Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

4

de
dezembro

Lobo bobo


Galante e muito interessado na conquista do coração (e adjacências) da moça, o jovem microempresário convidou-a para jantar, na base do “posso convidá-la para jantá-la?”, e para dourar a pílula alugou carrão importado, fez reserva num restaurante caríssimo e até comprou roupa de griffe famosa no shopping mais sofisticado da cidade. Com tanto esmero, imaginou, chapeuzinho vermelho estava no papo.

Na noite combinada, saiu mais cedo do trabalho, a pretexto de resolver pendências na Receita Federal, e foi direto pro salão. Fez pé e mão, aparou o cabelo aplicou umas químicas, uns cremes e tocou pra casa. Tomou um banho de cleópatra, era o próprio metrossexual, tudo para a investida do ano. A gata merecia, ainda mais porque o ano estava chegando ao fim e ele não tinha cravado nenhuma digna de registro no coldre, ninguém que deixasse os amigos de queixo caído na mesa do bar no happy hour de sexta-feira.

Ao volante do carrão vermelho-paixão, deu uma passada rápida na floricultura, pagou as flores que havia encomendado mais cedo por telefone e seguiu para o castelo onde a donzela o aguardava com alguma ansiedade, mas nada de excepcional. Na realidade, gostou dele, do papo inteligente, das tiradas espirituosas na noite em que se conheceram na festinha de uma amiga comum. Só. Para o seu gosto, o rapaz era um tanto baixinho e tinha as orelhas levemente voltadas para fora, o que ele procurava amenizar com os cabelos um pouco compridos. Chapeuzinho aceitou o convite para jantar mais por curiosidade do que por interesse, e também porque o ano estava chegando ao fim e…

No restaurante, à luz de velas na mesa mais discreta do lugar, deram sequência à conversa da festinha, conferiram os amigos comuns, falaram das banalidades habituais nesses encontros de sorrisos e olhares carregados de promessas, advertências e até de algumas ameaças veladas. Couvert, entrada, prato principal escolhido entre as especialidades da cozinha internacional, como são as dos restaurantes finos da atualidade. Refinado, ele pediu a carta de vinhos, examinou com atenção afetada e elegeu um tinto com nome pomposo e pedigree que – ele olhou à direita – custava 72 reais. De bom tamanho para o investimento global.

Abriram mão da sobremesa, mas tomaram um expresso e ele pediu a conta. Quando abriu e deu de cara com 9 mil reais quase teve um enfarte. Sentiu o sangue fugir do rosto, uma dormência estranha nos dedos e a taquicardia compatível com a descarga de adrenalina. Foi como se um raio o consumisse. Toda a refeição, de repente, foi processada no estômago e parecia pronta para dar adeus ao corpo trêmulo de desespero. Acenou para o maitre com a sutileza possível e cochichou: “Tem um engano na minha conta”. O maitre percebeu logo, pediu que ele o acompanhasse e assim que se afastaram da moça, mostrou a carta de vinho novamente. Estava lá a garrafa do vinho por 7.200 reais.

Resumo da ópera: lobo mau explicou ao gerente a impossibilidade de pagar aquela pequena fortuna por um vinho, conseguiu abatimento de quatro mil reais na conta, pagou o resto com dois cartões de crédito e jurou comer chapeuzinho vermelho até a copa de 2014, pelo menos.

Arquivado em: Cotidiano I

1 Comentário »

  1. Comentário por Raul J Ferreira Junior — 4 04UTC dezembro 04UTC 2008 (15:40)

    Que vinho amargo… Normal, o lobo mau sempre acaba mal…

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