Visão Crítica

Política, economia, cultura e cotidiano por LUIZ AUGUSTO GOLLO

18

de
fevereiro

Sobre a morte

“Deitou para dormir e amanheceu morto”. A frase, curta, definitiva, resume o que a maioria das pessoas espera da morte: que chegue na madrugada, durante o sono, indolor, sem agonia, quem sabe um anjo soprando no ouvido o convite irrecusável. Com o palhaço Carequinha deve ter sido assim. Ouvi falar de uma matriarca de mais de noventa anos que mandou reunir a descendência num domingo ensolarado e deitada na cama chamou um por um para se despedir. Então disse “Agora me deixem só. Vou partir”, fechou os olhos e morreu. Lúcida, serena, soprou o último suspiro e deixou perplexos os familiares.


Ruy Castro escreveu, na crônica do dia 11 publicada na Folha de S. Paulo, sobre a morte da cantora norte-americana Blossom Dearie, aos 82 anos. Nunca tinha ouvido falar nela, o que talvez confirme a impressão do cronista: “No Brasil, os fãs de Blossom são tão poucos que, pelos meus cálculos, todos devem se conhecer”. Mas é na última frase, que ele fez a revelação que mais me interessou: “morreu dormindo”.


Recentemente, a morte ocupou espaço na mídia por causa da eutanásia pedida pela família da italiana Eluana Englaro, de 37 anos, em estado vegetativo desde acidente de carro em 1992. Os tubos que a mantinham viva (há 17 anos!) foram retirados aos poucos, prolongando a morte que, afinal, chegou para comoção da Europa e do mundo ocidental, onde a discussão sobre este tipo de morte é recheada de princípios e argumentos de fundo religioso. Aborto e eutanásia se encontram e se confundem no conceito sobre interrupção da vida.


Alheia a toda a discussão, a morte frequenta nosso cotidiano de formas variadas, quase sempre violentas. São desastres, atropelamentos, assassinatos em toda parte, no Rio de Janeiro, em Washington, Zurique. A interrupção da vida é fato corriqueiro, a violência ganha ares de coisa pequena, comum, a visão do sangue não provoca desmaios como antigamente. Chego a sentir alívio quando leio anúncios fúnebres de gente que morreu de velhice, como convém.

Arquivado em: Cotidiano I

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