Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

14

de
janeiro

O descascador de abacaxis

 

Obama tem um abacaxi maior que o mundo pela frente: a hipocrisia sem limites de seu país na questão dos direitos humanos. Como o mundo inteiro já sabe, a polícia americana bate e mata por qualquer coisa, sobretudo se quem estiver do outro lado do cassetete ou da arma for latino ou negro. Todos sabemos, também, que a prisão de Guantánamo não é nenhum resort para turistas árabes, lembrando mais a antiga Ilha Grande, onde como cantava Bezerra da Silva “filho chora e mãe não vê”. Uma prisão do exército americano no Iraque teve até foto de um preso puxado por coleira, como um cão. Para um muçulmano esta ofensa só é comparável à obrigação de ficar nu e simular sexo com outro preso, o que os americanos também fizeram.

Da mesma maneira, é sabido em toda parte como os Estados Unidos são soberbos na relação internacional com quem quer que seja. Quem não teve a suprema ventura de nascer dentro de suas fronteiras faz parte de uma espécie menor de gente, conforme atestam estrangeiros residentes principalmente no vasto interior do país, onde é forjada e nutrida a “maioria silenciosa” cantada em prosa e verso na década de 1970. É o “americano médio”, “red neck”, conservador, que não gosta do governo mas defende os subsídios à produção agrícola, metalúrgica e industrial, não vê com bons olhos imigrantes em geral e torce o nariz para judeus e negros.

É o pensamento desse povo que está no centro da hipocrisia mencionada lá no alto. Não foi essa gente que elegeu Obama – foi essa gente que não elegeu McCain. Na verdade mesmo, ela nem gosta de votar, nem pensa em parar seus afazeres diários para ir à urna – acha que governo só serve para cobrar impostos e criar problemas. Mas sustenta a política externa americana, sem entender nada. Colômbia? O que é isso? Venezuela? “What the hell is that?”. Quem determinou o bloqueio comercial ao regime de Fidel Castro foram os cubanos que fugiram para Miami, não os Estados Unidos. Eisenhower gostou de ver a ruína de Fulgencio Batista, ditador cubano amigo de Al Capone e companhia bela.

Agora vem à tona a história do massacre de civis na Colômbia, onde os EUA despejam bilhões de dólares anuais, desde o governo Clinton. O responsável pela matança é o próprio exército colombiano, que inflava suas “vitórias” sobre as Farc premiando com dinheiro as tropas mais efetivas no combate. Tradução livre: quanto mais cadáveres, maior o soldo. Comandante do exército, o general Mario Montoya incentivou a iniciativa e renunciou ao cargo porque documentos trazidos à luz pela ONG National Security Archives, da Universidade George Washington, revelam que o governo americano tinha conhecimento dessa, digamos, política, há 15 anos. Desde o começo do Plano Colômbia contra o narcotráfico que conspurca narizes norte-americanos o exército mata indiscriminadamente guerrilheiros e civis.

 

  

O ex-embaixador Myles Frechette admitiu a uma emissora de rádio de Bogotá: “Nós sabíamos. Não sabíamos de todos os detalhes, mas quando falávamos com os militares sobre esses rumores eles negavam ruidosamente. Nessa época, a ajuda militar à Colômbia foi quase proibida pelo Congresso americano por causa das violações dos direitos humanos nos anos anteriores, e o foco da ajuda era combater o narcotráfico”.

Obama deve começar pelo seu próprio jardim a revisão da política sobre direitos humanos. Nomeou Leon Panetta para dirigir a CIA. Trata-se de um combativo colaborador do governo Bill Clinton que condena publicamente o emprego de tortura nos interrogatórios da agência. Com a mesma caneta, manteve como segundo homem da CIA Stephen Kappes, responsável por algumas prisões onde se registraram casos de tortura na administração Bush.

Se a situação é nebulosa no plano mais íntimo, entre os principais assessores de segurança do presidente americano, que dizer do quintal, da América Latina? Obama já avisou que não devemos esperar a desativação de Guantánamo nos primeiros cem dias de seu governo. O que poderia ser uma ação histórica e emblemática não acontecerá tão cedo. A retirada das tropas do Iraque tampouco se dará com a agilidade que o mundo espera. Nada na enorme máquina que é o governo norte-americano muda de repente, apenas porque o novo presidente quer. Mesmo que esse presidente seja negro, tenha raízes muçulmanas, atenda pelo nome de Barack Hussein Obama e saiba como descascar um abacaxi.  

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