Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

26

de
dezembro

A morte de Papai Noel

O espírito natalino transborda por todos os cantos onde existe a comemoração cristã do nascimento de Jesus, o que exclui rincões budistas, muçulmanos, judeus, hindus e outros. Estudos da Bíblia situam o acontecimento no mês de abril, a partir da estrela que guiou os reis magos a Belém, na realidade um dos planetas alinhados na constelação de Áries, naquele longínquo ano, possivelmente o quarto da era cristã. Sim, porque o pequeno Messias veio ao mundo antes de sua revelação aos judeus e aos gentios, como parece óbvio.


Os magos não eram reis, mas sim mágicos, como os estudiosos dos astros daquele tempo, que adivinhavam fenômenos climáticos e meteorológicos, previam a passagem de cometas e outros corpos celestes. O fato de terem seguido a estrela até Belém é uma das primeiras partes da revelação da origem divina – acredita quem quiser. Como na coincidência da constelação ser representada pelo carneiro, ou o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo.


O Natal é em sua essência o nascimento do Cristo, sendo Papai Noel a personificação do consumismo. Natal é presépio e não árvore iluminada com presentes embaixo. Mas a prevalência do “bom velhinho” é cada ano maior, um sinal dos tempos, lamentam cristãos sinceros. O comércio exulta, as crianças vibram, a indústria aplaude a fúria consumista do fim do ano.


Você deve estar se perguntando o que tem isso a ver com a morte do Papai Noel, título dessas mal traçadas linhas. Explico: minha netinha de oito anos mora em San Diego, situada entre os incêndios florestais e o governador de nome impronunciável, onde o conhecido espírito natalino tem fundas raízes tanto na religião quanto no comércio. Pois lá, em meio à curiosidade natural da tenra idade, ouviu de algum adulto esquecido de que já foi criança a frase conhecida de todos nós: “Papai Noel não existe”.


Estarrecida, ela correu até a mãe, minha querida nora, que pensou tranquilizá-la com outra notícia não menos assustadora: “Não, filhinha, Papai Noel existe, sim, ou melhor, existiu, pois na verdade que Papai Noel morreu”.


Minha netinha inocente, doce criaturinha de Deus, não alcançou a sutileza materna na crítica ao Natal e sua falsa religiosidade, e no dia seguinte contou a novidade aos coleguinhas, o que resultou no telefonema preocupadíssimo da professora: “Você disse a ela que Papai Noel morreu?!”, escandalizou-se, coberta de razão. Como ensinar aos pupilos, doravante, que comportando-se bem durante o ano inteiro, merecerão presentes de um Papai Noel morto e sepultado em algum cemitério do Polo Norte?


Sem saber, minha nora pode ter contribuído para a formação da nova mentalidade que Barack Obama anuncia para os Estados Unidos, um modelo menos materialista e egoísta e mais espiritualista e solidário. Aqui do meu cantinho, oro para que ele tenha sucesso e ofereça assim que tiver chance algum posto graduado no governo a minha pobre nora, com salário suficiente para custear a cara educação particular norte-americana. Porque vai se difícil, doravante, minha netinha ficar livre das gozações dos meninos e meninas de lá.

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