22
de
janeiro
O táxi anfíbio
O pior parecia ter passado, daí resolvi andar até a Mem de Sá e tomar o ônibus para casa, mas logo nos primeiros metros do caminho percebi que a chuva que já caía havia duas horas continuaria forte, então dei sinal para o táxi em embarquei na aventura. O limpador direito do parabrisas batia na lata fazendo um barulho irritante, que o motorista tentou justificar: “Tá vendo aquele buraquinho ali no começo da palheta? É onde estava o pino que estourou. Vou ter que ver isso assim que deixar o senhor”. Em seguida disse que pela manhã já tinha trocado a correia do ventilador, que alimenta o ar condicionado, até onde meus parcos conhecimentos de mecânica me permitiram entender.
O carro era um Santana velho de guerra na praça, fazia mais barulho que uma chocolateira e tremia todo a cada vez que tinha de parar num sinal vermelho. Mesmo assim, seguia o caminho com a valentia dos bravos. Comecei a ficar apreensivo quando a chuva apertou e entramos numa das vias de acesso à Tijuca, completamente alagada. Os carros e outros veículos passavam por nós pela esquerda e pela direita e levantavam marolas tsunâmicas que arrebentavam nas janelas do Santana como as onda no mar de Copacabana. Foi aí que o motor apagou e uma fumaça branca e espessa subiu por todos os poros do capô. Podia sentir os olhares dos outros motoristas ao redor e perguntei, aflito, se não era melhor abandonarmos o navio, como ratos.
“Isso não é nada”, o almirante falou, apontando o painel, “a luz vermelha não acendeu, tá vendo?”, e continuou girando a chave na ignição até o motor ressuscitar, mas aí quem morreu foi o ar condicionado e o vento soprado dentro do carro era morno como o bafo do capô. Olhei para ele pleno de agonia, mas um almirante batavo não se entrega e a nau avançou no rumo incerto. “Todo mundo quer ir pelo meio da pista, com medo dos buracos, por isso o trânsito não anda”, ensinou ele, desembaçando o parabrisas com a mão, sem muito êxito. Abri minha mochila e rasguei algumas páginas de jornal para ajudar, o que se revelou de grande valia, afinal.
“O problema é que a correia está frouxa e desliza, por isso o ar condicionado parou de funcionar”, o motorista continuou na sua aula e confesso que muito mais expressões e termos técnicos ele empregou e eu gostaria de ter anotado, mas a adversidade das circunstâncias me impediu. No meu imaginário, via apenas o fim da corrida, em frente ao prédio em Vila Isabel, de preferência sem ter de atravessar um rio para alcançar a portaria. Minhas dúvidas sobre o sucesso da empreitada ficaram ainda mais líquidas e certas quando abri dois dedos o vidro da janela para clarear a visão embaçada e o ônibus que avançou pela direita nos deu um banho diluviano. “Essa deve ter molhado até dentro do porta-mala”, eu disse, enquanto o audaz motorista tentava enxugar o aguaceiro com uma flanela gasta.
“Isso não pode piorar”, eu pensei e de imediato as palhetas do limpador pararam apontando para os céus, sem dúvida sinal de que o fim estava próximo. “Agora quebrou mesmo”, disse o profeta do óbvio. “Vou parar naquele posto pra consertar”. A minha deixa. O taxímetro marcava 17 reais e uns centavos, eu tinha 20 no bolso, era a chance de escapar ainda vivo da aventura. Desci na chuva torrencial, ajudei a abrir caminho para ele entre dois ônibus também presos no engarrafamento, até orientei sua entrada no posto. Então lhe dei a nota e ele mergulhou por instantes nas entranhas do carro, de onde emergiu com a suprema novidade:”Tô sem troco, dá pra ficar pelos 20?”.

