28
de
fevereiro
Mundos flutuantes
Foto da exposição "Mundos flutuantes", no Sesi paulistano, feita por Haruo Ohara, que registrou o cotidiano de trabalhadores rurais japoneses em Londrina, no norte do Paraná.
Foto da exposição "Mundos flutuantes", no Sesi paulistano, feita por Haruo Ohara, que registrou o cotidiano de trabalhadores rurais japoneses em Londrina, no norte do Paraná.
Nelson Rodrigues dizia da juventude dourada da década de 70, alegres anos do desbunde, que tinha "saúde de vaca premiada", mas nada na cabeça. O que diria hoje, diante da foto de Regis Duvignau, distribuída pela Reuters, das vacas a caminho da 46ª Feira Internacional de Agropecuária de Paris? Os felizes proprietários as conduzem como se fossem dóceis cãezinhos.
Carnaval no Rio é escola de samba, apesar do esforço da Banda de Ipanema, Suvaco do Cristo, Simpatia é Quase Amor e tantos outros blocos de rua. A imprensa registra a saída de cada um, a empresa de limpeza urbana divulga as toneladas de lixo deixadas, a companhia de trânsito orienta motoristas no percurso, mas tudo gira mesmo em torno dos preparativos das escolas de samba para o grande desfile do chamado Grupo Especial, onde estão as principais atrações.
Como trabalho em televisão, corremos atrás dos barracões para a transmissão de flashes ao vivo durante a programação, dias antes das escolas ganharem o asfalto recém-pintado da Sapucaí. A três dias dos desfiles, só quatro escolas tinham tudo pronto para entrar na avenida: Beija-Flor, Salgueiro, Vila Isabel e Grande Rio. As outras oito corriam alucinadas contra o relógio, não tinham nem tempo nem disposição de abrir seu barracão para câmeras e mostrar o atraso ao resto do país.
Mas um detalhe que desconhecia, até porque este é o primeiro carnaval que passo no Rio depois de décadas em Brasília, é que mesmo nas escolas mais organizadas é uma dificuldade gravar boas imagens no barracão, porque o que as tevês querem mostrar (e o telespectador quer ver) são aquelas passistas esculturais, as madrinhas disso e daquilo, e as musas que inventaram para dar lugar a quem não batizou nada, não é destaque em nenhum carro alegórico, mas tem umas qualidades visíveis a olho nu.
Quando a produção da tevê consegue um barracão e a equipe chega para a gravação, as mulheres são empacotadoras da Casa Bahia, diaristas da Tijuca e manicures de Copacabana. Um colega maldoso diz que todas têm o calcanhar grosso, e a mais instruída e culta acha que Dr. Scholl é o inventor da bomba atômica. As gostosas só aparecem na hora de mandar beijinho pra galera e fazer poses sensuais para fotógrafos e cinegrafistas.
“Deitou para dormir e amanheceu morto”. A frase, curta, definitiva, resume o que a maioria das pessoas espera da morte: que chegue na madrugada, durante o sono, indolor, sem agonia, quem sabe um anjo soprando no ouvido o convite irrecusável. Com o palhaço Carequinha deve ter sido assim. Ouvi falar de uma matriarca de mais de noventa anos que mandou reunir a descendência num domingo ensolarado e deitada na cama chamou um por um para se despedir. Então disse “Agora me deixem só. Vou partir”, fechou os olhos e morreu. Lúcida, serena, soprou o último suspiro e deixou perplexos os familiares.
Ruy Castro escreveu, na crônica do dia 11 publicada na Folha de S. Paulo, sobre a morte da cantora norte-americana Blossom Dearie, aos 82 anos. Nunca tinha ouvido falar nela, o que talvez confirme a impressão do cronista: “No Brasil, os fãs de Blossom são tão poucos que, pelos meus cálculos, todos devem se conhecer”. Mas é na última frase, que ele fez a revelação que mais me interessou: “morreu dormindo”.
Recentemente, a morte ocupou espaço na mídia por causa da eutanásia pedida pela família da italiana Eluana Englaro, de 37 anos, em estado vegetativo desde acidente de carro em 1992. Os tubos que a mantinham viva (há 17 anos!) foram retirados aos poucos, prolongando a morte que, afinal, chegou para comoção da Europa e do mundo ocidental, onde a discussão sobre este tipo de morte é recheada de princípios e argumentos de fundo religioso. Aborto e eutanásia se encontram e se confundem no conceito sobre interrupção da vida.
Alheia a toda a discussão, a morte frequenta nosso cotidiano de formas variadas, quase sempre violentas. São desastres, atropelamentos, assassinatos em toda parte, no Rio de Janeiro, em Washington, Zurique. A interrupção da vida é fato corriqueiro, a violência ganha ares de coisa pequena, comum, a visão do sangue não provoca desmaios como antigamente. Chego a sentir alívio quando leio anúncios fúnebres de gente que morreu de velhice, como convém.
A nicaraguense Segovia Cigars lançou os charutos em homenagem ao presidente dos EUA, com preço entre 15 e 20 dólares. Não é para qualquer vira-latas, não é mesmo?
Vila Isabel não tem nada de Noel Rosa, a não ser uma pracinha mínima, um busto meio escondido e umas lojas e bares na 28 de Setembro, “principal artéria do bairro”, como se dizia antigamente. Em compensação, o jogo do bicho está presente em toda parte. Noel e o bicho são as duas marcas registradas da Vila. Foi lá, na Visconde de Santa Isabel com Barão do Bom Retiro, que outro barão, o de Drummond, fundou o primeiro jardim zoológico da cidade, em fins do século 19. Para sustentar sua criação, inventou o bicho, variação do jogo das flores que era moda no centro da cidade. Diz a lenda que o barão vinha na sua carroça e o povo perguntava “Que bicho vai dar hoje?” e ele respondia “Está aqui comigo”. Todos apostavam no cavalo, mas dava o porco que ele levava na parte de trás para vender no mercado.
No tempo de Noel, Vila Isabel era sinônimo de boemia, samba, carnaval e malandragem, como o Estácio de Ismael Silva, a Mangueira de Cartola e a Madureira de Paulo Benjamim de Oliveira. Pelo Boulevard 28 de Setembro passavam Lamartine Babo, Francisco Alves, Mário Reis e toda a nata da música popular daquele tempo. A Vila não tinha prédios, as casas em centro de terreno se alinhavam nas ruas arborizadas por onde os moradores circulavam entre o armazém de secos e molhados, a padaria, o açougue e a farmácia. As pessoas se cumprimentavam e no carnaval, a prefeitura montava o coreto da Rocha Fragoso, ponto de concentração das famílias de foliões.
Dizem que o carnaval da Vila ainda mantém algumas das características mais marcantes, mas duvido muito. Dia desses, estava no chuveiro e ouvi durante todo o banho o barulho de um helicóptero parado sobre a minha cabeça. Ouvi também a estridência de sirenes, e ao sair para o trabalho me deparei com o séquito policial contra o morro dos Macacos. A rua estava transformada num teatro de guerra urbana, numa Bagdá ou numa Hebron, e no entanto as pessoas não se alarmavam nem mudavam de calçada, apenas desviavam dos carros da Polícia Militar e dos soldados armados até os dentes como se fizessem parte da paisagem cotidiana.
Faz quatro meses que voltei à Vila, depois de quase 30 anos de vida em Brasília, e estou em fase de adaptação, em que tudo tem certo ar de novidade, embora eu já tenha conhecimento há muito tempo. É semelhante a uma viagem ao passado sem as coisas passadas, os bondes, as lotações, os táxis pretos, a cerveja Black Princess e o guaraná Princesa. Mas com muita deterioração, calçadas esburacadas, trânsito louco, pessoas se esbarrando sem nem mesmo perceber. Uma selva, assim como quase toda a cidade, quase todas as grandes cidades. A Vila de Noel é hoje a Vila de Martinho, da Unidos de Vila Isabel, do morro dos Macacos – o “17” cantado por Bezerra da Silva em referência ao jogo do bicho. E com isso volto ao início da crônica, ao samba e à contravenção que são a alma da Vila, sobrevivente a todas as mudanças trazidas pelo tempo.