5
de
fevereiro
A alma da Vila
Vila Isabel não tem nada de Noel Rosa, a não ser uma pracinha mínima, um busto meio escondido e umas lojas e bares na 28 de Setembro, “principal artéria do bairro”, como se dizia antigamente. Em compensação, o jogo do bicho está presente em toda parte. Noel e o bicho são as duas marcas registradas da Vila. Foi lá, na Visconde de Santa Isabel com Barão do Bom Retiro, que outro barão, o de Drummond, fundou o primeiro jardim zoológico da cidade, em fins do século 19. Para sustentar sua criação, inventou o bicho, variação do jogo das flores que era moda no centro da cidade. Diz a lenda que o barão vinha na sua carroça e o povo perguntava “Que bicho vai dar hoje?” e ele respondia “Está aqui comigo”. Todos apostavam no cavalo, mas dava o porco que ele levava na parte de trás para vender no mercado.
No tempo de Noel, Vila Isabel era sinônimo de boemia, samba, carnaval e malandragem, como o Estácio de Ismael Silva, a Mangueira de Cartola e a Madureira de Paulo Benjamim de Oliveira. Pelo Boulevard 28 de Setembro passavam Lamartine Babo, Francisco Alves, Mário Reis e toda a nata da música popular daquele tempo. A Vila não tinha prédios, as casas em centro de terreno se alinhavam nas ruas arborizadas por onde os moradores circulavam entre o armazém de secos e molhados, a padaria, o açougue e a farmácia. As pessoas se cumprimentavam e no carnaval, a prefeitura montava o coreto da Rocha Fragoso, ponto de concentração das famílias de foliões.
Dizem que o carnaval da Vila ainda mantém algumas das características mais marcantes, mas duvido muito. Dia desses, estava no chuveiro e ouvi durante todo o banho o barulho de um helicóptero parado sobre a minha cabeça. Ouvi também a estridência de sirenes, e ao sair para o trabalho me deparei com o séquito policial contra o morro dos Macacos. A rua estava transformada num teatro de guerra urbana, numa Bagdá ou numa Hebron, e no entanto as pessoas não se alarmavam nem mudavam de calçada, apenas desviavam dos carros da Polícia Militar e dos soldados armados até os dentes como se fizessem parte da paisagem cotidiana.
Faz quatro meses que voltei à Vila, depois de quase 30 anos de vida em Brasília, e estou em fase de adaptação, em que tudo tem certo ar de novidade, embora eu já tenha conhecimento há muito tempo. É semelhante a uma viagem ao passado sem as coisas passadas, os bondes, as lotações, os táxis pretos, a cerveja Black Princess e o guaraná Princesa. Mas com muita deterioração, calçadas esburacadas, trânsito louco, pessoas se esbarrando sem nem mesmo perceber. Uma selva, assim como quase toda a cidade, quase todas as grandes cidades. A Vila de Noel é hoje a Vila de Martinho, da Unidos de Vila Isabel, do morro dos Macacos – o “17” cantado por Bezerra da Silva em referência ao jogo do bicho. E com isso volto ao início da crônica, ao samba e à contravenção que são a alma da Vila, sobrevivente a todas as mudanças trazidas pelo tempo.


Comentário por Paulo Kramer — 13 13UTC fevereiro 13UTC 2009 (13:55)
Gollo, por via das dúvidas, caso você não tenha visto o meu e-mail no comentário anterior, ele é o kramer.paulo@uol.com.br
Entre em contato, por favor, assim que puder! Mais uma vez, muito obrigado e um abração do Paulo Kramer.