18
de
dezembro
“Garçom, a conta!”
“Aquele ali não é o Peri Ribeiro?”
“Onde?”
“Ali naquela mesa, de papo com a morena de azul, tá vendo?”
“Tô, tô, não precisa apontar, que é falta de educação”.
“Não estou apontando, tô sinalizando”.
“Sinalizar assim é pior que meter o dedo na cara. E não é ele, não, aquele é o Wanderley Cardoso”.
“Da Jovem Guarda?! Ah, não é mesmo, pensa que eu não conheço o Wanderley Cardoso?”
“Conheceu, minha filha, conheceu. O tempo passa, não sabia?”
“E o mundo gira e a Lusitana roda. Mas aquele velho ali não é o Wanderley Cardoso”.
“Peraí, peraí! O mundo gira e a Lusitana roda? Cê tá velha, hein? Cuidado pra não passar na porta do Retiro dos Artistas”.
“Até parece que você é o próprio Dorian Gray”.
“Daqui a pouco você vai lembrar o Rhum Creosotado”.
“Por que não? Eu tenho vergonha da idade, por acaso? Pinto o cabelo, que nem você?”
“Não porque sempre usou peruca. Aliás, nem me lembro mais da cor verdadeira do seu cabelo, acho que o arco-íris gay foi inspirado nas cores que já passaram pela sua cabeça”.
“Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que você tem ao seu lado…”
“…E no entanto acredite, quase morreu de bronquite. Salvou-o o Rhum Creosotado. Hahaha!”
“Então, então?! Não é do seu tempo? Olha na lente da verdade e confessa”.
“Do meu tempo, do nosso tempo, é claro que é, só que você esconde. Esconde até que é minha irmã mais velha, por que não vai esconder uma bobagem dessas?”
“Eeeeuuu??! Mais velha que você? Desde quando?”
“Que eu me lembre, desde que eu nasci. Você tinha três anos, não lembra?”
“Minha filha, eu acho que você nasceu em outro lar, em outra casa, em algum orfanato, e foi adotada por papai e mamãe, que ficaram com dó daquela criança abandonada”.
“Tá bem, tá bem, eu sei o quanto você sempre foi sensível a essa coisa de idade, essa sua vaidade tola, inútil e fútil que não deixa seu espírito evoluir. Por isso você fica aqui no plano terreno, reencarnando, repetindo as mesmas falhas, os mesmo erros”.
“Você atingiu a perfeição, não é, filhota? Hein? Diz aí, você está no sétimo céu de Dante, no nirvana, não tem falhas nem comete erros”.
“Posso ter os meus deslizes, meus enganos, mas errar feio que nem você, pelamordedeus!”
“É, mas euzinha aqui não caí na conversa do Alípio, não é?”
“Águas passadas, isso foi há tanto tempo que eu nem tinha lembrança mais. Pra você ter idéia, nós dois assistíamos ao Programa Flávio Cavalcanti de mãos dadas no sofá da sala, tomando refresco de maracujá e comendo bolo de laranja que mamãe fazia”.
“É, mas você devia ter desconfiado que ele era casado, né? Bobeou, dançou”.
“Não fala nisso, que você sabe que eu choro toda vez que lembro do Alípio…Ah, Alipinho do meu coração!”
“Do coração das negas dele. Você já devia ter amadurecido há muito tempo. Quantos anos faz isso?”
“Muitos, um caminhão de tempo. Quer saber? Vou pedir mais um uísque e depois a gente vai embora, tá?”
“Por mim…”
“Bebe um uísque também, ora”.
“Não quero”.
“Pra fazer companhia, vai, tô te pedindo.”
“Não, tenho medo”.
“Medo de que, criatura?”
“Da blitz, do bafômetro. Morro de pavor de o guarda mandar eu botar a boca naquele negócio e soprar”.
“Minha filha, teiquirísi, teiquirísi, tá bem? Menos, muito menos. Nós vamos voltar pra casa de táxi, como sempre. Nem temos carro. Além do mais, você nunca dirigiu na vida”.
“Sei lá, de repente passageiro também tem que soprar bafômetro. Não estão querendo pôr policial disfarçado no bar só pra denunciar quem bebe e tá de carro?”
“É verdade, mas ainda não chegamos a esse ponto, né?”
“Sei não, olhando bem, aquele homem não parece nem o Wanderley Cardoso nem o Peri Ribeiro. Parece mais um peeme disfarçado, repara bem”.
‘É mesmo, agora tô notando. Suspende o uísque e pede a conta”.


Comentário por Ana lucia — 18 18UTC dezembro 18UTC 2008 (16:10)
Caráca véi…tá muito bom isso! Vc arrebentou dessa vez, Deus continue abençoando esse talento. Menino, vai ser bom assim lá em casa, kkkkk
Comentário por Paulo Kramer — 13 13UTC fevereiro 13UTC 2009 (13:47)
Caríssimo amigo,
Antes de mais nada, parabéns pelo seu blog, inteligente e bem-humorado, como sempre!
Gollo, tenho uma certa urgência em falar com você. O amigo faria a gentileza de entrar em contato no e-mail aqui indicado?
Desde já, fico muito grato pela atenção! Abração do Paulo Kramer.