1
de
janeiro
Feliz 2009!
Eu estive no Réveillon nas areias de Copacabana, que a maioria viu na televisão. Eu e mais de um milhão e meio de pessoas, rindo, confraternizando, ganhando uma grana extra com água, cerveja e refrigerante, churrasquinho, sanduíche e até chope da Brahma vendido num carrinho parecido com o dos sorvetes. Uma festa, desconhecidos desejando feliz ano novo uns aos outros, na maior paz, nenhuma briga, nem mesmo quando mijei numa poça suspeita junto com outros homens e alguém reclamou que respingou no seu pé. Que fazer? Hoje a festa é de quem quiser, quem vier…Li no primeiro jornal do ano que três pessoas foram mortas ali mesmo, mas não vi nem ouvi nada. Não havia detalhes, a notícia parecia um registro indesejado de alguma desavença entre conhecidos que levam revólver pra praia à meia-noite de 31 de dezembro.
Comprei o bilhete do metrô com ida marcada entre 21 e 22 horas e volta em horário livre. Entrei numa fila na estação Estácio, muito organizada, dois guichês de atendimento, paguei, a moça carregou o bilhete na hora – lembrei do Unibanco: “nem parece”. Lendo o tíquete ilustrado com a foto de crianças morenas, mulatas e negras, aprendi toda a renda líquida da Metrô Rio com os bilhetes de ida seria doada ao Programa Plantando o Amanhã, da Cruzada do Menor (detalhes no site www.metrorio.com.br). Uma grana preta, porque foram vendidas mais de cem mil passagens exclusivas para o Réveillon.
As estações funcionaram como em dia normal, com seguranças e pessoal de limpeza, o trem em que embarquei estava cheio, mas não superlotado, e os passageiros riram e brincaram a viagem inteira. Na Cardeal Arcoverde, onde desci, a multidão seguiu pelo asfalto, vigiada pela Polícia Militar instalada em coretos armados aqui e ali ou espalhada pelas esquinas e pela orla, com carros, motos ou a pé. Na areia iluminada por poderosos holofotes, famílias inteiras se acomodaram em barracas de armar, percebia-se que estavam ali desde a manhã, ou a véspera, muita gente dentro dágua, muitos vendedores, outro tanto de turistas estrangeiros (muitos gritavam “I love you, Rio!”), todo mundo tirando uma casquinha.
Á meia-noite, oito balsas dispostas no mar promoveram o espetáculo dos fogos durante pouco mais de 20 minutos, admirado tanto pelas crianças na cacunda dos pais quanto pelos turistas nos transatlânticos iluminados ancorados na linha do horizonte e pelos milhares e milhares de homens e mulheres extasiados na areia molhada de chuva. Sim, porque choveu um pouco, alegria extra para os muitos vendedores de capas de plástico. Quem não se preocupou nem um pouco com a chuva foram os convivas da festança no Copacabana Palace, metidos em seus black-ties e longos caríssimos, furando o bloqueio amigável da pobreza que só faltava aplaudir a chegada de cada riquinho.
No final, a festa da volta, muita gente mais pra lá que pra cá, cabecinhas deitadas nos ombros adultos, passos arrastados na areia, nas pedras portuguesas, no asfalto, a caminho da estação do metrô. Como o horário de retorno era livre, quem voltou depois do show de Mart’nália, Revelação e três escolas de samba, lá pelas três e pouco, encontrou trem vazio, mas eu voltei antes e ele estava mais cheio do que o da ida. Na Praça Saens Peña, táxis em profusão à saída da estação, no preço do relógio, sem exploração e com muito bom humor. A coroação da festa foi quando me despedi do motorista em Vila Isabel, com o tradicional “feliz ano novo”, retribuído no mesmo tom e com um sorriso de confiança e esperança no futuro.

