7
de
janeiro
Quem sou, de onde vim e que dia é hoje?
A propósito da virada do ano, que nada mais é do que a contagem do tempo determinada pelo homem, o antropólogo Roberto DaMatta lembrou no Globo duas observações de rara profundidade: a de Thomas Mann “Demarcar o tempo é como passar uma faca na água” e a de William Shakespeare “Quando eu me pergunto quem sou, eu sou aquele que pergunta, ou aquele que não sabe a resposta?” A primeira parece mais simples, enquanto a segunda remete ao existencialismo e à metafísica, ao manjadíssimo “Ser ou não ser?”, do mesmo autor.
Há uma teoria interessante sobre o tempo passar mais rápido à medida que envelhecemos: diz que nosso cérebro registra, ao longo da vida, coisas, fatos, imagens, memórias enfim. Como o tempo não para, e as coisas, fatos, imagens etc se repetem, temos a sensação de que os anos passam mais depressa depois dos 40 anos, assim como costumamos dizer que na nossa infância a distância entre os aniversários parecia infinita. É só uma teoria, claro, para reflexões numa manhã chuvosa como as deste janeiro carioca.
Meu cunhado Almir surpreendeu os familiares na manhã do dia primeiro de janeiro exclamando diante do relógio: “Onze horas já! Esse ano tá voando!” Cairam todos na risada, mas a brincadeira embutia outra teoria interessante, a da inutilidade da medição do tempo pelo homem. Como pastor batista, meu cunhado conhecia o trecho da Bíblia onde se lê que “mil anos para Deus são como um dia”. Sabia que o tempo é convenção humana, muda ao sabor das conveniências políticas, sociais, religiosas. Os judeus contam os anos a partir de 7 de outubro de 3760 a.C., dia em que Deus criou o mundo, imaginam eles. Os chineses adotaram o calendário gregoriano em 1912, para questões civis e administrativas, mas mantêm o seu, resultado de “uma combinação de calendários solares e lunares em que cada ano segue a ordem do horóscopo chinês, em um ciclo de 12 anos”. Fácil, né?
Na questão shakespeareana, o buraco aparentemente é mais embaixo, porque não trata do tempo em si. Quando faço a pergunta, sou eu quem faz, ou quem faz é aquele que não sabe a resposta? Quando converso com alguém, raciocino sobre o que dizer, que expressões usar, como me exprimir. E, ao mesmo tempo, em outro plano penso sobre as intenções do interlocutor, onde quer chegar e o que pretende. A representação mais prosaica destes diferentes níveis de pensamento são o anjinho e o diabinho soprando conselhos no nosso ouvido.
Ao juntar as duas observações, Roberto DaMatta suscitou outra questão: quem sou no tempo em que estou? Ou ainda: quem penso ser no tempo em que imagino estar? Parece complexo – e é mesmo, a não ser para qualquer recém-nascido, que sabe muito bem o que quer e o que fazer para conseguir. E não tem preocupação com passado, presente e futuro.

