Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

30

de
janeiro

“Olha a Beija-Flor aí, gente!”

 Na última quinta-feira estive com Luiz Antônio Feliciano Marcondes, que fará 60 anos no final de junho e é uma das personalidades mais festejadas do Rio de Janeiro e do Brasil. É o intérprete oficial da Beija-Flor de Nilópolis desde 1976, a escola que o projetou internacionalmente e lhe proporcionou o destaque que ocupa como o mais carismático puxador de sambas-de-enredo na Sapucaí. Aliás, Neguinho da Beija-Flor não se incomodou de ser chamado de puxador até Jamelão lhe pedir para ser chamado de intérprete, pouco antes de morrer.


Por falar em morte, Neguinho luta contra um câncer no intestino há alguns anos. Fez uma cirurgia, submete-se a quimioterapia com regularidade e adotou a careca brilhante, depois de cobri-la com pano e chapéu. Mudou um pouco o visual, talvez esteja um pouco mais magro, mas o sorriso de dentes escancarados, o olhar e a simpatia continuam os mesmos.


Em entrevista à revista IstoÉ, revelou o choque ao receber o diagnóstico - “Chorei durante três dias”. Na gravação na TV Brasil na quinta-feira, deu uma aula de otimismo. Falou das inúmeras manifestações de solidariedade recebidas de todo o país e até do exterior, dos casos pessoais que lhe enviam sobre situações parecidas, das vitórias alcançadas.


Neguinho disse que o câncer o tornou menos materialista e o aproximou de Deus, de quem andou afastado durante toda a vida. Desconhecidos o abordam só para dizer “Estou com você, rezo por você”, o que o sensibilizou ao ponto de aprender a rezar o Pai Nosso e a Ave Maria. Se os outros rezam por ele, por que ele não? A religiosidade aflora na aflição. Quando perde o controle da situação, até comunista de carteirinha grita “Ai, meu Deus!”, quanto mais o sujeito de raízes católicas, umbandistas, espíritas ou evangélicas.


De tudo que Neguinho falou sobre a doença, do baque inicial à confiança da vitória, o que me marcou mais foi este aspecto. O chamamento espiritual, mesmo quando provocado por parentes, amigos e até desconhecidos, acontece de dentro para fora, é manifestação de fé, e a fé não é um atributo humano, mas sim um dom divino que deve ser exercitado em todos os momentos; não só nas horas difíceis. Alertado pelas pessoas que oram por ele, Neguinho aprendeu esta lição e resgatou um pouco do Luiz Antônio lá de Nova Iguaçu.

Arquivado em: Cotidiano I

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