eliminaremos as características pessoais e formaremos uma massa aparentemente
homogênea, na qual todos são pretensamente iguais. Aí não poderemos mais chamar alguém de baixinho, gigante, balofo, esqueleto, zarolho, maneta, banguela, cabeça-de-bagre, perna-de-pau, deixa-que-eu-chuto, tá-raso-tá-fundo, careca, quatro-olho, paraíba, baiano, japoronga, japa, china-lelé, rolha-de-poço, pintor-de-rodapé, salva-vidas-de-aquário, anão-de-jardim…aliás, anão também não existe mais. Politicamente correto é cidadão verticalmente prejudicado.
Assim fica difícil até fazer crônica, que dirá piada…

